Palestra sobre documentação audiovisual na UFMG

8 11 2014

Fui convidada pela profa. Cristina Ortega apresentar uma palestra sobre minha experiência na área de documentação audiovisual, ou de “militante do audiovisual”, como os colegas me definiram no cartaz de divulgação do evento, nas Jornadas de Relatos e Debates da Prática Bibliotecária da Escola de Ciência da Informação da UFMG.

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Dei lá o meu recado, com muito orgulho e alegria por estar em contato com estudantes e profissionais da área numa universidade que não é a minha, onde não desperto muito interesse. Não contei não uma história de conquistas e sucessos, mas uma história de luta com muitas batalhas perdidas. E que ainda não terminou.

Falei do trabalho pioneiro e criativo da Biblioteca da Escola de Comunicações e Artes da USP, arena principal da minha militância, na organização de acervos de documentos audiovisuais para usuários de acervos audiovisuais, não para outros bibliotecários e burocratas escondidos atrás de regras. Tentei mostrar como é árdua a tarefa de incorporar experiências de uma biblioteca de áreas não valorizadas na universidade a um sistema cujas prioridades jamais incluirão o tratamento adequado de acervos de filmes, imagens ou música.

Mostrei as dificuldades quase inacreditáveis que enfrentamos na tentativa de migrar catálogos locais da biblioteca para o banco de dados da universidade,  ainda que os softwares sejam compatíveis, apenas porque seriam necessárias alterações mínimas no sistema maior. Criar um campo que não é sacramentado por regras obsoletas sem as quais muitos bibliotecários não conseguem respirar pode causar catástrofes de proporções épicas, como todo mundo sabe.

Procurei mostrar que a falta de formação dos bibliotecários para tratar documentos audiovisuais pode estar levando à perda irremediável de um  mercado de trabalho que teria tudo para ser nosso.

Vídeo da palestra: https://www.youtube.com/watch?v=p9n5522KTWk

Apresentação: http://pt.slideshare.net/MarinaMacambyra/documentao-audiovisual-e-biblioteca-universitria

Site da Jornada: http://www.eci.ufmg.br/novidades/events/jornada-de-relatos-e-debates-da-pratica-bibliotecaria-1

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A grande ilusão

25 03 2014

(copio aqui o texto que publiquei no blog Bibliotecários Sem Fronteiras)

Trabalhei com documentação audiovisual durante toda a minha vida profissional. Comecei organizando uma filmoteca, no tempo em que o suporte para o cinema amador ou para filmes destinados ao uso didático era a película em 16 milímetros. Depois veio um caótico acervo de fotografias e slides, mais tarde aprendi a catalogar discos e partituras e quando surgiu o videocassete, criei uma videoteca. Trabalhei com conservação, migração de suportes, digitalização, tratamento da informação, seleção e aquisição, atendimento ao público. Desenvolvi metodologias de tratamento para esses documentos e preparei dois manuais para compartilhar a experiência.

Tive o privilégio de ter sido aluna da  Johanna Smit, convivido e trocado ideias com ela ao longo desses anos todos de trabalho na ECA/USP. Lá no início dos anos 80 os professores do curso de biblioteconomia já diziam, com aquela carinha de professor que descobriu algo muito importante e está alertando as crianças para o fato , que “bibliotecários não trabalham só com livros, hoje as bibliotecas tem vários tipos de documentos” e que “nós trabalhamos com informação, não com livros”. E provavelmente já diziam coisas assim antes, mas eu não ainda estava lá para ouvir.

O problema é que essas afirmações, que gosto de chamar de “a grande ilusão” por motivos essencialmente cinematográficos, só se tornavam realidade palpável na aula da Johanna, enquanto as demais tratavam mesmo de livros. E lá se foram mais de 30 anos. Suportes que na época ainda não existiam hoje já estão praticamente extintos, e os alunos de hoje continuam reclamando da mesma coisa: por mais que se apregoe o contrário, nos cursos de biblioteconomia só se aprende a trabalhar com livros.

Para suprir as deficiências de sua formação, bibliotecários que trabalham com documentos audiovisuais sempre recorreram à experiência de instituições com tradição na área. Eu fiz isso no início, e quando já estava mais à vontade nesse universo comecei a receber visitas de colegas para conhecer o trabalho da Biblioteca da ECA. Conheci dessa forma muitos bibliotecários preocupados por não saber como tratar o acervo sob sua responsabilidade que, provavelmente, acabaram aprendendo. Também conheci administradores que nem imaginavam que um bibliotecário poderia resolver seu problema, até porque nem sabiam o que era um bibliotecário, e outros que não conseguiam contratar um profissional com experiência ou algum conhecimento na área de audiovisual. Mas o pior foi topar com gente que contratou bibliotecário e se arrependeu, porque o profissional só enxergava uma forma de trabalhar, seguindo aquelas normas que aprendeu na faculdade como se fossem leis de um livro sagrado e teimando em ignorar a opinião do usuário de seus serviços.

Sempre tive a sensação de que estávamos perdendo uma fatia do mercado de trabalho que poderia ser muito promissora para bibliotecários, por culpa, sobretudo, da formação deficiente que recebemos. Já reclamei disso no meu blog Dia de Greve, Dia de Trabalho, onde reclamo o tempo todo.

Fora do discurso vazio, na dura realidade, o status quo da biblioteconomia só se preocupa com documentos textuais e não entende muito outras linguagens e formas de expressão. Reparem que não estou me referindo a simples diferenças de suportes, a coisa não é tão simples como pretendem os que dizem que “é tudo a mesma coisa, só muda o suporte”. Para atender às necessidades de usuários de acervos de imagens ou de música, por exemplo, é preciso saber um pouco mais do que preencher corretamente os 007 e 300 do MARC. Já escrevi um pouco sobre essa questão em alguns textos deste blog, onde também reclamo bastante (porque sou uma bibliotecária muito rabugenta):

Antes que o diabo saiba

Calma, uma coisa de cada vez

A regra do jogo

Um artigo recente da revista El Profesional de la Información, Rasgos y trayetorias de la documentación audiovisual, coloca em termos bastante concretos os meus receios. O autor observa que ao crescimento da produção e circulação da informação audiovisual não estaria correspondendo um crescimento proporcional da gestão documental desses conteúdos. Muito se produz e se usa, mas pouco se organiza. Uma das razões apontadas no artigo é o fato de que os novos sistemas digitais de produção audiovisual transferem ao próprio produtor-usuário funções antigamente próprias dos arquivos, como a inserção de metadados e a busca. E bota o dedo numa ferida antiga e difícil de curar:

Observa-se que existe uma distância entre os programas acadêmicos das graduações em biblioteconomia e documentação, orientados monograficamente à gestão da informação, e os perfis profissionais demandados em determinados setores, como o multimídia, onde a gestão de informação não ocupa um lugar independente, mas integrado em outras atividades da organização (p. 11).

Resumindo, não conseguimos dar conta do recado, apesar de existir a demanda por um serviço que, em tese, poderíamos oferecer. E a tecnologia veio ajudar os próprios usuários potenciais e negligenciados a se virarem sem nossa preciosa mediação.

Outro ponto interessante do artigo é a constatação de que grandes arquivos audiovisuais analógicos permanecem, na Espanha, à espera de projetos de conservação e digitalização. O risco de perda de documentos é expressivo: gravações em vídeo da década de oitenta, por exemplo, já mostram sinais de deterioração. Uma das dificuldades a enfrentar é a falta de um inventário nacional desses arquivos. Sabe-se que existem talvez milhares, mas não se sabe ao certo o que contêm. Suponho que a situação no Brasil não seja lá muito diferente, embora o autor mencione nosso país como um dos que inseriram “a preservação do patrimônio audiovisual dentro de um conceito mais amplo de identidade cultural” (p. 8), dado sem dúvida positivo.

Minha conclusão pessoal é que ainda somos necessários, embora a perda de espaço já seja um fato. Ainda existem acervos importantes precisando de tratamento, mercado potencial para profissionais da informação que saibam o que fazer ou aprendam muito rápido. Mas quanto tempo ainda resta, isso eu não sei.

 





As Obras de Arte, suas Imagens e a Catalogação

17 12 2013

No SNBU de 2008, José Estorniolo Filho e eu apresentamos um trabalho sobre  imagens de arte, no qual examinávamos algumas peculiaridades envolvidas no tratamento desse material e as ideias promissoras trazidas pelos novos princípios e padrões que despontavam no mundo da documentação: os Requisitos Funcionais para Registros Bibliográficos da IFLA (FRBR) e o Cataloguing Cultural Objects, da Visual Resources Association (CCO).

Em novembro deste ano,  no último Encontro Nacional de Catalogadores (Enacat), foram apresentados dois trabalhos  sobre padrões para tratamento de imagens: um deles sobre o padrão de metadados VRA Core, outro que propõe um modelo de requisitos funcionais para documentos imagéticos digitais. Fora isso, não tenho visto produção brasileira de textos acadêmicos sobre o tema imagem e FRBR ou sobre catalogação de imagens de obras de arte usando o padrão CCO. Também não observei experiências de aplicações práticas do CCO em projetos de instituições brasileiras, o que não deixa de ser decepcionante, visto que se trata de uma regra de catalogação desenvolvida especialmente para obras de arte e para as imagens delas.

Suponho que ainda não existam no Brasil acervos de imagens suficientemente organizados para considerarem o estudo de regras de catalogação, ou profissionais da informação atuando nas instituições com esse tipo de acervo, ou que os bibliotecários ainda estejam presos ao AACR2 e sonhando com o RDA sem estudá-lo de fato. Suposições, apenas.

Algumas bibliotecas digitais de imagens lançadas recentemente, como a Biblioteca Digital de Artes Visuais da Unesp e o Arquigrafia, projeto da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, não estão usando o CCO para catalogar as imagens e adotam em suas bases de dados o princípio de registrar foto a foto, sem fazer a distinção entre registro da Obra e registro das imagens da Obra.

Na USP comecei a trabalhar, com o pessoal do Departamento Técnico do Sistema Integrado de Bibliotecas, num projeto de biblioteca digital para a produção artística dos professores usando as entidades do primeiro grupo dos FRBR como base para os registros. Infelizmente, o projeto parou como tantos outros na USP, e não tenho mais esperanças de que seja retomado. Além de ser  muito complicado, a produção artística não é devidamente valorizada na USP.

Mas quais seriam, afinal, as vantagens de tratar imagens de arte pensando na distinção entre a Obra fotografada e as imagens dela? Vou tentar explicar.

A imagem abaixo é da escultura Maman, de Louise Bourgeois, obra de 1999, em bronze, mármore e aço inoxidável, medindo 895 x 980 x 1.160 cm, versão do Museu Guggenheim de Bilbao. Foi fotografada em 2011, em preto e branco, de baixo para cima, por José Estorniolo Filho, que fez, na ocasião, diversas outras fotos em vários ângulos e tomando diferentes decisões estéticas. Todas essas informações, em princípio, podem interessar a um pesquisador de imagens de arte.

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A descrição dessa imagem, de acordo com o AACR2 e numa base de dados em formato MARC, seria mais ou menos assim:

100 = Bourgeois, Louise $d1911-2010
245 = Maman / foto de José Estorniolo Filho
260 = $c2011
300 = 1 foto digital; p&b; 66.1 Kb
520 = Vista parcial, câmera baixa, com parte das paredes do Museu Guggenheim em segundo plano.
534 = $pObra fotografada $aBourgeois, Louise$tMaman $c1999 $e1 escultura : bronze, mármore, aço ; 895 x 980 x 1.160 cm $lMuseu Guggenheim, Bilbao $nEdição 2/6, fundida em 2001
650 = Esculturas públicas
650 = Aranhas
700 = Estorniolo Filho, José

A descrição reflete a condição ambígua das fotografias de obras de arte, usadas como substitutas das obras originais pelo professor, por exemplo, que precisa apresentar aos alunos trabalhos localizadas em diversos pontos do mundo. A entrada principal é o autor da obra fotografada, que é o foco principal do interesse do pesquisador. Mas não se pode esquecer os aspectos da fotografia que está sendo tratada: o nome do fotógrafo (quando conhecido), a data em que a imagem foi produzida e seus dados físicos, pelo menos. O enquadramento, a posição da câmera e outros aspectos da imagem em si, que registrei no campo 520 (resumo) por falta de opção melhor são importantes para a seleção final das imagens pelo usuário. Num bom catálogo de imagens esses elementos deveriam ser filtros disponíveis no sistema de busca. Afinal, o pesquisador pode estar um busca de outro tipo de imagem da Maman, como esta, por exemplo:

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Agora vamos imaginar um acervo que tenha mais 145 imagens da mesma obra, de vários fotógrafos e épocas, em suportes físicos variados. Quem já trabalhou em acervos de slides, de fotos em papel ou imagens digitais, sabe que essa situação não é improvável. Se nosso hipotético acervo for especializado em esculturas ou pertencer a uma instituição da cidade de Bilbao, a quantidade poderá ser ainda maior. Se essas 145 fotos da mesma obra de arte forem catalogadas de acordo com a lógica de tratar o item em mãos – sou seja, cada uma das fotos individualmente – teremos 145 registros com praticamente a mesma descrição. Isso porque a obra fotografada é a mesma, e a parte  mais importante da descrição se refere a essa obra, a Maman de Louise Bourgeois.  Além da repetição um tanto inútil de trabalho, catalogar imagens dessa forma pode gerar inconsistências nas informações. Catalogadores diferentes, ou o mesmo catalogador em diferentes ocasiões, podem omitir um dos dados da obra por distração ou por não encontrá-lo na imagem específica que está sendo tratada.

E o que acontece lá na outra ponta, na recuperação da informação?

O pesquisador vai encontrar 145 (ou mais) imagens isoladas da mesma obra, sem qualquer relação lógica entre uma e outra, nem com a obra documentada. Inconsistências na catalogação, como ausência do nome do museu ou da data da obra, por exemplo, podem gerar dúvidas difíceis de serem resolvidas pela simples visualização das imagens: estou diante de um detalhe da Maman do Guggenheim de Bilbao ou de outra das sete cópias realizadas pela artista? Falta de cuidado na descrição das características específicas das imagens, como enquadramento e posição de câmera dificultam o processo de seleção dos documentos.

Façam uma experiência: entrem no Flickr , pesquisem “maman Louise Bourgeois” e observem a imensa quantidade imagens bastante diferentes entre si que é recuperada. Mesmo quem não está habituado a pesquisar imagens vai entender o problema que é para o usuário encontrar “aquela foto” ou aquele tipo específico de foto da Maman que atenda às suas necessidades.

Para fazer diferente, usando uma lógica que considere mais o usuário da imagem do que princípios de catalogação criados para documentos textuais, vamos tentar o seguinte.

1. Descrever a obra de arte com todos os dados necessários e criar um registro no catálogo para essa descrição.
2. Descrever as imagens dessa obra, ressaltando os aspectos específicos do documento fotográfico e relacionar cada registro de imagem ao registro da obra da obra de arte.

Catalogando de acordo com o CCO, resultado seria algo mais ou menos assim:

Registro da Obra

Classe: Escultura
Tipo de obra: Escultura pública
Título: Maman
Criador: Louise Bourgeois (escultura francesa, 1911-2010)
Data de criação: 1999
Assunto: Maternidade; Aranhas
Localização atual: Museu Guggenheim de Bilbao (Bilbao, Espanha)
Dimensões: 895 x 980 x 1.160 cm
Materiais e técnicas: bronze, mármore, aço
Edição: 2/6, fundida em 2001
Descrição: Aranha gigantesca com vários ovos de mármore no interior do abdômen, concebida pela artista como homenagem à sua mãe, que trabalhava como restauradora de tapeçarias.

Registro de imagem 1

Agente: José Estorniolo Filho (fotógrafo  )
Título: Maman
Data da imagem: 2011
Tipo de imagem: imagem digital
Formato da imagem: jpg
Medidas: 66.1 Kb
Descrição da vista: Vista parcial de baixo da escultura, abdômen com ovos visível, parte da parede do museu enquadrada em segundo plano.
Tipo de vista: Vista parcial; Vista de baixo.
Assunto da vista: Abdomen; Pernas; Ovos.
Direitos autorais: José Estorniolo Filho, licença Creative Commons
Obra relacionada: link para a obra

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Registro de imagem 2

Agente: José Estorniolo Filho (fotógrafo)
Título: Maman
Data da imagem: 2011
Tipo de imagem: imagem digital
Formato da imagem: jpg
Medidas: 2,01 Mb
Descrição da vista: Vista geral de cima, com sombra projetada no chão, parte de passarela e lago enquadrados, pessoas ao redor da escultura.
Tipo de vista: Vista geral; Vista de cima.
Direitos autorais: José Estorniolo Filho, licença Creative Commons
Obra relacionada: link para a obra

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Registro de imagem 3

Agente: Kainet
Título: Looking way too skinny to be healthy
Data da imagem: 2010
Tipo de imagem: imagem digital
Formato da imagem: jpg
Descrição da vista: Vista geral da obra, com Museu Guggenheim ao fundo, realizada com objetiva olho-de-peixe.
Tipo de vista: Vista geral;  Olho-de-peixe; Moldura circular.
Assunto da vista: Museu Guggenheim de Bilbao
Direitos autorais: Kainet, licença Creative Commons.
Obra relacionada: link para a obra

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Registro de imagem 4

Agente: Michael
Título: Chez Maman
Data da imagem: 2007
Tipo de imagem: imagem digital
Formato da imagem: jpg
Descrição da vista: Vista parcial da obra e do Museu Guggenheim, realizada durante o pôr-do-sol.
Tipo de vista: Vista parcial; Luz crepuscular
Assunto da vista: Pôr-do-sol
Direitos autorais: Michael, licença Creative Commons.
Obra relacionada: link para a obra

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Alguns desses elementos, como Criador, Assunto, Tipo de Obra e Tipo de Vista, por exemplo, devem ser relacionados a registros de autoridade.  Parte dos metadados que utilizei na descrição das imagens foi extraída do padrão VRA Core, que pode ser usado em conjunto com as normas do CCO.

As vantagens da dupla CCO/VRA Core em relação a outros padrões são, para ficar apenas nas mais evidentes:

  • Por serem padrões desenvolvidos especificamente para tratar obras de arte e suas imagens, trazem soluções para problemas de descrição não previstas por outras normas.
  • Fazem distinção clara entre Obra e Imagem, eliminado possíveis confusões entre um conceito e outro e ajudando a descrever adequadamente elementos que acabam sendo negligenciados quando usamos padrões concebidos para tratamento de textos.
  • Obrigam o catalogador a voltar necessariamente sua atenção para a Obra e para informações importantes que nem sempre podem ser encontradas nas imagens específicas que estão sendo descritas.
  • Propiciam real economia de esforços, já que a Obra é descrita uma única vez.
  • Permitem que a informação seja recuperada de forma mais lógica e organizada.

Leituras:

Sarah Lorenzon Ferreira e Marcelo dos Santos. Elementos da descrição de imagens de arte em ambiente eletrônicos:  considerações sobre o padrão VRA Core 4.0. http://www.enacat.ufscar.br/index.php/eic-enacat/eic-enacat/paper/viewFile/57/20

Margaret N. Webster. The metadata landscape: Cataloging Cultural Objects, the VRA Core, and our visual collections.  http://ecommons.cornell.edu/handle/1813/9417?mode=full

Mick Eadie. Towards an Application Profile for Imageshttp://www.ariadne.ac.uk/issue55/eadie





Imagens e Bobagens

6 08 2013

Quem escreve sobre análise de imagens na área de documentação adora começar o texto discorrendo sobre o aumento da produção e circulação de imagens na atualidade. Nunca se fotografou tanto, vivemos cercados de imagens etc. Sim, com certeza eu também já escrevi algo assim. Mas não vejo muitos dados numéricos a respeito, e confesso que nunca pesquisei direito. Encontrei, por acaso, na revista Nouvel Observateur, um estudo com algumas cifras interessantes.

600 a 800 bilhões de fotos teriam sido feitas em 2012 (o estudo diz “serão feitas”, trata-se de projeção).
7 bilhões de fotos foram postadas no Facebook em 2011.
1934  fotos foram feitas em 2011 por cada possuidor de uma câmera reflex (o dado não inclui imagens geradas de celulares e por aquelas câmeras compactas que todo mundo tem).

Fonte: Observatoire des Professions de l’Image 2012
http://www.gnpp.com/files/posts/000055-opi2012.pdf

Não tenho dados do tempo das câmeras de filme para comparar, mas é mais ou menos óbvio que os números devem ter aumentado. Experiência pessoal: chegamos a voltar de viagens de férias, meu companheiro e eu, com 10 filmes de 36 poses para revelar. Hoje, voltamos de viagens com umas 3000 imagens para selecionar, tratar, apagar, separar em pastinhas,  organizar minimamente para serem mostradas e postar em sites de compartilhamento de imagens.

Certo, mas e nossa relação com as imagens, como anda?

Como estamos produzindo imagens em escala monstro e podemos acessá-las com muita facilidade, é razoável supor que hoje vemos mais imagens do que há trinta anos. Meus últimos álbuns de fotos de viagem em papel devem ter sido vistos por três ou quatro pessoas da família ou amigos que apareceram na minha casa. Grandes demais para serem transportados por aí e vistos pelos colegas de trabalho na hora do almoço. Já um dos meus últimos álbuns de viagem no Facebook foi curtido por 62 pessoas. Obviamente muitos desses amigos podem ter apenas apertado o botão “Curtir” por gentileza, sem terem visto de fato as imagens. Mas há sinais de que as fotos estão sendo vistas: comentários, fotos que são compartilhadas, gente com quem tenho pouco contato fora das redes sociais dizendo que gostou das minhas fotos, perguntando sobre os lugares que visitei etc.

Ver mais imagens, entretanto, não quer necessariamente dizer ver melhor. Esse suposto maior contato com imagens não parece estar correspondendo a um melhor entendimento dessa linguagem.

Situação clássica: nos museus em que é permitido fotografar, verdadeiras multidões passam pelas obras expostas e fazem uma foto, quase sem olhar. Levam para casa, muitas vezes, uma reprodução distorcida, tremida e torta da pobre Monalisa, que talvez jamais saia de dentro do celular. Não apreciaram devidamente o quadro e nem vão ter uma reprodução decente para guardar de lembrança.

As redes sociais são um verdadeiro tesouro de exemplos de leituras ingênuas e desatentas das imagens que nelas circulam tão animadamente. Periodicamente alguém posta a foto do “toureiro arrependido” ou do “manifestante carregando o policial ferido”, sem questionar se a história não seria fofa demais para ser verdadeira.

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A historinha edificante que circulou com essa imagem dizia que toureiro passou mal durante a tourada e o touro, por piedade, não o atacou. Esse acontecimento teria levado o homem a abandonar o ofício. Pena que toureiro da foto não estivesse passando mal e nem fosse Álvaro Múnera Builes, como foi veiculado. Múnera  de fato largou a profissão,  mas só depois de levar uma surra de um touro que o deixou paraplégico, E o  momento registrado na foto é apenas uma parte do “espetáculo” da tourada, uma espécie de desafio ao touro que está para ser morto, como explicam o divertido site E-Farsas e o blog Prótouro.

http://www.e-farsas.com/o-touro-que-teve-piedade-do-toureiro-verdadeiro-ou-farsa.html

http://protouro.wordpress.com/2012/07/19/quando-as-mentiras-nao-ajudam-a-causa-pela-abolicao-da-tauromaquia/

Já a foto abaixo aparece de forma recorrente nas redes sociais sempre que acontece algum tipo de manifestação de rua em São Paulo.

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Foi divulgada inicialmente como sendo a foto de um manifestante socorrendo uma policial ferida, mas a verdade é bem menos romântica: o rapaz era um policial infiltrado no movimento dos professores em greve, como explica novamente o E-Farsas.

http://www.e-farsas.com/policial-ferido-e-carregado-por-professor-em-manifestacao-em-sp.html

Como de hábito nesse tipo de lorota, a foto é de 2010, mas ressuscita periodicamente sempre que a realidade precisa ser minimamente enfeitada.

As pessoas se deixam enganar um pouco por falta de conhecimento do contexto. No Brasil não sabemos como são as touradas, e só quem já participou de manifestações com repressão tem condições de saber o quanto é improvável que a polícia permita que um manifestante chegue perto de um policial ferido. Mas, convenhamos, uma análise um pouco mais atenta das imagens e das informações veiculadas pelo texto que as acompanha poderia gerar, pelo menos, alguma desconfiança. Um toureiro, estrela do espetáculo, deixado à mercê do touro enquanto passa mal? Ninguém correu para socorrê-lo? No meio das bombas de gás estourando, um manifestante carrega uma policial? E os colegas dela, acharam bonitinho?

Um dado curioso sobre a foto do P2 é que foi divulgada com a legenda “policial ferido é carregado por manifestante” e muita gente nem se deu conta de que era uma mulher. Um olhar um pouco mais atento teria notado os braços sem pelos e questionaria se um homem tão pequeno a ponto de ser carregado nos braços daquela forma conseguiria entrar para a polícia.

Algo mais grave do que um ingênuo compartilhamento de história fake aconteceu na recentemente na Europa, envolvendo outro aspecto da relação das pessoas com as imagens: a capacidade de selecionar corretamente a fonte, descobrir a origem de uma imagem e identificá-la. Um designer precisava de uma foto de criança para um cartaz publicitário do Festival de Jazz de Montreux. Procurou no Google, escolheu descuidadamente uma foto sem se preocupar em saber do que se tratava e botou no cartaz a foto de um menino assassinado há 29 anos na França, um crime de chocou o país e que jamais foi solucionado.  O distraído não era francês – o que não chega a ser uma boa desculpa para a irresponsabilidade – portanto não sabia nada sobre o acontecimento. Dois fatos tornam a burrada mais grave: foi perpetrada por um profissional que supostamente deveria estar habituado a trabalhar com imagens, e a foto utilizada era de uma criança. Como um designer simplesmente se apropria da foto de uma criança sem autorização dos pais e sem saber quem é? A foto tem todo o aspecto de ser um retrato familiar, não é uma imagem publicitária feita para um de banco de imagens comercial, por exemplo.  A história toda saiu na revista Samuel:

http://revistasamuel.uol.com.br/conteudo/view/20436/Imagem_de_menino_assassinado_ha_29_anos_e_usada_em_cartaz_do_festival_de_montreux.shtml

Outra questão que me interessa é descobrir se as pessoas que estariam produzindo e divulgando imagens aos bilhões dedicam algum tempo a selecionar suas fotos, melhorar a qualidade delas usando ferramentas simples de edição, descartando as muito ruins. Hoje podemos fazer muitas e muitas fotos de um mesmo motivo e selecionar a melhor de vinte, por exemplo. E depois manipular facilmente nossas imagens para deixá-las mais expressivas, aplicando filtros, fazendo recortes e outros recursos que, antes da imagem digital,  estavam ao alcance apenas dos fotógrafos profissionais ou dos amadores com acesso a laboratórios.

Ainda não localizei dados sobre o uso de ferramentas de edição de imagens por amadores, mas a gente vê muita imagem ruim circulando por aí. Enquadramentos descuidados, fotos tremidas ou desfocadas, além das famosas “fotos do nada”, aquelas que a gente olha e não consegue descobrir o que diabos o fotógrafo tentou registrar. Se alguém souber de uma pesquisa sobre esse assunto, me avise, por favor.

Acredito que o hábito de avaliar as próprias “obras” e investir algum tempo em tentar deixá-las mais bonitas seja um ótimo treinamento para o ofício de ver e analisar imagens. Bibliotecários e outros profissionais da informação cuja formação acadêmica raramente os capacita a tratar acervos de imagens deveriam adotar essa prática, se pensam em enveredar pela área. Fotografar mais e aprender um pouco sobre linguagem fotográfica também ajuda bastante na atividade profissional ligada à organização de acervos fotográficos.

Não é preciso saber fotografar ou manipular imagens para organizar um acervo fotográfico, mas sabendo fica muito mais divertido.





Seres imaginários na academia: como indexar filmes com o Vocabulário USP

2 06 2013

Mas, dá para usar a mesma lista de assuntos para indexar livros e filmes?.

Sempre me perguntam isso. Eu mesma me pergunto isso, ora. Tudo é tão difícil e custoso na nossa área que às vezes tudo o que queremos é uma solução simples e não muito trabalhosa. A regra de catalogação é inadequada, o software não presta? Ah, mas dá para usar. Não é o ideal, mas é o que dá para fazer no momento. Não é perfeito, mas pelo menos o usuário consegue localizar o material. Quantas vezes já não ouvimos ou dissemos frases nessa linha de raciocínio?

A história é sempre a mesma. Engolimos sempre o pacote básico porque é mais barato e dá menos trabalho para a chefia. Dando para fazer o mínimo já está tudo muito bem, e o serviço melhor, o mais sofisticado e o mais arrojado sempre fica para depois. E se esse depois for aquele momento em que bibliotecas e bibliotecários tiverem perdido totalmente a importância?

Mas não é para tratar do apocalipse bibliotecário escrevo este post, vamos ao que interessa.

Trabalho há vários anos indexando filmes na Biblioteca da Escola de Comunicações e Artes da USP com os termos do Vocabulário Controlado USP, ferramenta usada para indexar materiais de todas as áreas do conhecimento e em todos os suportes. Esse vocabulário tem deficiências muito sérias, mas é o que foi possível desenvolver até o momento. Há menos de 20 anos passamos do nada, ou seja, cada biblioteca usando sua própria linguagem, para alguma coisa, o Vocabulário USP, que em algum momento será substituído por algo melhor. Ou não, veremos.

Na prática diária, embora o processo mental de análise de assunto de um filme e de um texto escrito seja diferente – e ainda não consigo explicar convenientemente essa percepção – não sinto falta de um vocabulário específico para indexar documentários ou qualquer filme de caráter técnico. Em geral, podemos indexar tranquilamente um filme sobre pintura brasileira do século 19 ou sobre danças de índios do Xingu com os mesmos termos que utilizaríamos para representar os assuntos de um livro sobre esses temas.

As diferenças aparecem quando indexamos não apenas o filme como um todo, mas partes dele, sobretudo trechos que mostram ações: alguém ou algo fazendo alguma coisa. Tenho um filme sobre o centro de São Paulo, por exemplo, cujo foco principal são as questões ligadas à recuperação de áreas urbanas deterioradas, mas que tem umas sequências interessantes que mostram adolescentes dançando hip-hop na rua e crianças fazendo malabarismo com laranjas nos faróis. Consigo indexar, mas preciso usar vários termos: adolescentes, dança, dançarinos, hip-hop, ruas, crianças ou crianças de rua, malabaristas, malabarismo etc. E vou sempre ficar na dúvida se devo usar dança e dançarinos, ou se escolho um dos termos. E não consigo estabelecer a relação entre os termos. Tudo bem, o usuário vai conseguir, eventualmente, localizar esse conteúdo, principalmente porque não sou besta e vou fazer colocar no resumo a informação que o filme “mostra adolescentes dançando hip-hop na rua e crianças fazendo malabarismo com laranjas nos faróis”. Mas temos que contar que o usuário decomponha a imagem que está em sua mente (meninos dançando na rua) em diversos termos, em geral sem ter noção do que seja controle vocabular.

Agora imaginem um banco de dados gigantesco, como o da USP, quando chegar a ter milhares de filmes e sequências de filmes indexados dessa forma. Nosso usuário vai ter que abrir muitos links, ler muitos resumos e examinar muitas imagens até chegar no que precisa.

Um bom exemplo é este simpático vídeo do Youtube:

http://youtu.be/DQuF_BQRIe4

Se eu tive que indexá-lo usando os recursos do Vocabulário USP, minhas opções seriam mais ou menos estas:

Violonistas

Violão

Interpretação musical (ou Música – Interpretação)

Música instrumental

Os termos seriam provavelmente bons para indexar um artigo sobre essa mulher e outras pessoas que aprendem a tocar violão de forma autodidata, longe de escolas e métodos tradicionais.  Mas falham ao representar o que o vídeo realmente mostra: uma mulher tocando violão de forma diferente da usual. Eu usaria os termos “Interpretação Musical” ou “Música Instrumental” por falta de opção, para tentar representar, de forma torta e indireta, um conteúdo que seria muito bem indexado com uma frase: mulher tocando violão. Esse vídeo não traz, de fato, informações sobre interpretação musical, embora possa ser usado para ilustrar esse conceito. O vídeo apenas mostra uma mulher tocando violão.

Complicado usar frases ou verbos num vocabulário para indexação. Ah, é, de fato. Indexar filmes também é.

O outro momento em que tenho problemas é na indexação de filmes de ficção.

Uma das primeiras dificuldades na qual tropecei é que a ficção tem o hábito de tratar de coisas que não existem: vampiros, fantasmas, viagens no tempo, possessão demoníaca, duendes, fadas, lobisomens, casas mal-assombradas… Já precisei de termos como Inferno, Céu, Olimpo, Futuro e Passado.Toda uma enciclopédia de seres, lugares e situações imaginárias.

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Outro problema dos mais evidentes é a necessidade de usar termos muito mais coloquiais do que os normalmente encontrados num vocabulário feito para textos científicos, técnicos ou acadêmicos.

Quando estou indexando uma comédia ou um filme de terror trash cujos personagens são caracterizados como loucos, preciso do termo “loucos” ou “loucura”. Não dá. Esses termos não existem na área de psicologia. Não temos “loucura”, e sim “Transtornos Mentais”, “Psicoses” “Esquizofrenia” etc. Como faço o diagnóstico dos malucos do meu filme?

Já senti necessidade do termo “Jantares” ou “Almoços”, porque há diversos filmes que se passam durante um jantar ou um almoço, como A festa de Babette, de Gabriel Axe, e O anjo exterminador, de Luís Buñuel. O Vocabulário USP só me dá o termo “Refeições”. Mas não é a mesma coisa? Não exatamente, porque o termo “jantar” não evocar apenas do ato de comer, não se trata apenas de um conceito da nutrição. É um termo que descreve também um evento social, um ritual que acontece ao redor de uma mesa cheia de convidados.

No banco de dados da USP não há remissivas para o usuário. Se houvesse a busca seria mais fácil, mas esse não é o ponto. Remissivas apenas dão uma volta no problema real, que é a diferença entre indexar filmes de ficção e textos acadêmicos.

O Vocabulário USP permite a inclusão de termos conforme a necessidade do indexador. Os termos propostos são avaliados por um grupo gestor que os aprova ou não. Naturalmente, minha legião de monstros e seres imaginários cria situações incômodas para meus colegas do grupo, que não estão habituados a lidar com essas criaturas e nem com os locais que elas habitam. Em geral eles não questionam a necessidade dos termos, mas como inserir tanta fábula no vocabulário da ciência? Não se trata apenas de acrescentar um termo numa lista, é preciso inseri-lo numa hierarquia.

Uma das colegas sugeriu um jeitinho: criar uma lista de personagens para todos os meus bichos em baixo do termo “Personagens”, que já existia no Vocabulário. Posteriormente, sugeri a criação da categoria “Tipos de Cenários e Ambientes” para abrigar lugares estranhos que não consigo encaixar na estrutura de termos. Isso resolve meus problemas e preserva os termos mais comportados das mordidas dos meus lobisomens, mas tenho a impressão de que estamos, na realidade, criando um subvocabulário para ficção dentro do Vocabulário USP. Num futuro próximo podemos vir a ter problemas com isso, porque a estrutura do vocabulário atual não foi prevista para gerenciar essas contradições. De imediato, já existe o risco de um indexador distraído utilizar um termo criado para indexar filmes de ficção para representar um trabalho acadêmico, sem perceber que há um termo mais adequado no Vocabulário.

Existem no mundo vocabulários específicos para indexação de obras ficcionais, como relato no primeiro post deste blog Indexando filmes numa tarde de sexta-feira. Também existe a necessidade de um instrumento específico, ou pelo menos, a suspeita de que seria importante ter esse instrumento. Só não existe, ao menos na USP, a vontade de discutir a questão. A USP não é um espaço para discussões que envolvam bibliotecários, que são apenas funcionários. Discussão, só a do tipo acadêmico, em sala de aula.

Alguma outra instituição se habilita? Estou cansada de discutir comigo mesma.

 





Sereias e unicórnios

27 01 2013

Em dezembro de 2012, à convite da Paloma Altran, bibliotecária que tem se destacado na organização de cursos e eventos da área em São Paulo, ministrei um minicurso sobre catalogação e indexação de filmes.

Foi uma experiência interessante para mim, e espero que tenha sido para os alunos também. Dar aulas é bom porque a gente se prepara, se recicla e se questiona. Mais aprende do que propriamente ensina, no final das contas.

Entre os participantes havia boa quantidade de profissionais que já trabalham com acervos de filmes  em busca de informações que não encontram no mundinho das regras criadas para livros. Para minha surpresa, até pessoas de outros estados participaram do curso. Tive o prazer de contar com uma assistência interessada e atenta, que não se deixou abater pela aridez de alguns dos tópicos abordados – afinal, catalogação, mesmo de filmes, não é um assunto muito ameno.

Constato, mais uma vez, a óbvia necessidade de mais cursos na área de documentação audiovisual. Nossa graduação é falha nesse aspecto, há pouco material didático de qualidade em circulação e nossa prática profissional raramente permite o indispensável tempo de reflexão e maturação de conceitos para desenvolver um trabalho consistente voltado à documento audiovisual. Vivemos eternamente pressionados pela urgência e pela quantidade de “material a processar”, além de assombrados por visões simplistas de colegas que não enxergam um palmo além do AACR2.

Penso que a instituição que se animasse a montar um curso de especialização em organização  de imagens em movimento não ficaria decepcionada com a quantidade de inscritos. Claro que precisaria de professores de diversas áreas: arquivistas, restauradores e conservadores, gente com experiência em cinematecas e emissoras de TV e docentes da área de cinema e televisão. Eu adoraria ver um curso desses acontecendo na USP, mas eu também gostaria muito de ver uma sereia ou um unicórnio de pertinho e  vou morrer sem ter esse gosto.

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Não entendo nada dos mecanismos necessários para criar cursos de especialização e imagino que não seja uma coisa simples. Mas, como estou escrevendo em meu próprio blog, onde posso escrever o que me der na telha, fiquei com vontade de enumerar alguns conteúdos que esse hipotético curso unicórnio dos meus sonhos poderia ter. Só de brincadeira e sem nenhuma ordem:

Fundamentos da linguagem cinematográfica e audiovisual

História do cinema

O gênero nas obras audiovisuais

Análise de imagens

Conservação, preservação e digitalização de imagens em movimento

Os usos do filme: na pesquisa histórica, como material didático, na preservação da memória

Cinematecas e arquivos de filmes: funções, organização.

Coleções de imagens em movimento em bibliotecas

Catalogação e seus padrões: regras da FIAF, AACR2, RDA, MARC etc

Metadados: Dublin Core, CEN, MPEG-7

FRBR e catalogação de filmes

Indexação e resumos

Organização de arquivos de vídeo digital

Bases de dados de filmes

E o que mais? Vamos lá, instituições! Vocês conseguem.





Filmes e facetas

20 10 2012

Comentando um bom artigo:

CORDEIRO, Rosa Inês e LA BARRE, Kathryn.  Análise de facetas e obra fílmica. Clique para ver o texto completo.

As autoras tratam dos princípios de análise fílmica a partir da teoria facetada e relatam os resultados de uma pesquisa empírica sobre o processo de análise de filmes, com a qual pretendiam testar a “possibilidade de aplicação da análise de facetas e análise fílmica para a interpretação e sistematização das informações registradas” pelos participantes e observar se as diferenças culturais entre os indivíduos se manifestavam em suas interpretações .

O texto aborda alguns pontos muito interessantes que nem sempre bibliotecários sem experiência com documentos fílmicos conseguem visualizar com clareza. Um deles, que eu particularmente valorizo muito, é o fato de que a obra fílmica “pode ser de interesse para diversos grupos de usuários e portadores de diferentes níveis de conhecimento” (p. 184). As autoras identificaram na literatura da área uma tendência a propor o tratamento dos documentos em “várias ‘camadas’, a fim de permitir o acesso à informação considerando diferentes interesses e perfis de usuários”(p. 184).

Não cheguei a entender como, na prática, como se daria essa descrição e recuperação em camadas, mas a ideia me parece válida. Qualquer acervo documental pode ser usado de diferentes formas por usuários com características e objetivos diversos, mas penso que no universo das imagens em movimento essas variações são particularmente imprevisíveis. Para citar uma situação concreta do dia-a-dia, muito comum na instituição na qual trabalho, um filme musical americano da década de 50, por exemplo, poderá ser solicitados por estudantes de cinema por suas qualidades estéticas e técnicas, enquanto representante de um gênero que marcou sua época, será recuperado sobretudo pelo gênero, data e país de produção, diretor e atores. O mesmo filme vai interessar aos estudantes de dança para analisar a coreografia, ou a um pesquisador de história da moda, pelos figurinos e adereços, ou simplesmente às pessoas que gostem de musicais, por lazer e diversão.

Idealmente, a análise do filme deve atender às demandas de todos esses tipos de público. Trata-se aqui de uma tipologia de usuários que não se resume apenas a níveis de conhecimento, como no exemplo citado pelas autoras de um projeto de pesquisa que visa os grupos de usuários “acadêmicos, profissionais e leigos” (p.184). Os recortes feitos pelo usuário no conteúdo de um filme são mais complexos do que essa categorização de fundo acadêmico, e percebe-se que o mesmo usuário pode ser leigo numa situação e especialista em outra. Uma outra questão que sempre me chama a atenção ao comparar textos acadêmicos com a prática diária profissional é que nem sempre é possível identificar o grupo de usuários da coleção, porque a combinação pessoas e filmes costuma ser bastante volátil e imprevisível.

Analisando as facetas da obra fílmica, as autoras identificam os seguintes focos, que relacionam com a análise de conteúdo: gêneros, personagens principais, estrutura / unidade narrativa, natureza da representação da trama, referência histórica, conflito matriz e tema, sequências relevantes e aproximações temáticas dessas sequências, cenografia e adereços, figurino, maquiagem, estúdios e locações, efeitos especiais, som, espaços representados na narrativa, registro temporal da trama (p.187-191).

Minha longa prática profissional com acervo e usuários de filmes confirma a validade do método proposto pelas autoras. A observação direta das questões apresentadas por usuários ao longo de cerca de 10 anos em serviço de referência numa filmoteca me levaram a estabelecer um método de análise que envolve indexar, prioritariamente, os seguintes aspectos dos filmes: gênero e forma, características dos personagens principais, ações (conflito matriz e tema, na terminologia das autoras), local da ação (espaços representados na narrativa), época da ação (registro temporal da trama) e eventos históricos presentes no filme (referência histórica). Esse método está descrito no Manual de catalogação de filmes da Biblioteca da ECA e no primeiro post deste blog, poeticamente intitulado Indexando filmes numa tarde de sexta-feira.

Não costumo analisar os demais focos identificados pelas autoras: estrutura / unidade narrativa, natureza da representação da trama, cenografia e adereços, figurino, maquiagem, estúdios e locações, efeitos especiais e som. É perfeitamente possível identificar esses focos num exercício de caráter acadêmico, desde que se tenha conhecimento teórico suficiente para tanto, mas na prática diária da indexação o procedimento pode onerar demais o processo de tratamento da informação. Uma indexação nesse nível de detalhamento se justificaria somente diante da demanda explícita de um público bastante especializado. De qualquer forma, esse olhar das autoras sobre o processo de indexação de filmes buscando apoio em estudos de teóricos do cinema é muito importante, por trazer bases consistentes para o trabalho prático com acervos de filmes em unidades de informação.

Em sua pesquisa empírica para verificar a possibilidade de aplicação do método das facetas, as autoras concluíram que os focos mais recorrentes são: os conflito-matriz e temas representados nos filmes, personagens principais da trama, gênero cinematográfico e as categorias Espaço e Tempo (p. 198). A conclusão confere com minha prática, mas tendo a considerar que a amostragem selecionada  – 12 alunos de pós-graduação em Ciência da Informação – não foi suficientemente representativa. Além de serem poucos, não estavam indexando numa situação real, ou seja, numa unidade de informação específica com objetivos definidos e público em função do qual realizar a indexação. Penso que indexação sem usuário não faz muito sentido, mas aviso que não entendo nada de estatística, as autoras devem saber mais do que eu!