Sobre o que é esse filme?

2 03 2017

resumo: Trato aqui da minha experiência com indexação de filmes, minhas leituras e questionamentos sobre o assunto, principalmente  sobre assuntos para filmes de ficção e diferenças entre indexar filmes e textos. Explico como fiz um estudo sobre indexação de filmes a partir da visão do usuário. A partir dos resultados, procuro verificar se o Vocabulário Controlado USP atende às necessidades específicas de recuperação num acervo de filmes de ficção.

 

A busca e a recuperação dos filmes por aspectos do seu conteúdo, como gênero, assunto, elementos de estilo e linguagem etc, é um dos meus interesses profissionais mais antigos. Meu primeiro trabalho de verdade foi na filmoteca da Escola de Comunicações e Artes da USP, quando ainda cursava Biblioteconomia nessa mesma instituição. Naquela época, início dos anos 1980, praticamente não se falava em indexação de filmes no curso. Os professores apenas diziam o tempo todo que bibliotecários não trabalhavam apenas com livros, mas todo o conteúdo das aulas era voltado para livros. Também  não se falava de indexação de obras ficcionais. O assunto de um romance era “romance” + termo geográfico + época. Éramos orientados a não nos metermos com a literatura e outras áreas criativas, porque a arte era uma seara muito pantanosa onde a objetividade profissional poderia afundar sem remédio.

Na realidade profissional, onde moram os acervos, as pessoas e os problemas, descobri rapidamente que:

as pessoas procuram filmes por assunto tão naturalmente quanto qualquer outro tipo de documento

se o seu catálogo não der a resposta quem vai ter que fazer isso é você, com toda a sua subjetividade

nem sempre a distinção entre ficção e documentário é relevante para o pesquisador – depende de como e para quê o filme será usado.

A resposta para “você tem aí um filme sobre a história do barroco mineiro” poucas vezes é simplesmente  “sim’ ou “não”. Pode vir em forma de contraproposta: “não, mas tenho uma biografia romanceada do Aleijadinho, será que serve”? Ou, depois de alguma conversa sobre o uso que será feito do filme descobrimos, usuário e eu, que ele precisa mesmo de boas imagens em movimento de igrejas do período, necessidade que pode ser suprida por um filme que não tenha, em princípio,  nada a ver com a “história do barroco”.

O Aleijadinho: paixão, glória e suplício

O Aleijadinho: paixão, glória e suplício

Olhos nas mãos: teoria e prática da indexação de filmes

As particularidades da interação entre espectador e obra fílmica definem formas de utilização por usuários de acervos que não se limitam à necessidade de obter informações sobre determinado assunto e entender conceitos (quero saber o que é o barroco mineiro) ou fruição estética e lazer (quero ver um bom filme e me distrair um pouco).

Filmes são exibidos como forma de motivar  debates em diversas situações; para mostrar lugares, atividades e acontecimentos distantes do espectador no tempo e no espaço;  como instrução, explicando como fazer alguma coisa; para provar ou tentar provar um acontecimento ou as circunstâncias em que ocorreu; para serem analisados em sua própria condição de obra cinematográfica ou audiovisual; para ilustrar uma situação ou uma ideia, que pode até mesmo ser o oposto do que é mostrado na tela (o conceito de liberdade, por exemplo, pode ser discutido a partir da historia de indivíduos privados dela numa prisão); para ajudar a compor uma outra narrativa diferente daquela na qual foi produzido, como ocorre, por exemplo, quando um filme de arquivo é inserido dentro de uma narrativa ficcional ou quando sequências de  uma obra de ficção são inseridas num documentário. É importante notar que qualquer forma de utilização de um filme pode envolver a obra em sua totalidade ou trechos isolados. Esses usos dos filmes e outras formas das imagens em movimento, observados na prática diária de quem trabalha com esses acervos, remetem às estratégias comunicacionais da fotografia propostas por Schaeffer (1996).

O processo de indexação dos filmes tem suas diferenças em relação à indexação de textos, não apenas em decorrência das diferenças entre a linguagem verbal e a audiovisual, mas também da necessidade de responder a essas diferentes demandas por parte do público do acervo.  Autores como Shatford (1986), Rafferty  e Hidderley  (2005), e Smit (1996) já analisaram essa questão, mas penso que ainda há pontos a serem explorados em relação às imagens em movimento. Na prática, ao indexar filmes regularmente, é possível notar que:

  1.  operamos uma transposição de linguagens, ou seja, expressamos e sintetizamos sob a forma de texto o conteúdo de um documento composto por imagens em movimento, acompanhadas ou não por sons (diálogos, música, ruídos e outros).
  2. o nível de especificidade da análise de filmes pode chegar a sequências ou planos, enquanto que normalmente não indexamos frases ou parágrafos de um texto. Como trechos de filmes podem ser isolados e utilizados em contexto diferente do original, a indexação se pratica tanto em relação ao conteúdo considerado como um todo quanto a trechos específicos.
  3. aspectos específicos da linguagem cinematográfica como a impressão de realidade e a existência de espaços fora do quadro (XAVIER, 2005) interferem no processo de análise e requerem consciência e atenção por parte do indexador.
  4. o processo de interpretação de imagens envolve dificuldades de reconhecimento e nomeação de objetos, ações, pessoas e locais que não ocorrem, em princípio, quando analisamos informação textual.
  5. o uso de verbos e frases como indexadores surge como forte necessidade na descrição de imagens, tanto fixas quanto em movimento (leão rugindo, soldados correndo, bebês dançando, aves atacando pessoas etc).
  6. há outras dimensões além do assunto envolvidas na indexação de filmes, como o gênero, elementos da linguagem cinematográfica, locações e outros (JACOBS, 1999).

A quantidade de elementos visuais, sonoros e narrativos presentes num filme, bem como a presença de estímulos emocionais e intelectuais muito fortes que podem interferir no processo de indexação são dados que precisam ser levados em conta ao definir critérios e políticas de indexação em coleções de filmes. Estabelecer uma grade que indique ao indexador os elementos aos quais precisa dirigir sua atenção é uma maneira de evitar que a análise documentária se torne um pouco produtivo, embora agradável, exercício de crítica e interpretação de filmes. A proposta que elaborei para a Biblioteca da ECA (MACAMBYRA, 2009) e o modelo criado por Cordeiro e La Barre (2011) são exemplos de possíveis soluções para a questão.

Se o uso das imagens em movimento e o processo de indexá-las têm diferenças substanciais em relação ao que fazemos com textos, como ficam os vocabulários controlados? Os mesmos termos podem representar adequadamente assuntos de filmes e de textos? Na USP usamos o mesmo instrumento, o Vocabulário USP, para indexar documentos de todas as áreas do conhecimento e todos os suportes, inclusive imagens fixas e filmes.  Sempre tive minhas dúvidas quanto a isso, como já expliquei num outro post deste blog, e me incomoda bastante o hábito que temos, enquanto indexadores, de pensar tão torto que o usuário é obrigado a dar voltas para chegar aos conteúdos que indexamos.

O estudo

Há alguns anos decidi perguntar para os usuários como eles veem o assunto dos filmes. Como as pessoas entendem o conteúdo de um filme e o expressam em palavras, sem precisar passar pelo filtro de um vocabulário controlado? A ideia era melhorar a indexação dos filmes na Biblioteca da ECA e verificar até que ponto o Vocabulário USP  atende às necessidades específicas de recuperação num acervo de filmes de ficção.

Cidadão Kane

Cidadão Kane

Escolhi, da lista de filmes mais emprestados no ano anterior – dado fornecido pelo sistema de empréstimos que usamos na USP – 14 longa-metragens de ficção. Procurei selecionar filmes diferentes entre si, de vários gêneros, épocas e níveis de complexidade de linguagem, para não restringir a pesquisa a usuários com um gosto específico para cinema. Os filmes escolhidos foram:

A janela indiscreta – Alfred Hitchcock, 1954

Terra em transe – Glauber Rocha, 1967

300 – Zack Snyder, 2006

O discurso do rei – Tom Hooper, 2010

Laranja mecânica  – Stanley Kubrick, 1971

Tropa de elite – José Padilha, 2007

A pele que habito – Pedro Almodóvar, 2011

Cidadão Kane – Orson Welles, 1941

Matrix (1) – Andy e Larry Wachovski, 1999

Os incompreendidos – François Truffaut, 1959

Pulp-fiction  – Quentin Tarantino, 1994

O labirinto do fauno – Guillermo del Toro, 2006

O encouraçado Potemkin – Sergei Eisenstein, 1925

Ensaio sobre a cegueira – Fernando Meirelles, 2008

 

Elaborei este questionário simples e divulguei pela rede social Facebook, em meu próprio perfil e em grupos de estudantes da Escola de Comunicações e Artes.

Analisando os resultados

Minha preocupação era obter respostas de estudantes de vários cursos, não apenas de biblioteconomia, como já vi em outras pesquisas do mesmo tipo. A tarefa não é tão simples, porque tenho mais contato com alunos de biblioteconomia. Além disso, o tema da pesquisa é mais atraente e compreensível para eles do que para estudantes de outras áreas. Apesar de tudo,  resultado foi razoável: das 66 respostas, 31 foram de estudantes de biblioteconomia de graduação ou mestrandos do programa de pós-graduação em ciência da informação; os demais se distribuíram por outros cursos da Escola: Jornalismo, Audiovisual, Artes Visuais, Publicidade, Turismo e outros. Mais importante:  não percebi diferenças significativas entre os termos escolhidos pelos estudantes de biblioteconomia e os demais.

Excluídos todos os nomes próprios e agrupados todos os sinônimos e variações de plural e singular, obtive 529 termos válidos.

Apenas 12 (2%) dos indexadores não atribuíram termos da esfera do gênero aos filmes analisados, embora o questionário perguntasse explicitamente sobre assuntos, dado que confirma a importância do gênero na recuperação de filmes.

O resultado revelou algumas surpresas. Curiosamente, alguns assuntos que parecem óbvios, à primeira vista, não são tanto  Das 46 pessoas que indexaram Laranja mecânica, 20 não utilizaram o termo violência (ou semelhantes); das 64 pessoas que indexaram Tropa de elite, 24 não usaram o termo polícia (ou semelhante); dos 30 indexadores de Cidadão Kane, 14 não utilizaram nenhum termo relacionado à jornalismo, jornalistas, imprensa ou mídia; apenas 2 dos 9 indexadores de Os incompreendidos usaram o termo infância, apesar do protagonista ser um garoto pré-adolescente e todo os filme estar centrado na vida desse personagem; 20 respondedores indexaram o Encouraçado Potemkin, mas a nenhum deles pareceu relevante usar termos como navio, barco ou armada e apenas deles usou o termo marujos.

Laranja mecânica

Laranja mecânica

Podemos imaginar, sobretudo no caso do Potemkin, cuja indexação foi bastante pobre, que nem todos os participantes de fato assistiram ao filme, embora o enunciado do questionário pedisse que só quem viu os filmes indicasse seus assuntos. Mesmo assim, o fato de que tantos indexadores deixaram de registrar assuntos presentes nos filmes de forma tão evidente permite duas conclusões: 1. nada é previsível quando se trata de pessoas analisando filmes; 2. o uso de uma grade que ajude o indexador a lembrar de termos importantes é um procedimento bastante recomendável para uma indexação consistente.

Embora estivesse bastante claro no questionário que era possível usar frases na indexação (o bem contra o mal), apenas 36 frases (7% do total) aparecem entre os 529 termos. Qualquer análise seria precipitada sem um estudo específico, mas é possível supor que seja mais fácil atribuir assuntos usando termos simples do que imaginar uma frase que represente o conteúdo de um filme.

O uso de frases para descrever imagens e a possibilidade de usá-las para melhorar sistemas de indexação  têm sido objeto da atenção dos pesquisadores. Goodrum (1997) citada por Rafferty e Hidderley (2005) observa que usuários tendem a construir narrativas para descrever imagens quando não estão circunscritos  a uma  busca de informação.O´Connor, O´Connor e Abbas (1999) citados por Rafferty e Hidderley (2005), descobriram que, quando não há descrições de imagens disponíveis, usuários criam narrativas curtas ou histórias para imagens que vão além da descrição dos objetos representados.

Rafferty e Albinfalah exploraram a possibilidade de desenvolver um sistema de indexação de imagens baseado em narrativas, a partir de descrições feitas por usuários. Os participantes do estudo em duas partes realizado pelos autores foram convidados a descrever duas imagens usando palavras-chaves ou sentenças (primeira parte)  e a criar histórias interpretando as mesmas imagens. Elementos relacionados à ambientação, personagens, trama, temas e figuras de linguagem foram predominantes nas descrições, entre as quais surgiram expressões como “a vida é um deserto”, “ventos da mudança”, “procurando respostas”, “perda de um ente querido”, “esperando pelo amor” e “culpando Deus”. Os autores concluíram que, como as narrativas são importantes no processo pelo qual pessoas interpretam imagens,  a incorporação de elementos de narrativa no processo de indexação pode ser válida. Os resultados sugerem que o método de criar narrativas produz mais verbos e estimula respostas mais criativas e grande variedade de interpretações conotativas, podendo contribuir para melhorar a exaustividade da indexação e ajudar na busca de informações de caráter mais casual ou criativo.

Entretanto, esses dois estudos foram realizados com imagens fixas. Seria interessante fazer um teste com imagem em movimento e voltado especificamente para essa questão. Frases têm sido bastante usadas em sistemas como o What is my movie, no qual se pode fazer buscas de formas bastante amigáveis. Observem o resultado de uma busca pela frase “a man against the world“. Creio que a indexação por plots (tramas) seria um filão interessante a explorar por bibliotecários que gostem de fugir um pouco da banalidade consagrada. Vejam isto, por exemplo:

http://tvtropes.org/pmwiki/pmwiki.php/Main/Plots.

Comparando com o Vocabulário USP

Dos 529 termos válidos escolhidos pelos participantes do teste,  234 (44%) estão no Vocabulário USP e 295 (56%) não estão. A quantidade de termos ausentes, apesar de expressiva, não é preocupante, porque o Vocabulário permite a sugestão de termos pelos indexadores. Os termos sugeridos, depois de submetidos à avaliação de um grupo gestor, passam a integrar o Vocabulário.

A questão  mais importante é saber se os termos que não constam do Vocabulário poderiam ser facilmente incluídos ou não. Baseada em minha experiência pessoal de vários anos como indexadora, identifiquei apenas 20 termos (4% do total) que poderiam, ao meu ver, ser incluídos sem grandes problemas. Faço a ressalva, porém, de que é bastante difícil fazer essa análise rapidamente, porque os termos precisam ser avaliados por indexadores da área de assunto de cada um e que conheçam bem a estrutura do Vocabulário antes de serem aprovados.

Dos termos não  presentes, 70 (24%) tem sinônimos ou termos bastante semelhantes no Vocabulário,  que poderiam substituir razoavelmente os propostos.

Termo proposto Termo do Voc.USP
Características de um líder LIDERANÇA
Reinados MONARQUIA
Mundo real REALIDADE
Sedação SEDATIVOS

 

Em alguns casos a substituição seria feita por dois termos, já que o Vocabulário USP é pós-coordenado.

Termo proposto Termo do Voc.USP
Grécia antiga GRÉCIA + ANTIGUIDADE
Gângsteres americanos GÂNGSTERES   + ESTADOS UNIDOS

Eventualmente a pós-coordenação provoca alteração no conceito, sobretudo quando o indexador representou uma relação entre dois termos, como realidade versus ilusão, criança-coragem ou protagonista feminina. Se usarmos dois termos isolados para representar esses conceitos perdemos a ideia da relação entre eles e nosso usuário poderá ter dificuldades para localizar o que precisa. Devemos lembrar que a indexação de filmes normalmente é feita não apenas para o filme como um todo, mas também para partes ou sequências específicas, o que tende a gerar grande número de termos para cada documento. Teremos muitos filmes indexados com os termos coragem e crianças, mas a coragem não será um atributo dos personagens infantis em todos eles.

Matrix: bullet time

Matrix: bullet time

Entre os termos que considerei difíceis de inserir no Vocabulário USP, destacam-se:

Termos relacionados à linguagem, técnica ou narrativa cinematográfica

Não linear

Multi-plot

Plot-twist

Final aberto

Cenários gerados por computador

Bullet-time

Happy-end

O problemas com esses conceitos é que não estamos tratando propriamente de assuntos, mas de formas e processos de realização de filmes. Final aberto, por exemplo, é um termo a ser usado para indexar filmes com final aberto, não documentos sobre final aberto. seria Assim, não seria adequado, em princípio, colocá-los na lista principal de assuntos tópicos do Vocabulário. Tampouco seria correto inserir esses termos na tabela de gêneros e formas, porque outra coisa. Criar uma tabela específica seria uma solução a ser considerada.

Temas clássicos e recorrentes em obras ficcionais

Universo paralelo

Ambição

Busca

O escolhido

Traição

Superação

Tensão

Sociedade em crise

Realidade alternativa

Portais temporais

Investigação

É difícil encontrar um local na hierarquia de um vocabulário acadêmico para termos dessa natureza que são, entretanto, temas bastante comuns no universo da ficção cinematográfica. Precisei esperar mais de um ano pela aprovação dos termos Fim do mundoCéu, Torre de Babel e Juízo final que devem ter dado muito trabalho para minhas colegas do Grupo Gestor. São termos que tendem a criar conflito entre sua coloquialidade e a linguagem acadêmica predominante no Vocabulário. Existem no Vocabulário Busca e apreensão (dentro de Direito) e Busca e resgate (em Saúde), mas não o termo Busca sozinho, necessário para indexar filmes que mostram um personagem em busca de algo ou alguém. O mesmo ocorre com Investigação; temos vários tipos de investigações (criminal, linguísticca, de superfície etc), mas aquele tipo de investigação amadora levada a cabo por um personagem marginal ou desacreditado pelo sistema. Muitos filmes que tratam de um personagem escolhido para uma posição ou missão, cuja chegada foi profetizada em algum momento e que deverá desempenhar um papel decisivo na trama, seriam bem indexados com o termo O Escolhido, mas não consigo imaginar esse termo inserido num vocabulário acadêmico

Termos descritivos muito específicos

Moça de vestido vermelho

Olhos nas mãos

Esses termos em particular podem parecer absurdos e sem utilidade,  não é descabido imaginar a busca de imagens por termos como homem com tapa-olho, idosos de bicicleta, animais com roupas humanas, mulheres atirando flechas, lutas com machados etc.

Termos de conotação moral

Decência

Imbecilidade

Arrogância

Cinismo

Termos como esses  são problemáticos porque exigem do indexador algum tipo de avaliação crítica ou juízo de valor sobre os personagens. Ceder à tentação de fazer julgamentos durante o processo de indexação é um caminho perigoso, que pode dar margem à manifestação de preconceitos por parte do profissional. Não é improvável, por outro lado, que usuários façam buscas por esses conceitos. A solução para esse conflito não é evidente, e talvez se resolva apenas no serviço de referência. 

Termos não relacionados ao conteúdo

Maior bilheteria nacional

Palma de Ouro

Diretores famosos

Conceitos ligados a diferentes aspectos de produção ou distribuição,  premiações, festivais etc são importantes na recuperação de filmes. Mas onde colocamos essas informações? Como assunto tópico, certamente não. Pode parecer ingênuo pensar em recuperar filmes por meio da expressão “diretores famosos”, mas não se pode deixar de ver, por trás da designação pouco feliz, uma necessidade autêntica de usuários de filmes. Devemos, portanto, criar meios de atender a essas demandas.

Um final aberto

Meu pequeno estudo confirma minhas percepções sobre indexação de filmes e uso de vocabulários controlados, desenvolvidas ao longo de anos de prática como indexadora.

Não observei diferenças muito significativas entre a indexação feita pelos estudantes que participaram do teste e pelos indexadores profissionais da Biblioteca da ECA quanto à escolha de termos. Falhas como esquecimento de aspectos importantes, falta de exaustividade e de precisão provavelmente não ocorreriam se os participantes estivessem indexando num ambiente controlado, apoiados por instrumentos de apoio e seguindo políticas pré-estabelecidas.

O labirinto do fauno

O labirinto do fauno

O Vocabulário USP pode ser usado para indexar filmes sem grandes dificuldades, mas é necessário introduzir algumas modificações para que se torne um instrumento mais efetivo. Para tanto, será preciso descobrir meios de introduzir termos específicos para indexação de filmes e imagens sem desfigurar o caráter acadêmico e científico do Vocabulário. Uma boa opção seria criar um vocabulário complementar, compatível com o vocabulário principal mas destinado à indexação de filmes de ficção e imagens.

Referências

CORDEIRO, Rosa Inês; LA BARRE, Kathryn.  Análise de facetas e obra fílmica. Informação & Informação, Londrina, v. 16 n. 3, p. 180 – 201, jan./ jun. 2011. Disponível em <http://www.uel.br/revistas/uel/index.php/informacao/article/view/10562/9289>. Acesso em 20 fev. 2017.

JACOBS, Christine.If a picture is worth of a thousand words, then … The Indexer, v. 21, n. 3, 1999.

MACAMBYRA, Marina. Manual de catalogação de filmes da Biblioteca da ECA. São Paulo: Serviço de Biblioteca e Documentação ECA/USP, 2009.

RAFFERTY, P.; ALBINFALAH, F. A tale of two images: the quest to create a story-based image indexing system.Journal of Documentation, Bradford, v. 70, n. 4, p. 605, 2014. ISSN 00220418. Disponível em: <http://search.proquest.com/docview/1660744988?accountid=14643 >

RAFFERTY, P.; HIDDERLEY, R. Indexing multimedia and creative works: the problems of meaning and interpretation. Aldershot: Ashgate, 2005.

SCHAEFFER, J. M. A imagem precária: sobre o dispositivo fotográfico. Campinas: Papirus, 1996.

SHATFORD, Sara. Analyzing the subject of a picture: a theoretical approach. Cataloging & Classification Quartelly, v. 6, n. 3, p. 39-62, 1986.

SMIT, J. A representação da imagem. Informare: caderno do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação, Rio de Janeiro, v.2, n. 2, p. 28-36, jul./dez. 1996.

XAVIER, Ismail. O discurso cinematográfico: a opacidade e a transparência. São Paulo: Paz e Terra, 2005.

 

Agradeço ao pessoal que dedicou seu tempo a responder ao meu questionário ao José Estorniolo Filho pela ajudar na tabulação e na  busca de termos no Vocabulário USP.

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Manual da FIAF, o retorno

2 10 2016

moving-imagine-cataloguing-manual-250A Federação Internacional dos Arquivos do Filme (FIAF) lançou, em abril de 2016 o FIAF moving image cataloguing manual, revisão das normas de catalogação de filmes publicadas em 1991. O trabalho está disponível para download gratuito no site da FIAF.

Quando tomei conhecimento das normas da FIAF, num curso ministrado por uma profissional da Cinemateca Brasileira, já catalogava filmes há uns dez anos utilizando normas desenvolvidas localmente. Tive duas surpresas agradáveis: primeira, nas regras da FIAF eu encontrava solução para quase todos os problemas de catalogação de filmes com os quais já havia me defrontado; segundo, as soluções que eu mesma havia criado a partir da observação das necessidades dos usuários da instituição na qual trabalhava não eram tão diferentes assim daquelas da FIAF, em sua essência e  guardadas as devidas proporções.

O novo manual parece, à primeira vista, um trabalho bem mais profundo do que uma simples atualização de normas e tem novidades interessantes. Uma das mais importantes é a inclusão de elementos dos Requisitos Funcionais para Registros Bibliográficos (FRBR) e dos metadados para obras cinematográficas do European Standards Commitee (CEN).  O novo manual adota as entidades Obra, Variante (e não Expressão) Manifestação e Item, preferindo os conceitos de Obra e Variante propostos pelo CEN, por serem mais adequados à representação das imagens em movimento do que os conceitos de Obra e Expressão dos FRBR.

Para os FRBR, Obra e Expressão são entidades abstratas; apenas a Manifestação e o Item têm dimensão física. É difícil, entretanto, imaginar obras cinematográficas como idéias abstratas, porque são produto do trabalho de equipes formadas por diversos criadores e técnicos, só existindo, de fato, quando se tornam objetos analógicos ou digitais. Resumindo, para que um filme exista é necessário que:  um roteiro seja escrito; cenários e figurinos sejam criados; imagens e sons registrados separadamente sejam reunidos e montados numa ordem que não é a mesma da filmagem ou gravação, ocorrendo em todas as etapas do processo decisões estéticas do diretor, produtor, fotógrafo, iluminador, atores, diretor de som, montador etc. No mundo das imagens em movimento, uma Obra já é sua própria expressão.

Variante, na terminologia da FIAF, são versões do filme que trazem variações do conteúdo original, por exemplo, cortes ou acréscimos de cenas, diálogos ou narração, cores, música etc.  Assim, a versão de 1992 do filme Blade Runner modificada pelo diretor, que suprimiu a sequência final e a narração do original lançado em 1982, é uma variante. A versão colorizada, com trilha sonora de música pop e outras modificações do filme Metrópolis, realizada em 1984 por Giorgio Moroder, é uma variante do filme silencioso original, dirigido por Fritz Lang em 1927.

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As normas da FIAF foram elaboradas para atender às necessidades bastante sofisticadas das cinematecas e arquivos de filmes, mas, como se trata do trabalho  mais completo e profissional voltado para o universo das imagens em movimento, qualquer catalogador de filmes precisa conhecê-las, não importa a regra que siga. Segundo a FIAF, são compatíveis com outros padrões existentes, notadamente o RDA: Resource Description and Access.

Então, pessoal, coragem. Cliquem lá no link e aprendam tudo (ou quase tudo) que vocês precisam saber sobre catalogação de filmes.

 

 





Seleção e desenvolvimento de coleções de vídeos

23 02 2016

Quem trabalha com coleções de vídeos, DVDs ou qualquer outro suporte para distribuição de filmes no mercado doméstico costuma se deparar com questões do tipo:

Mas esse filme é tão bom, por que não tem aqui? Deveria ter.

Vocês AINDA não compraram os filmes que ganharam o Oscar no ano passado?!

O que esta porcaria de filme faz aqui?

Como não se pode ter todos os filmes do mundo no acervo, e mesmo que nos limitássemos aos filmes bons do mundo seria difícil concordância total em torno do que seja um filme bom, é fundamental ter critérios de seleção que deem consistência à coleção e que nos permitam dar ao usuário as respostas aos seus questionamentos.  Que poderiam ser, hipoteticamente:

Mesmo que seja bom, grandes sucessos comerciais que podem facilmente ser encontrados em outras locais não são nossa prioridade de compra.

Nós não compramos, necessariamente, filmes premiados com o Oscar. Seria necessário que o filme se enquadrasse em outros critérios, como importância do realizador, temática etc.

Independentemente da qualidade, procuramos comprar todos os filmes que sejam adaptações de obras literárias brasileiras.

A literatura sobre o assunto não é nada abundante, menos ainda do que na área do tratamento da informação. Um dos motivos pode ser o pouco tempo de reflexão sobre o assunto na área, já que a presença de coleções de vídeos em bibliotecas é algo relativamente recente. Nas universidades, que estão entre as primeiras instituições a incorporarem o vídeo como tecnologia educacional, as coleções começaram a se desenvolver fora das bibliotecas, situação que só começou a mudar na segunda metade dos anos 1970 (BRANCOLINI, 1994),  mas as políticas de desenvolvimento para esse tipo de coleção ainda não estão suficientemente presentes mesmo nessas instituições (WALTERS, 2003).

Num estudo realizado em 1977 pela Association of Research Libraries, bibliotecários apontaram como um dos obstáculos para o desenvolvimento de coleções audiovisuais em suas bibliotecas o receio de que a aquisição de documentos e equipamentos audiovisuais provocassem o declínio dos acervos de documentos impressos (ASSOCIATION OF RESEARCH LIBRARIES, 1977 citada por BRANCOLINI, 1994). Para Mason (1994), esse medo teria suas origens na grande preocupação com o analfabetismo nos Estados Unidos, problema cuja culpa foi equivocadamente atribuída à televisão e, por extensão, ao vídeo. Os coleguinhas da terra do Pato Donald, de acordo com essa autora, reagiram a essa ameaça imaginária aferrando-se à ideia de que as bibliotecas seriam o último reduto do “sagrada palavra impressa” (p. 10).

A última tempestade, filme de Peter Greenaway

A última tempestade, filme de Peter Greenaway

Não encontrei dados sobre a situação dos acervos de vídeo no Brasil, nem publicações brasileiras sobre o assunto, mas minha experiência pessoal me faz supor que por aqui não é diferente. Quando comecei a trabalhar na Escola de Comunicações e Artes da USP,  em 1981, já havia na Biblioteca uma coleção de filmes, originária do Departamento de Cinema da Escola. Incorporada oficialmente ao acervo da Biblioteca em 1973, na prática era gerenciada por pessoal sem formação em biblioteconomia.  Ao procurar por experiências semelhantes para orientar meu trabalho de organização de acordo de acordo com os princípios da área, descobri que poucas bibliotecas na cidade mantinham acervos de filmes e que a única outra grande filmoteca existente na USP era a da Faculdade de Educação – que na época não fazia parte da biblioteca. Alguns anos mais tarde, na segunda metade da década de 1980, começamos a formar uma coleção de vídeos na Biblioteca da ECA. Novamente, vivi o problemas de não encontrar experiências semelhantes para estudar. Os critérios para seleção do material foram estabelecidos na base da experimentação e erro, com o indispensável auxílio do professores da instituição, notadamente os do curso de cinema.

Sempre acreditei, baseada em tudo o que vi e ouvi no decorrer de uma longa militância audiovisual, que o problema dos bibliotecários brasileiros era a falta de formação para tratar qualquer documento que não tenha letras impressas, página de rosto e lombada, mas talvez existam razões mais profundas. É difícil saber se o mesmo preconceito ingênuo contra a linguagem audiovisual admitido pelos bibliotecários dos Estados Unidos também nos afetou aqui no Brasil. Mas, como sempre importamos muita cultura daquele país e estudamos muita literatura técnica lá publicada, não é possível que essa desconfiança em relação aos vídeos tenha sido assimilada pelos bibliotecários brasileiros, talvez até de forma pouco consciente?

De uma forma geral, princípios básicos de desenvolvimento de coleções e seleção de documentos  podem ser aplicados a coleções de vídeos (WALTERS, 2003; MULTIMEDIA), mas sempre será necessário ter cuidado com aspectos específicos da linguagem, da técnica e, sobretudo, do uso que se faz desse tipo de documento. Conhecer o usuário da coleção e como ele costuma utilizar filmes em sua as atividades (ou em sua vida), é o primeiro passo para elaborar critérios de seleção. Vamos lembrar que um mesmo filme pode ser usado de várias formas:

como objeto de estudo em si, por estudiosos do cinema;

fonte de informação sobre um assunto;

lazer e fruição;

fonte de imagens específicas para serem reutilizadas em diferentes contextos;

para motivar ou estimular discussões

etc

Quando formamos uma coleção de vídeos estamos, na realidade, trabalhando com um enorme variedade de conteúdos que podem ser registrados em suportes como o velho videocassete, DVD, blu-ray  e o que mais houver. Nossa coleção pode ter filmes originalmente realizados para cinema (ou TV) de curta ou longa metragem, telenovelas, publicidade, peças de teatro, clips musicais, óperas, reportagens, telejornais, aulas, palestras, vídeos institucionais, videoarte, videodança, registros de performances  etc. É importante definir qual será o perfil da coleção em relação a essa variedade de opções, lembrando que cada uma delas pode ser um universo. Preciso de comerciais de TV no acervo? Ótimo. Consigo obter esse tipo de material? Maravilha. Meu problema agora é saber o que priorizar, porque “todos” não é uma opção viável. O acervo terá, predominantemente, filmes de longa metragem? Então precisamos pensar em cineastas, épocas, países, gêneros, técnicas. Se fosse fácil não teria graça, nem precisaria de pessoal especializado para fazer, certo? Para Brancolini (1994), seleção de vídeos pode ser responsabilidade de um especialista no assunto, de um especialista no formato ou de um comitê com ambos, e, por exigir conhecimentos específicos, seria desejável contratar bibliotecários treinados para a tarefa.  Sugestões sábias, sem dúvida, mas viáveis apenas em bibliotecas com recursos para tanto.

Deus e o Diabo na terra do sol, filme de Gláuber Rocha

Deus e o Diabo na terra do sol, filme de Gláuber Rocha

 

Para montar uma boa coleção de  vídeos de cinema o bibliotecário precisa se empenhar em conhecer a área e construir um bom repertório de filmes, mas não pode prescindir da ajuda de especialistas. Só gostar de cinema e conhecer nomes de cineastas não basta. Na Biblioteca da ECA os professores do curso de cinema nos forneceram as principais orientações sobre o que priorizar:

filmes importantes para o estudo do cinema em suas várias disciplinas (recebemos uma lista com os cineastas mais estudados na Escola)

títulos mais difíceis de serem encontrados em locadoras comerciais (na época as locadoras estavam no auge);

filmes não muito recentes, que já passaram pelo crivo do tempo e de diversas análises;

produções brasileiras, independentemente da qualidade;

trabalhos feitos para a televisão: compactos de novelas, séries e minisséries (no caso das séries, pelo menos a primeira e a última temporadas);

filmes de animação.

Aos poucos fomos acrescentando outros critérios, a partir da observação das demandas de usuários e da identificação das necessidades dos cursos da instituição.

Numa biblioteca universitária, onde é possível contar com a ajuda do especialista da área que também é o usuário prioritário da coleção e onde existe o critério relativamente objetivo do uso em disciplinas, a tarefa da seleção é menos complexa do que numa biblioteca pública, por exemplo. Pittman (1994) considera que os critérios de seleção para um acervo de cinema em biblioteca pública precisam considerar que a coleção pode ter vários perfis: 1. visão geral da história do cinema; 2. seleção dos melhores exemplos dos principais gêneros cinematográficos; 3. representação da obra dos melhores cineastas; 4. coleção popular. É na hora de definir quais são esses “melhores”  que o bicho costuma pegar. Não somos nós, bibliotecários, que vamos dizer quem são os melhores cineastas do universo, mas precisamos saber onde buscar as informações para fundamentar a seleção.

Na literatura estrangeira, é comum encontrar a recomendação para consultar listas de melhores filmes elaboradas pela crítica. É uma opção, mas é importante escolher as listas com cuidado, preferindo aquelas elaboradas por instituições ou publicações especializadas em cinema, comparar várias listas de fontes e países diferentes e evitar se apoiar na opinião de um único especialista. A lista da revista Cahiers du Cinéma e a do British Film Institute são apenas dois exemplos de fontes respeitáveis. Ter filmes premiados no acervo é uma boa ideia para atrair interesse do público mas, de novo, cuidado. Tudo bem adquirir filmes que receberam Oscar, mas é importante mostrar aos usuários que existem outros prêmios, outras culturas e diversos festivais espalhados pelo mundo e pelo Brasil, como a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, o festival É Tudo Verdade, o Sundance Film Festival, o Festival de Berlim etc.

CIdadão Kane, filme de Orson Welles

CIdadão Kane, filme de Orson Welles

Pittman (1994) menciona ferramentas criados especialmente para auxiliar bibliotecários, como esta, da American Library Association, mas aqui no Brasil não existe nada parecido, que eu saiba.

Outras questões a considerar com atenção em qualquer tipo de coleção de filmes:

Idioma: preciso ter apenas filmes legendados em português ou meu público se vira com legendas em inglês, espanhol ou mesmo sem legendas? E quanto aos filmes dublados, preciso ter ou não? Há um tipo de filme que deve ser preferencialmente dublado ou legendado?

Suporte: quase todos os acervos começaram em videocassete. Devo (e posso) adquirir todos os títulos novamente, em DVD ou blu-ray? Melhor ainda, é precisa ter no acervo físico todos os títulos de interesse dos usuários ou posso trabalhar com indicações de material disponível online?

Distribuidoras: há diferenças consideráveis entre as empresas que distribuem filmes para o mercado doméstico, tanto na qualidade de imagem e som das cópias quanto na presença de extras, encartes, cuidado com as informações nos menus e embalagens etc.

Versões e refilmagens: alguns filmes têm mais de uma versão, com pequenas ou não tão pequenas diferenças entre uma e outra (versão do diretor, versão do produtor etc). Outros são refilmados várias vezes, com elenco e equipe diferentes (temos uns 4 ou 5 King Kongs). É preciso estipular critérios para adquirir ou não várias versões ou refilmagens e, naturalmente, tomar cuidado para não comprar o filme errado.

Vou encerrando por aqui este texto, antes que os leitores caiam no sono, mas ainda há muito a comentar e discutir sobre o assunto. Aguardem outros posts.

 

BRANCOLINI, Kristine R. Video collections in academic libraries . In.: HANDMAN, Gary (Ed.). Video collection development in muti-type libraries: a handbook. Westport: Greenwood Press, 1994, p. 41-70.

MASON, Sally. Libraries, literacy, and the visual media. In.: HANDMAN, Gary (Ed.). Video collectiom development in muti-type libraries: a handbook. Westport: Greenwood Press, 1994, p. 9-13 .

MULTIMEDIA seeds: audio and video collections in schools and libraries. Disponível em <http://eduscapes.com/seeds/index.html&gt;.  Acesso em:  19 fev., 2016.

PITTMAN, Randy. Cinema collections: public libraries, p. 195-206. In.: HANDMAN, Gary (Ed.). Video collectiom development in muti-type libraries: a handbook. Westport: Greenwood Press, 1994.

WALTERS, W.H.  Video media acquisitions in a college library. Library Resources & Technical Services , v. 47, n. 4 , p. 160–170, 2003.

 





Os números de 2015

7 01 2016

Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2015 deste blog.

Aqui está um resumo:

Um bonde de São Francisco leva 60 pessoas. Este blog foi visitado cerca de 2.900 vezes em 2015. Se fosse um bonde, eram precisas 48 viagens para as transportar.

Clique aqui para ver o relatório completo





Referências de audiovisuais: um olhar sobre a revisão da NBR6023

21 12 2015

Num momento de puro altruísmo e sincera preocupação com a humanidade, decidi me debruçar sobre o projeto de revisão da norma para referências bibliográficas (NBR6023), que a ABNT recentemente submeteu à consulta pública. Analisar norma de referência é um dos trabalhos mais chatos que já inventaram para um bibliotecário fazer, quase tão ruim quanto fazer inventário ou elaborar regulamento. Mas, pensando que se é chato para mim que dirá para o pobre do estudante ou pesquisador que precisa apenas usar a norma, enfrentei a empreitada, pensando em Sísifo, Prometeu, Hércules e tantos outros personagens mitológicos que enfrentaram barras bem piores.

 

Hercules combatant Achelous

 

O post mais popular do Blog da Biblioteca da ECA é sobre citação e referência de filmes e teve, até o momento, 19.293 acessos e 42 comentários de pessoas com dúvidas sobre o assunto, seguido pelo post sobre citação e referência de documentos musicais, com 10.869 e 21 consultas. O terceiro colocado, que explica como localizar livros nas estantes e foi publicado um ano antes, teve modestos 1943 acessos.

Esses números me fazem acreditar que o interesse no tema é grande, e o tipo de consulta que recebemos nos comentários deixa claro que as dificuldades são muitas. De fato, as regras para documentos audiovisuais são bastante falhas na norma vigente e tudo indica que não vão melhorar muito depois da revisão, pelos motivos de sempre:

1. Ninguém liga para documentos audiovisuais.
2. Ninguém entende nada de documentos audiovisuais.
3. Ninguém dá a mínima para as dúvidas dos usuários de audiovisuais.

Além disso, o processo de discussão dos resultados da consulta pública está sendo conduzido de forma autoritária e pouco eficiente. Quem participou da consulta pública foi convidado para uma reunião na qual supostamente seriam discutidas as sugestões apresentadas. Mas, na verdade, houve muito pouco espaço para uma real discussão do conteúdo da norma, porque os organizadores consideram  que já está tudo decidido. Apenas as observações de caráter formal e as questões que apontavam inconsistências no texto foram consideradas, o que me faz pensar por que, afinal, passei dois dias acompanhando, atônita, acalorados debates sobre pontos e espaços.

A “discussão” não chegou ainda ao capítulo dos audiovisuais. Se chegar lá, eu gostaria muito e poder trocar ideias com pessoas que realmente conheçam o documento audiovisual e seus usuários, mas sei que isso não vai acontecer. Se 9 anos (?!) não foram suficientes para construir uma norma adequada e de fácil compreensão, talvez só nos reste fazer como Manuel Bandeira e tocar um tango argentino ou pensar numa alternativa mais prática à ABNT.

Apontei alguns pontos no texto que considerei falhos mas, de fato, todo o capítulo dos audiovisuais precisaria ser repensado e refeito. Logo no escopo do capítulo se lê:

Inclui imagens em movimento e registros sonoros nos suportes: disco de vinil, DVD, blu-ray, entre outros.

Bobagem. Numa área onde suportes novos aparecem todos os dias seria melhor não especificar nenhum. Se querem dar exemplos de suportes, coloquem pelo menos os mais conhecidos atualmente, não apenas três.

A norma aponta como elementos essenciais da referência de filmes: título, diretor, produtor, local, produtora, data e especificação do suporte em unidades físicas (destaques meus). O produtor como elemento obrigatório é problemático, porque existem diversas funções na esfera da produção de uma obra audiovisual: produtor, diretor de produção, produtor executivo, produtor associado, co-produtor supervisor de produção etc. Isso pode confundir o usuário. “Qual desses produtores eu coloco na referência” é uma pergunta que eu escuto bastante. Na maior parte dos casos, o produtor ou o diretor de produção seriam os mais indicados, mas a norma dá um exemplo citando o produtor executivo. Confusão formada.

Trecho da ficha técnica do filme Reflexões de um liquidificador, extraída da Filmografia Brasileira (Cinemateca Brasileira).

Trecho da ficha técnica do filme Reflexões de um liquidificador, extraída da Filmografia Brasileira (Cinemateca Brasileira).

Outra bagunça terminológica é o uso do termo produtora. Existem empresas produtoras e empresas distribuidoras (embora algumas façam as duas coisas). Na referência de um filme em DVD o mais lógico é informar o nome da empresa responsável pela distribuição no mercado de vídeo doméstico, porque é preciso identificar corretamente o material referenciado. Nos exemplos aparecem as distribuidoras, exceto no de filme em película. Para referenciar uma cópia em película consultada no acervo de uma cinemateca, por exemplo, é melhor citar a(s) empresa(s) produtora(s). Essas distinções nem sempre são simples de entender, e a norma não deveria aumentar a confusão. Por que usar o termo produtora quando, na maioria dos casos, o que é mencionado na referência é a distribuidora?

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Trecho da ficha técnica do DVD do filme O sacrifício, extraída do site da Livraria Cultura.

Minha sugestão para o enunciado deste item seria algo assim: ” Os elementos essenciais são: título, diretor OU produtor OU roteirista, local de distribuição, empresa distribuidora, data de distribuição e especificação do suporte. Na ausência de pessoas creditados como diretor, produtor ou roteirista, inserir outro nome que possa ser identificado como responsável pelo conteúdo”. Mas não tenho certeza de que isso seria possível, porque existem “diretivas” para elaboração de normas (sim, normas para elaborar normas) e nem sempre o que a gente acha interessante é permitido.

De qualquer forma, seria importante permitir ao usuário escolher um ou mais indivíduos,  ou uma instituição (ou instituições), com ampla responsabilidade sobre o conteúdo do documento para mencionar na referência, e deixar claro, nos exemplos, que existe essa opção. Há dois exemplos de filme de longa-metragem no texto do projeto de norma, ambos com vários nomes da equipe citados, o que é um exagero completamente inútil numa referência.

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Os demais exemplos, com menos dados, são de curtas-metragens, séries de TV e vídeos de música, o que pode dar ao usuário a ideia errada de que precisa encher de nomes a referência de um longa. Pobre usuário, sempre perdido na selva da normalização, sempre dependendo de nós, às vezes precisando contratar um bibliotecário para revisar suas referências.

Há diversas falhas nos exemplos do projeto, algumas pequenas, outras nem tanto. Parecem ter sido elaborados por pessoas que não conhecem muito esse tipo de documento. Um dos exemplos é de uma coleção de slides – chamados no texto pelo nome em português que ninguém mais usa desde que eu era criança, “diapositivos” – acompanhados por áudio em fita cassete. O que diabos é isso? Algo que era bastante usado como material didático antes da popularização do videocassete. Qual é a possibilidade de alguém ainda precisar referenciar esse tipo de material? Remota. Nunca me perguntaram sobre isso nos últimos 30 anos. Claro que é preciso ter exemplos de materiais antigos na norma, mas dentro de um universo de apenas 8, dedicar um exemplo inteirinho para um tipo de documento que nem deve existir mais não muito faz sentido.

No exemplo da série Breaking bad, foram citados os produtores executivos. Ninguém que conheça séries faria isso, já que o normal seria mencionar o criador da série, como mostra claramente o registro da IMDB. Por que confundir assim o usuário?

Nos dois exemplos para vídeos publicados no Youtube a interpretação da responsabilidade é discutível.

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Nesse exemplo, não está claro nos créditos que o vídeo seja uma produção de Leerestademoda. No letreiro final do vídeo a única informação disponível é o endereço do site leerestademoda.com, mas não há nenhuma indicação que nos permita concluir que se trata da entidade produtora do documento.

Snap 2015-12-21 at 13.15.10Nesse outro caso, parece realmente haver um equívoco, já que Laura Cohen é autora do manifesto, não do vídeo.

Posso estar sendo chata, mas em 9 anos de trabalho de revisão o pessoal não conseguiu encontrar uns exemplos melhores?

Ainda em relação aos vídeos do Youtube, senti falta de orientações sobre o canal, um elemento importante. O canal representa o indivíduo ou instituição que publica o documento na plataforma, que pode ser ou não o responsável pela realização do vídeo. Em alguns casos, é uma informação que pode garantir a confiabilidade do documento publicado e, por esse motivo, muitos usuários perguntam como mencioná-la na referência.

Temos pouco mais de 2 páginas para modelos de referências de documentos audiovisuais e no mínimo 15, se contei direito, para documentos textuais. Para as inadequadamente chamadas “monografias” (*) temos umas 4 páginas de modelos, com subdivisões para monografia no todo, parte de monografia, monografia em meio eletrônico e parte de monografia em meio eletrônico. Entretanto, elaborar uma referência de filme não é tarefa menos complexa, e um documento audiovisual também pode ser referenciado em parte, no todo, em meio eletrônico etc. O conteúdo de um documento audiovisual pode se apresentar em tantas ou mais formas do que um documento textual: evento, reportagem, capítulo de novela, videoarte, documentação de performance, concerto, clip, ópera, entrevista, depoimento, comercial, tomadas não editadas, cenas excluídas, extras de DVDs, aulas etc. Não imagino que seja possível ter exemplos para todos esses casos, porque não queremos uma norma com 512 páginas, mas talvez fosse possível reorganizar o texto, iniciando com uma seção de modelos genéricos que servissem para documentos com características de conteúdo semelhante, independentemente do suporte.

Outra orientação que me incomoda, suponho que tirada da catalogação, é a entrada pelo título para qualquer documento audiovisual. Na verdade, existem audiovisuais que são obras coletivas e outros que não são, assim como acontece no mundo dos textos.

Vou parando por aqui, para não matar meus leitores de tédio. Assim que reunir coragem e determinação suficientes, publicarei meus comentários sobre referências de documento sonoro, partitura e documento iconográfico. Não sou, de forma alguma, especialista em normalização, sou apenas uma bibliotecária de referência que conhece documentação audiovisual e gosta de auxiliar usuários. Portanto, se alguém quiser corrigir algum erro meu ou acrescentar comentários, ficarei muito grata.

Normas para quem? (post do Blog da Biblioteca da ECA)

(*) Um livro de poemas ou de contos, uma coletânea de peças teatrais ou de textos diversos não são monografias, mas há uma regra besta qualquer determinando que seja usada essa palavra.





Uma história sem fim ou O fim de uma história

26 01 2015

No  I Encontro Nacional de Bibliotecários Catalogadores de Acervos de Música do Brasil, evento simultâneo ao XVIII Seminário Nacional de Bibliotecas Universitária (SNBU), apresentei, com minha colega Sarah Lorenzón Ferreira, nosso trabalho Catalogação de partituras na Biblioteca da ECA.

Nesse trabalho, também apresentado no SNBU como poster, contamos um pouco da história da organização do acervo de partituras da Biblioteca da ECA e da metodologia de tratamento desse material desenvolvida pela instituição ao longo de uns 45 anos de trabalho voltados ao atendimento de usuários músicos e musicólogos. Um trabalho regido pelo princípio de atender às demandas de informação do usuário, sem o apego cego a regras ultrapassadas de catalogação que, muitas vezes, servem mais como apoio às inseguranças dos bibliotecários do que como mecanismo de padronização de fato. Até porque, como não canso de lembrar, regras feitas para tratamento de texto muito pouco se prestam à padronização de verdade de outros tipos de documentos.

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Também abordamos os problemas envolvidos na migração dos registros de nossa base de dados de partituras – uma velhinha pioneira nascida em 1978 – para o Banco de Dados Bibliográficos da USP (Dédalus), criado bem depois. O motivo eternamento alegado por bibliotecários, analistas e sei lá mais quem do Departamento Técnico do Sistema Integrado de Bibliotecas da USP para não fazer a migração (solicitada pela Biblioteca da ECA em 1996) era, além da necessidade de priorizar coleções mais valorizadas pelo mundo acadêmico do que partituras musicais, o uso pecaminoso de regras locais. Os campos da base são perfeitamente mapeáveis para a estrutura do Dédalus, mas isso não fez diferença alguma;  o próprio formato MARC sempre permitiu a criação de campos locais, mas isso jamais foi levado em consideração para o acervo de partituras.  O pavor provocado pela frase “não é AACR2” tem efeitos paralisantes sobre o bibliomundo. Se um dia a polícia quiser dispersar uma passeata de bibliotecários não precisa jogar bombas, é só gritar “não usamos AACR2” que vai ser uma debandada geral.

Um dos impasses era a falta de um campo específico no Sagrado Formato MARC para o meio de expressão das obras musicais. Em nossa base o campo sempre existiu.

Mas vocês não podem colocar no campo Assunto, como todo mundo?

 

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Era a frase que mais escutávamos. Sim, podíamos, mas estaríamos fazendo errado como todo mundo. Meio de expressão são os instrumentos, vozes, grupos vocais e instrumentais para os quais a obra musical foi escrita. Uma partitura para violino e orquestra não é um documento SOBRE violino e orquestra, certo? Logo, inserir a informação no campo 650 do Sagrado (permitam-me chamá-lo assim, singelamente) é um pequeno erro conceitual, se não estou equivocada. Ao fazer a migração para um sistema maior, não queríamos de dar um passo para trás e o surgimento dos FRBR,  no qual o Medium of Performance é um dos atributos da obra musical, reforçou nossa convicção de que nossa abordagem era a mais correta. E finalmente, em 2012 o mundo não acabou e o campo 382 – Medium of Performance entrou para o Sagrado. O mundo é grande e dá voltas, afinal.

No início de 2014, quando finalmente começamos a discutir de forma concreta a migração, outro impasse surgiu: o campo 650 do Sagrado (Assunto tópico) é obrigatório no Dédalus. Mas partituras não têm assunto tópico, têm Meio de expressão e Gênero / Forma:

MENDES, Gilberto. Motetos à feição de Lobo de Mesquita

382 – Meio de expressão : Voz, oboé, violoncelo e cravo
655 – Gênero / forma : Moteto

Como fazer, então? É um tanto absurdo exigir que um documento tenha assunto tópico quando, por sua própria natureza, ele não tem. Inventar um assunto só porque um campo precisa de um conteúdo, porque alguém pensou que “todo livro é sobre alguma coisa” e, portanto, com as partituras deve ser a mesma coisa. Nossa singela sugestão de usar a expressão “Sem assunto”, como fez outra biblioteca da USP mais badalada do que a nossa, foi vetada. Esse tipo de liberdade com as normas é só para quem pode.

E sim, é verdade. Se vocês não acreditam, procurem “sem assunto” no Dédalus e vejam o que acontece: são 14529 livros, quase todos sobre alguma coisa, indexados com a expressão “sem assunto” justamente no campo assunto. Contradições do pensamento dominante em nossa área de atuação e suas regras supostamente inquebráveis: o que seria certo (partituras sem assunto tópico) vira errado e não é permitido, enquanto o errado (livros sem assunto), torna-se certo e aprovado.

Minha colega Sarah decidiu então buscar diálogo e informação atualizada um pouco mais longe e solicitou esclarecimentos sobre o uso dos 382, 650 e 655 para a própria Library of Congress, que respondeu prontamente. Mais longe às vezes pode ser mais perto, já que estamos tratando de contradições. A resposta deixa claro que nossa abordagem, afinal, é a que será vitoriosa num futuro bastante próximo. A LC está preparando o Library of Congress Genre/Form for Library and Archival Material , que deverá separar os termos de gênero e forma dos assuntos tópicos. Stephen Yusko, da Divisão de Música, observou, em sua resposta, que os cabeçalhos da LC para partituras e gravações sonoras  nunca foram assuntos no sentido normal do termo, mas sempre funcionaram como gênero e forma. Logo que esse novo produto estiver implantado, o que deverá ocorrer em 2015, os campos 655 e 382 substituirão o campo 650.

Isso quer dizer que, se a migração que já tenho chamado de lendária dos registros da nossa base para o Dédalus efetivamente acontecer, provavelmente teremos que dar um jeito de preencher um campo que logo estará obsoleto.

Mas essa história ainda não terminou. Sarah e eu continuamos vivas e saudáveis, e agora temos um novo e jovem chefe na divisão de catalogação do Departamento Técnico do SIBi, alguém aberto ao diálogo e com formação tecnológica sólida e que parece disposto a botar fim a uns vinte anos de atraso. Os trabalhos foram finalmente retomados e estão andando rápido.

Nem tudo termina com a migração lendária, entretanto. Se não conseguirmos fazer do Dédalus um catálogo eficiente para as partituras e gravações musicais, é a própria história pioneira da documentação  musical na Biblioteca da ECA que pode ter um fim melancólico. Afinal, um catálogo não deve existir apenas para cumprir regras e diminuir a quantidade de material não processado nas estatísticas, mas para possibilitar a localização da informação pelo usuário.

Não é mesmo?

 

foto: hobvias sudoneighm, Flickr.

 

 

 

 





Os números de 2014

5 01 2015

Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2014 deste blog.

Aqui está um resumo:

Um bonde de São Francisco leva 60 pessoas. Este blog foi visitado cerca de 2.900 vezes em 2014. Se fosse um bonde, eram precisas 48 viagens para as transportar.

Clique aqui para ver o relatório completo