Manual da FIAF, o retorno

2 10 2016

moving-imagine-cataloguing-manual-250A Federação Internacional dos Arquivos do Filme (FIAF) lançou, em abril de 2016 o FIAF moving image cataloguing manual, revisão das normas de catalogação de filmes publicadas em 1991. O trabalho está disponível para download gratuito no site da FIAF.

Quando tomei conhecimento das normas da FIAF, num curso ministrado por uma profissional da Cinemateca Brasileira, já catalogava filmes há uns dez anos utilizando normas desenvolvidas localmente. Tive duas surpresas agradáveis: primeira, nas regras da FIAF eu encontrava solução para quase todos os problemas de catalogação de filmes com os quais já havia me defrontado; segundo, as soluções que eu mesma havia criado a partir da observação das necessidades dos usuários da instituição na qual trabalhava não eram tão diferentes assim daquelas da FIAF, em sua essência e  guardadas as devidas proporções.

O novo manual parece, à primeira vista, um trabalho bem mais profundo do que uma simples atualização de normas e tem novidades interessantes. Uma das mais importantes é a inclusão de elementos dos Requisitos Funcionais para Registros Bibliográficos (FRBR) e dos metadados para obras cinematográficas do European Standards Commitee (CEN).  O novo manual adota as entidades Obra, Variante (e não Expressão) Manifestação e Item, preferindo os conceitos de Obra e Variante propostos pelo CEN, por serem mais adequados à representação das imagens em movimento do que os conceitos de Obra e Expressão dos FRBR.

Para os FRBR, Obra e Expressão são entidades abstratas; apenas a Manifestação e o Item têm dimensão física. É difícil, entretanto, imaginar obras cinematográficas como idéias abstratas, porque são produto do trabalho de equipes formadas por diversos criadores e técnicos, só existindo, de fato, quando se tornam objetos analógicos ou digitais. Resumindo, para que um filme exista é necessário que:  um roteiro seja escrito; cenários e figurinos sejam criados; imagens e sons registrados separadamente sejam reunidos e montados numa ordem que não é a mesma da filmagem ou gravação, ocorrendo em todas as etapas do processo decisões estéticas do diretor, produtor, fotógrafo, iluminador, atores, diretor de som, montador etc. No mundo das imagens em movimento, uma Obra já é sua própria expressão.

Variante, na terminologia da FIAF, são versões do filme que trazem variações do conteúdo original, por exemplo, cortes ou acréscimos de cenas, diálogos ou narração, cores, música etc.  Assim, a versão de 1992 do filme Blade Runner modificada pelo diretor, que suprimiu a sequência final e a narração do original lançado em 1982, é uma variante. A versão colorizada, com trilha sonora de música pop e outras modificações do filme Metrópolis, realizada em 1984 por Giorgio Moroder, é uma variante do filme silencioso original, dirigido por Fritz Lang em 1927.

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As normas da FIAF foram elaboradas para atender às necessidades bastante sofisticadas das cinematecas e arquivos de filmes, mas, como se trata do trabalho  mais completo e profissional voltado para o universo das imagens em movimento, qualquer catalogador de filmes precisa conhecê-las, não importa a regra que siga. Segundo a FIAF, são compatíveis com outros padrões existentes, notadamente o RDA: Resource Description and Access.

Então, pessoal, coragem. Cliquem lá no link e aprendam tudo (ou quase tudo) que vocês precisam saber sobre catalogação de filmes.

 

 





Seleção e desenvolvimento de coleções de vídeos

23 02 2016

Quem trabalha com coleções de vídeos, DVDs ou qualquer outro suporte para distribuição de filmes no mercado doméstico costuma se deparar com questões do tipo:

Mas esse filme é tão bom, por que não tem aqui? Deveria ter.

Vocês AINDA não compraram os filmes que ganharam o Oscar no ano passado?!

O que esta porcaria de filme faz aqui?

Como não se pode ter todos os filmes do mundo no acervo, e mesmo que nos limitássemos aos filmes bons do mundo seria difícil concordância total em torno do que seja um filme bom, é fundamental ter critérios de seleção que deem consistência à coleção e que nos permitam dar ao usuário as respostas aos seus questionamentos.  Que poderiam ser, hipoteticamente:

Mesmo que seja bom, grandes sucessos comerciais que podem facilmente ser encontrados em outras locais não são nossa prioridade de compra.

Nós não compramos, necessariamente, filmes premiados com o Oscar. Seria necessário que o filme se enquadrasse em outros critérios, como importância do realizador, temática etc.

Independentemente da qualidade, procuramos comprar todos os filmes que sejam adaptações de obras literárias brasileiras.

A literatura sobre o assunto não é nada abundante, menos ainda do que na área do tratamento da informação. Um dos motivos pode ser o pouco tempo de reflexão sobre o assunto na área, já que a presença de coleções de vídeos em bibliotecas é algo relativamente recente. Nas universidades, que estão entre as primeiras instituições a incorporarem o vídeo como tecnologia educacional, as coleções começaram a se desenvolver fora das bibliotecas, situação que só começou a mudar na segunda metade dos anos 1970 (BRANCOLINI, 1994),  mas as políticas de desenvolvimento para esse tipo de coleção ainda não estão suficientemente presentes mesmo nessas instituições (WALTERS, 2003).

Num estudo realizado em 1977 pela Association of Research Libraries, bibliotecários apontaram como um dos obstáculos para o desenvolvimento de coleções audiovisuais em suas bibliotecas o receio de que a aquisição de documentos e equipamentos audiovisuais provocassem o declínio dos acervos de documentos impressos (ASSOCIATION OF RESEARCH LIBRARIES, 1977 citada por BRANCOLINI, 1994). Para Mason (1994), esse medo teria suas origens na grande preocupação com o analfabetismo nos Estados Unidos, problema cuja culpa foi equivocadamente atribuída à televisão e, por extensão, ao vídeo. Os coleguinhas da terra do Pato Donald, de acordo com essa autora, reagiram a essa ameaça imaginária aferrando-se à ideia de que as bibliotecas seriam o último reduto do “sagrada palavra impressa” (p. 10).

A última tempestade, filme de Peter Greenaway

A última tempestade, filme de Peter Greenaway

Não encontrei dados sobre a situação dos acervos de vídeo no Brasil, nem publicações brasileiras sobre o assunto, mas minha experiência pessoal me faz supor que por aqui não é diferente. Quando comecei a trabalhar na Escola de Comunicações e Artes da USP,  em 1981, já havia na Biblioteca uma coleção de filmes, originária do Departamento de Cinema da Escola. Incorporada oficialmente ao acervo da Biblioteca em 1973, na prática era gerenciada por pessoal sem formação em biblioteconomia.  Ao procurar por experiências semelhantes para orientar meu trabalho de organização de acordo de acordo com os princípios da área, descobri que poucas bibliotecas na cidade mantinham acervos de filmes e que a única outra grande filmoteca existente na USP era a da Faculdade de Educação – que na época não fazia parte da biblioteca. Alguns anos mais tarde, na segunda metade da década de 1980, começamos a formar uma coleção de vídeos na Biblioteca da ECA. Novamente, vivi o problemas de não encontrar experiências semelhantes para estudar. Os critérios para seleção do material foram estabelecidos na base da experimentação e erro, com o indispensável auxílio do professores da instituição, notadamente os do curso de cinema.

Sempre acreditei, baseada em tudo o que vi e ouvi no decorrer de uma longa militância audiovisual, que o problema dos bibliotecários brasileiros era a falta de formação para tratar qualquer documento que não tenha letras impressas, página de rosto e lombada, mas talvez existam razões mais profundas. É difícil saber se o mesmo preconceito ingênuo contra a linguagem audiovisual admitido pelos bibliotecários dos Estados Unidos também nos afetou aqui no Brasil. Mas, como sempre importamos muita cultura daquele país e estudamos muita literatura técnica lá publicada, não é possível que essa desconfiança em relação aos vídeos tenha sido assimilada pelos bibliotecários brasileiros, talvez até de forma pouco consciente?

De uma forma geral, princípios básicos de desenvolvimento de coleções e seleção de documentos  podem ser aplicados a coleções de vídeos (WALTERS, 2003; MULTIMEDIA), mas sempre será necessário ter cuidado com aspectos específicos da linguagem, da técnica e, sobretudo, do uso que se faz desse tipo de documento. Conhecer o usuário da coleção e como ele costuma utilizar filmes em sua as atividades (ou em sua vida), é o primeiro passo para elaborar critérios de seleção. Vamos lembrar que um mesmo filme pode ser usado de várias formas:

como objeto de estudo em si, por estudiosos do cinema;

fonte de informação sobre um assunto;

lazer e fruição;

fonte de imagens específicas para serem reutilizadas em diferentes contextos;

para motivar ou estimular discussões

etc

Quando formamos uma coleção de vídeos estamos, na realidade, trabalhando com um enorme variedade de conteúdos que podem ser registrados em suportes como o velho videocassete, DVD, blu-ray  e o que mais houver. Nossa coleção pode ter filmes originalmente realizados para cinema (ou TV) de curta ou longa metragem, telenovelas, publicidade, peças de teatro, clips musicais, óperas, reportagens, telejornais, aulas, palestras, vídeos institucionais, videoarte, videodança, registros de performances  etc. É importante definir qual será o perfil da coleção em relação a essa variedade de opções, lembrando que cada uma delas pode ser um universo. Preciso de comerciais de TV no acervo? Ótimo. Consigo obter esse tipo de material? Maravilha. Meu problema agora é saber o que priorizar, porque “todos” não é uma opção viável. O acervo terá, predominantemente, filmes de longa metragem? Então precisamos pensar em cineastas, épocas, países, gêneros, técnicas. Se fosse fácil não teria graça, nem precisaria de pessoal especializado para fazer, certo? Para Brancolini (1994), seleção de vídeos pode ser responsabilidade de um especialista no assunto, de um especialista no formato ou de um comitê com ambos, e, por exigir conhecimentos específicos, seria desejável contratar bibliotecários treinados para a tarefa.  Sugestões sábias, sem dúvida, mas viáveis apenas em bibliotecas com recursos para tanto.

Deus e o Diabo na terra do sol, filme de Gláuber Rocha

Deus e o Diabo na terra do sol, filme de Gláuber Rocha

 

Para montar uma boa coleção de  vídeos de cinema o bibliotecário precisa se empenhar em conhecer a área e construir um bom repertório de filmes, mas não pode prescindir da ajuda de especialistas. Só gostar de cinema e conhecer nomes de cineastas não basta. Na Biblioteca da ECA os professores do curso de cinema nos forneceram as principais orientações sobre o que priorizar:

filmes importantes para o estudo do cinema em suas várias disciplinas (recebemos uma lista com os cineastas mais estudados na Escola)

títulos mais difíceis de serem encontrados em locadoras comerciais (na época as locadoras estavam no auge);

filmes não muito recentes, que já passaram pelo crivo do tempo e de diversas análises;

produções brasileiras, independentemente da qualidade;

trabalhos feitos para a televisão: compactos de novelas, séries e minisséries (no caso das séries, pelo menos a primeira e a última temporadas);

filmes de animação.

Aos poucos fomos acrescentando outros critérios, a partir da observação das demandas de usuários e da identificação das necessidades dos cursos da instituição.

Numa biblioteca universitária, onde é possível contar com a ajuda do especialista da área que também é o usuário prioritário da coleção e onde existe o critério relativamente objetivo do uso em disciplinas, a tarefa da seleção é menos complexa do que numa biblioteca pública, por exemplo. Pittman (1994) considera que os critérios de seleção para um acervo de cinema em biblioteca pública precisam considerar que a coleção pode ter vários perfis: 1. visão geral da história do cinema; 2. seleção dos melhores exemplos dos principais gêneros cinematográficos; 3. representação da obra dos melhores cineastas; 4. coleção popular. É na hora de definir quais são esses “melhores”  que o bicho costuma pegar. Não somos nós, bibliotecários, que vamos dizer quem são os melhores cineastas do universo, mas precisamos saber onde buscar as informações para fundamentar a seleção.

Na literatura estrangeira, é comum encontrar a recomendação para consultar listas de melhores filmes elaboradas pela crítica. É uma opção, mas é importante escolher as listas com cuidado, preferindo aquelas elaboradas por instituições ou publicações especializadas em cinema, comparar várias listas de fontes e países diferentes e evitar se apoiar na opinião de um único especialista. A lista da revista Cahiers du Cinéma e a do British Film Institute são apenas dois exemplos de fontes respeitáveis. Ter filmes premiados no acervo é uma boa ideia para atrair interesse do público mas, de novo, cuidado. Tudo bem adquirir filmes que receberam Oscar, mas é importante mostrar aos usuários que existem outros prêmios, outras culturas e diversos festivais espalhados pelo mundo e pelo Brasil, como a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, o festival É Tudo Verdade, o Sundance Film Festival, o Festival de Berlim etc.

CIdadão Kane, filme de Orson Welles

CIdadão Kane, filme de Orson Welles

Pittman (1994) menciona ferramentas criados especialmente para auxiliar bibliotecários, como esta, da American Library Association, mas aqui no Brasil não existe nada parecido, que eu saiba.

Outras questões a considerar com atenção em qualquer tipo de coleção de filmes:

Idioma: preciso ter apenas filmes legendados em português ou meu público se vira com legendas em inglês, espanhol ou mesmo sem legendas? E quanto aos filmes dublados, preciso ter ou não? Há um tipo de filme que deve ser preferencialmente dublado ou legendado?

Suporte: quase todos os acervos começaram em videocassete. Devo (e posso) adquirir todos os títulos novamente, em DVD ou blu-ray? Melhor ainda, é precisa ter no acervo físico todos os títulos de interesse dos usuários ou posso trabalhar com indicações de material disponível online?

Distribuidoras: há diferenças consideráveis entre as empresas que distribuem filmes para o mercado doméstico, tanto na qualidade de imagem e som das cópias quanto na presença de extras, encartes, cuidado com as informações nos menus e embalagens etc.

Versões e refilmagens: alguns filmes têm mais de uma versão, com pequenas ou não tão pequenas diferenças entre uma e outra (versão do diretor, versão do produtor etc). Outros são refilmados várias vezes, com elenco e equipe diferentes (temos uns 4 ou 5 King Kongs). É preciso estipular critérios para adquirir ou não várias versões ou refilmagens e, naturalmente, tomar cuidado para não comprar o filme errado.

Vou encerrando por aqui este texto, antes que os leitores caiam no sono, mas ainda há muito a comentar e discutir sobre o assunto. Aguardem outros posts.

 

BRANCOLINI, Kristine R. Video collections in academic libraries . In.: HANDMAN, Gary (Ed.). Video collection development in muti-type libraries: a handbook. Westport: Greenwood Press, 1994, p. 41-70.

MASON, Sally. Libraries, literacy, and the visual media. In.: HANDMAN, Gary (Ed.). Video collectiom development in muti-type libraries: a handbook. Westport: Greenwood Press, 1994, p. 9-13 .

MULTIMEDIA seeds: audio and video collections in schools and libraries. Disponível em <http://eduscapes.com/seeds/index.html&gt;.  Acesso em:  19 fev., 2016.

PITTMAN, Randy. Cinema collections: public libraries, p. 195-206. In.: HANDMAN, Gary (Ed.). Video collectiom development in muti-type libraries: a handbook. Westport: Greenwood Press, 1994.

WALTERS, W.H.  Video media acquisitions in a college library. Library Resources & Technical Services , v. 47, n. 4 , p. 160–170, 2003.

 





Os números de 2015

7 01 2016

Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2015 deste blog.

Aqui está um resumo:

Um bonde de São Francisco leva 60 pessoas. Este blog foi visitado cerca de 2.900 vezes em 2015. Se fosse um bonde, eram precisas 48 viagens para as transportar.

Clique aqui para ver o relatório completo





Referências de audiovisuais: um olhar sobre a revisão da NBR6023

21 12 2015

Num momento de puro altruísmo e sincera preocupação com a humanidade, decidi me debruçar sobre o projeto de revisão da norma para referências bibliográficas (NBR6023), que a ABNT recentemente submeteu à consulta pública. Analisar norma de referência é um dos trabalhos mais chatos que já inventaram para um bibliotecário fazer, quase tão ruim quanto fazer inventário ou elaborar regulamento. Mas, pensando que se é chato para mim que dirá para o pobre do estudante ou pesquisador que precisa apenas usar a norma, enfrentei a empreitada, pensando em Sísifo, Prometeu, Hércules e tantos outros personagens mitológicos que enfrentaram barras bem piores.

 

Hercules combatant Achelous

 

O post mais popular do Blog da Biblioteca da ECA é sobre citação e referência de filmes e teve, até o momento, 19.293 acessos e 42 comentários de pessoas com dúvidas sobre o assunto, seguido pelo post sobre citação e referência de documentos musicais, com 10.869 e 21 consultas. O terceiro colocado, que explica como localizar livros nas estantes e foi publicado um ano antes, teve modestos 1943 acessos.

Esses números me fazem acreditar que o interesse no tema é grande, e o tipo de consulta que recebemos nos comentários deixa claro que as dificuldades são muitas. De fato, as regras para documentos audiovisuais são bastante falhas na norma vigente e tudo indica que não vão melhorar muito depois da revisão, pelos motivos de sempre:

1. Ninguém liga para documentos audiovisuais.
2. Ninguém entende nada de documentos audiovisuais.
3. Ninguém dá a mínima para as dúvidas dos usuários de audiovisuais.

Além disso, o processo de discussão dos resultados da consulta pública está sendo conduzido de forma autoritária e pouco eficiente. Quem participou da consulta pública foi convidado para uma reunião na qual supostamente seriam discutidas as sugestões apresentadas. Mas, na verdade, houve muito pouco espaço para uma real discussão do conteúdo da norma, porque os organizadores consideram  que já está tudo decidido. Apenas as observações de caráter formal e as questões que apontavam inconsistências no texto foram consideradas, o que me faz pensar por que, afinal, passei dois dias acompanhando, atônita, acalorados debates sobre pontos e espaços.

A “discussão” não chegou ainda ao capítulo dos audiovisuais. Se chegar lá, eu gostaria muito e poder trocar ideias com pessoas que realmente conheçam o documento audiovisual e seus usuários, mas sei que isso não vai acontecer. Se 9 anos (?!) não foram suficientes para construir uma norma adequada e de fácil compreensão, talvez só nos reste fazer como Manuel Bandeira e tocar um tango argentino ou pensar numa alternativa mais prática à ABNT.

Apontei alguns pontos no texto que considerei falhos mas, de fato, todo o capítulo dos audiovisuais precisaria ser repensado e refeito. Logo no escopo do capítulo se lê:

Inclui imagens em movimento e registros sonoros nos suportes: disco de vinil, DVD, blu-ray, entre outros.

Bobagem. Numa área onde suportes novos aparecem todos os dias seria melhor não especificar nenhum. Se querem dar exemplos de suportes, coloquem pelo menos os mais conhecidos atualmente, não apenas três.

A norma aponta como elementos essenciais da referência de filmes: título, diretor, produtor, local, produtora, data e especificação do suporte em unidades físicas (destaques meus). O produtor como elemento obrigatório é problemático, porque existem diversas funções na esfera da produção de uma obra audiovisual: produtor, diretor de produção, produtor executivo, produtor associado, co-produtor supervisor de produção etc. Isso pode confundir o usuário. “Qual desses produtores eu coloco na referência” é uma pergunta que eu escuto bastante. Na maior parte dos casos, o produtor ou o diretor de produção seriam os mais indicados, mas a norma dá um exemplo citando o produtor executivo. Confusão formada.

Trecho da ficha técnica do filme Reflexões de um liquidificador, extraída da Filmografia Brasileira (Cinemateca Brasileira).

Trecho da ficha técnica do filme Reflexões de um liquidificador, extraída da Filmografia Brasileira (Cinemateca Brasileira).

Outra bagunça terminológica é o uso do termo produtora. Existem empresas produtoras e empresas distribuidoras (embora algumas façam as duas coisas). Na referência de um filme em DVD o mais lógico é informar o nome da empresa responsável pela distribuição no mercado de vídeo doméstico, porque é preciso identificar corretamente o material referenciado. Nos exemplos aparecem as distribuidoras, exceto no de filme em película. Para referenciar uma cópia em película consultada no acervo de uma cinemateca, por exemplo, é melhor citar a(s) empresa(s) produtora(s). Essas distinções nem sempre são simples de entender, e a norma não deveria aumentar a confusão. Por que usar o termo produtora quando, na maioria dos casos, o que é mencionado na referência é a distribuidora?

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Trecho da ficha técnica do DVD do filme O sacrifício, extraída do site da Livraria Cultura.

Minha sugestão para o enunciado deste item seria algo assim: ” Os elementos essenciais são: título, diretor OU produtor OU roteirista, local de distribuição, empresa distribuidora, data de distribuição e especificação do suporte. Na ausência de pessoas creditados como diretor, produtor ou roteirista, inserir outro nome que possa ser identificado como responsável pelo conteúdo”. Mas não tenho certeza de que isso seria possível, porque existem “diretivas” para elaboração de normas (sim, normas para elaborar normas) e nem sempre o que a gente acha interessante é permitido.

De qualquer forma, seria importante permitir ao usuário escolher um ou mais indivíduos,  ou uma instituição (ou instituições), com ampla responsabilidade sobre o conteúdo do documento para mencionar na referência, e deixar claro, nos exemplos, que existe essa opção. Há dois exemplos de filme de longa-metragem no texto do projeto de norma, ambos com vários nomes da equipe citados, o que é um exagero completamente inútil numa referência.

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Os demais exemplos, com menos dados, são de curtas-metragens, séries de TV e vídeos de música, o que pode dar ao usuário a ideia errada de que precisa encher de nomes a referência de um longa. Pobre usuário, sempre perdido na selva da normalização, sempre dependendo de nós, às vezes precisando contratar um bibliotecário para revisar suas referências.

Há diversas falhas nos exemplos do projeto, algumas pequenas, outras nem tanto. Parecem ter sido elaborados por pessoas que não conhecem muito esse tipo de documento. Um dos exemplos é de uma coleção de slides – chamados no texto pelo nome em português que ninguém mais usa desde que eu era criança, “diapositivos” – acompanhados por áudio em fita cassete. O que diabos é isso? Algo que era bastante usado como material didático antes da popularização do videocassete. Qual é a possibilidade de alguém ainda precisar referenciar esse tipo de material? Remota. Nunca me perguntaram sobre isso nos últimos 30 anos. Claro que é preciso ter exemplos de materiais antigos na norma, mas dentro de um universo de apenas 8, dedicar um exemplo inteirinho para um tipo de documento que nem deve existir mais não muito faz sentido.

No exemplo da série Breaking bad, foram citados os produtores executivos. Ninguém que conheça séries faria isso, já que o normal seria mencionar o criador da série, como mostra claramente o registro da IMDB. Por que confundir assim o usuário?

Nos dois exemplos para vídeos publicados no Youtube a interpretação da responsabilidade é discutível.

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Nesse exemplo, não está claro nos créditos que o vídeo seja uma produção de Leerestademoda. No letreiro final do vídeo a única informação disponível é o endereço do site leerestademoda.com, mas não há nenhuma indicação que nos permita concluir que se trata da entidade produtora do documento.

Snap 2015-12-21 at 13.15.10Nesse outro caso, parece realmente haver um equívoco, já que Laura Cohen é autora do manifesto, não do vídeo.

Posso estar sendo chata, mas em 9 anos de trabalho de revisão o pessoal não conseguiu encontrar uns exemplos melhores?

Ainda em relação aos vídeos do Youtube, senti falta de orientações sobre o canal, um elemento importante. O canal representa o indivíduo ou instituição que publica o documento na plataforma, que pode ser ou não o responsável pela realização do vídeo. Em alguns casos, é uma informação que pode garantir a confiabilidade do documento publicado e, por esse motivo, muitos usuários perguntam como mencioná-la na referência.

Temos pouco mais de 2 páginas para modelos de referências de documentos audiovisuais e no mínimo 15, se contei direito, para documentos textuais. Para as inadequadamente chamadas “monografias” (*) temos umas 4 páginas de modelos, com subdivisões para monografia no todo, parte de monografia, monografia em meio eletrônico e parte de monografia em meio eletrônico. Entretanto, elaborar uma referência de filme não é tarefa menos complexa, e um documento audiovisual também pode ser referenciado em parte, no todo, em meio eletrônico etc. O conteúdo de um documento audiovisual pode se apresentar em tantas ou mais formas do que um documento textual: evento, reportagem, capítulo de novela, videoarte, documentação de performance, concerto, clip, ópera, entrevista, depoimento, comercial, tomadas não editadas, cenas excluídas, extras de DVDs, aulas etc. Não imagino que seja possível ter exemplos para todos esses casos, porque não queremos uma norma com 512 páginas, mas talvez fosse possível reorganizar o texto, iniciando com uma seção de modelos genéricos que servissem para documentos com características de conteúdo semelhante, independentemente do suporte.

Outra orientação que me incomoda, suponho que tirada da catalogação, é a entrada pelo título para qualquer documento audiovisual. Na verdade, existem audiovisuais que são obras coletivas e outros que não são, assim como acontece no mundo dos textos.

Vou parando por aqui, para não matar meus leitores de tédio. Assim que reunir coragem e determinação suficientes, publicarei meus comentários sobre referências de documento sonoro, partitura e documento iconográfico. Não sou, de forma alguma, especialista em normalização, sou apenas uma bibliotecária de referência que conhece documentação audiovisual e gosta de auxiliar usuários. Portanto, se alguém quiser corrigir algum erro meu ou acrescentar comentários, ficarei muito grata.

Normas para quem? (post do Blog da Biblioteca da ECA)

(*) Um livro de poemas ou de contos, uma coletânea de peças teatrais ou de textos diversos não são monografias, mas há uma regra besta qualquer determinando que seja usada essa palavra.





Uma história sem fim ou O fim de uma história

26 01 2015

No  I Encontro Nacional de Bibliotecários Catalogadores de Acervos de Música do Brasil, evento simultâneo ao XVIII Seminário Nacional de Bibliotecas Universitária (SNBU), apresentei, com minha colega Sarah Lorenzón Ferreira, nosso trabalho Catalogação de partituras na Biblioteca da ECA.

Nesse trabalho, também apresentado no SNBU como poster, contamos um pouco da história da organização do acervo de partituras da Biblioteca da ECA e da metodologia de tratamento desse material desenvolvida pela instituição ao longo de uns 45 anos de trabalho voltados ao atendimento de usuários músicos e musicólogos. Um trabalho regido pelo princípio de atender às demandas de informação do usuário, sem o apego cego a regras ultrapassadas de catalogação que, muitas vezes, servem mais como apoio às inseguranças dos bibliotecários do que como mecanismo de padronização de fato. Até porque, como não canso de lembrar, regras feitas para tratamento de texto muito pouco se prestam à padronização de verdade de outros tipos de documentos.

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Também abordamos os problemas envolvidos na migração dos registros de nossa base de dados de partituras – uma velhinha pioneira nascida em 1978 – para o Banco de Dados Bibliográficos da USP (Dédalus), criado bem depois. O motivo eternamento alegado por bibliotecários, analistas e sei lá mais quem do Departamento Técnico do Sistema Integrado de Bibliotecas da USP para não fazer a migração (solicitada pela Biblioteca da ECA em 1996) era, além da necessidade de priorizar coleções mais valorizadas pelo mundo acadêmico do que partituras musicais, o uso pecaminoso de regras locais. Os campos da base são perfeitamente mapeáveis para a estrutura do Dédalus, mas isso não fez diferença alguma;  o próprio formato MARC sempre permitiu a criação de campos locais, mas isso jamais foi levado em consideração para o acervo de partituras.  O pavor provocado pela frase “não é AACR2” tem efeitos paralisantes sobre o bibliomundo. Se um dia a polícia quiser dispersar uma passeata de bibliotecários não precisa jogar bombas, é só gritar “não usamos AACR2” que vai ser uma debandada geral.

Um dos impasses era a falta de um campo específico no Sagrado Formato MARC para o meio de expressão das obras musicais. Em nossa base o campo sempre existiu.

Mas vocês não podem colocar no campo Assunto, como todo mundo?

 

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Era a frase que mais escutávamos. Sim, podíamos, mas estaríamos fazendo errado como todo mundo. Meio de expressão são os instrumentos, vozes, grupos vocais e instrumentais para os quais a obra musical foi escrita. Uma partitura para violino e orquestra não é um documento SOBRE violino e orquestra, certo? Logo, inserir a informação no campo 650 do Sagrado (permitam-me chamá-lo assim, singelamente) é um pequeno erro conceitual, se não estou equivocada. Ao fazer a migração para um sistema maior, não queríamos de dar um passo para trás e o surgimento dos FRBR,  no qual o Medium of Performance é um dos atributos da obra musical, reforçou nossa convicção de que nossa abordagem era a mais correta. E finalmente, em 2012 o mundo não acabou e o campo 382 – Medium of Performance entrou para o Sagrado. O mundo é grande e dá voltas, afinal.

No início de 2014, quando finalmente começamos a discutir de forma concreta a migração, outro impasse surgiu: o campo 650 do Sagrado (Assunto tópico) é obrigatório no Dédalus. Mas partituras não têm assunto tópico, têm Meio de expressão e Gênero / Forma:

MENDES, Gilberto. Motetos à feição de Lobo de Mesquita

382 – Meio de expressão : Voz, oboé, violoncelo e cravo
655 – Gênero / forma : Moteto

Como fazer, então? É um tanto absurdo exigir que um documento tenha assunto tópico quando, por sua própria natureza, ele não tem. Inventar um assunto só porque um campo precisa de um conteúdo, porque alguém pensou que “todo livro é sobre alguma coisa” e, portanto, com as partituras deve ser a mesma coisa. Nossa singela sugestão de usar a expressão “Sem assunto”, como fez outra biblioteca da USP mais badalada do que a nossa, foi vetada. Esse tipo de liberdade com as normas é só para quem pode.

E sim, é verdade. Se vocês não acreditam, procurem “sem assunto” no Dédalus e vejam o que acontece: são 14529 livros, quase todos sobre alguma coisa, indexados com a expressão “sem assunto” justamente no campo assunto. Contradições do pensamento dominante em nossa área de atuação e suas regras supostamente inquebráveis: o que seria certo (partituras sem assunto tópico) vira errado e não é permitido, enquanto o errado (livros sem assunto), torna-se certo e aprovado.

Minha colega Sarah decidiu então buscar diálogo e informação atualizada um pouco mais longe e solicitou esclarecimentos sobre o uso dos 382, 650 e 655 para a própria Library of Congress, que respondeu prontamente. Mais longe às vezes pode ser mais perto, já que estamos tratando de contradições. A resposta deixa claro que nossa abordagem, afinal, é a que será vitoriosa num futuro bastante próximo. A LC está preparando o Library of Congress Genre/Form for Library and Archival Material , que deverá separar os termos de gênero e forma dos assuntos tópicos. Stephen Yusko, da Divisão de Música, observou, em sua resposta, que os cabeçalhos da LC para partituras e gravações sonoras  nunca foram assuntos no sentido normal do termo, mas sempre funcionaram como gênero e forma. Logo que esse novo produto estiver implantado, o que deverá ocorrer em 2015, os campos 655 e 382 substituirão o campo 650.

Isso quer dizer que, se a migração que já tenho chamado de lendária dos registros da nossa base para o Dédalus efetivamente acontecer, provavelmente teremos que dar um jeito de preencher um campo que logo estará obsoleto.

Mas essa história ainda não terminou. Sarah e eu continuamos vivas e saudáveis, e agora temos um novo e jovem chefe na divisão de catalogação do Departamento Técnico do SIBi, alguém aberto ao diálogo e com formação tecnológica sólida e que parece disposto a botar fim a uns vinte anos de atraso. Os trabalhos foram finalmente retomados e estão andando rápido.

Nem tudo termina com a migração lendária, entretanto. Se não conseguirmos fazer do Dédalus um catálogo eficiente para as partituras e gravações musicais, é a própria história pioneira da documentação  musical na Biblioteca da ECA que pode ter um fim melancólico. Afinal, um catálogo não deve existir apenas para cumprir regras e diminuir a quantidade de material não processado nas estatísticas, mas para possibilitar a localização da informação pelo usuário.

Não é mesmo?

 

foto: hobvias sudoneighm, Flickr.

 

 

 

 





Os números de 2014

5 01 2015

Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2014 deste blog.

Aqui está um resumo:

Um bonde de São Francisco leva 60 pessoas. Este blog foi visitado cerca de 2.900 vezes em 2014. Se fosse um bonde, eram precisas 48 viagens para as transportar.

Clique aqui para ver o relatório completo





Palestra sobre documentação audiovisual na UFMG

8 11 2014

Fui convidada pela profa. Cristina Ortega apresentar uma palestra sobre minha experiência na área de documentação audiovisual, ou de “militante do audiovisual”, como os colegas me definiram no cartaz de divulgação do evento, nas Jornadas de Relatos e Debates da Prática Bibliotecária da Escola de Ciência da Informação da UFMG.

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Dei lá o meu recado, com muito orgulho e alegria por estar em contato com estudantes e profissionais da área numa universidade que não é a minha, onde não desperto muito interesse. Não contei não uma história de conquistas e sucessos, mas uma história de luta com muitas batalhas perdidas. E que ainda não terminou.

Falei do trabalho pioneiro e criativo da Biblioteca da Escola de Comunicações e Artes da USP, arena principal da minha militância, na organização de acervos de documentos audiovisuais para usuários de acervos audiovisuais, não para outros bibliotecários e burocratas escondidos atrás de regras. Tentei mostrar como é árdua a tarefa de incorporar experiências de uma biblioteca de áreas não valorizadas na universidade a um sistema cujas prioridades jamais incluirão o tratamento adequado de acervos de filmes, imagens ou música.

Mostrei as dificuldades quase inacreditáveis que enfrentamos na tentativa de migrar catálogos locais da biblioteca para o banco de dados da universidade,  ainda que os softwares sejam compatíveis, apenas porque seriam necessárias alterações mínimas no sistema maior. Criar um campo que não é sacramentado por regras obsoletas sem as quais muitos bibliotecários não conseguem respirar pode causar catástrofes de proporções épicas, como todo mundo sabe.

Procurei mostrar que a falta de formação dos bibliotecários para tratar documentos audiovisuais pode estar levando à perda irremediável de um  mercado de trabalho que teria tudo para ser nosso.

Vídeo da palestra: https://www.youtube.com/watch?v=p9n5522KTWk

Apresentação: http://pt.slideshare.net/MarinaMacambyra/documentao-audiovisual-e-biblioteca-universitria

Site da Jornada: http://www.eci.ufmg.br/novidades/events/jornada-de-relatos-e-debates-da-pratica-bibliotecaria-1