Referências de audiovisuais: um olhar sobre a revisão da NBR6023

21 12 2015

Num momento de puro altruísmo e sincera preocupação com a humanidade, decidi me debruçar sobre o projeto de revisão da norma para referências bibliográficas (NBR6023), que a ABNT recentemente submeteu à consulta pública. Analisar norma de referência é um dos trabalhos mais chatos que já inventaram para um bibliotecário fazer, quase tão ruim quanto fazer inventário ou elaborar regulamento. Mas, pensando que se é chato para mim que dirá para o pobre do estudante ou pesquisador que precisa apenas usar a norma, enfrentei a empreitada, pensando em Sísifo, Prometeu, Hércules e tantos outros personagens mitológicos que enfrentaram barras bem piores.

 

Hercules combatant Achelous

 

O post mais popular do Blog da Biblioteca da ECA é sobre citação e referência de filmes e teve, até o momento, 19.293 acessos e 42 comentários de pessoas com dúvidas sobre o assunto, seguido pelo post sobre citação e referência de documentos musicais, com 10.869 e 21 consultas. O terceiro colocado, que explica como localizar livros nas estantes e foi publicado um ano antes, teve modestos 1943 acessos.

Esses números me fazem acreditar que o interesse no tema é grande, e o tipo de consulta que recebemos nos comentários deixa claro que as dificuldades são muitas. De fato, as regras para documentos audiovisuais são bastante falhas na norma vigente e tudo indica que não vão melhorar muito depois da revisão, pelos motivos de sempre:

1. Ninguém liga para documentos audiovisuais.
2. Ninguém entende nada de documentos audiovisuais.
3. Ninguém dá a mínima para as dúvidas dos usuários de audiovisuais.

Além disso, o processo de discussão dos resultados da consulta pública está sendo conduzido de forma autoritária e pouco eficiente. Quem participou da consulta pública foi convidado para uma reunião na qual supostamente seriam discutidas as sugestões apresentadas. Mas, na verdade, houve muito pouco espaço para uma real discussão do conteúdo da norma, porque os organizadores consideram  que já está tudo decidido. Apenas as observações de caráter formal e as questões que apontavam inconsistências no texto foram consideradas, o que me faz pensar por que, afinal, passei dois dias acompanhando, atônita, acalorados debates sobre pontos e espaços.

A “discussão” não chegou ainda ao capítulo dos audiovisuais. Se chegar lá, eu gostaria muito e poder trocar ideias com pessoas que realmente conheçam o documento audiovisual e seus usuários, mas sei que isso não vai acontecer. Se 9 anos (?!) não foram suficientes para construir uma norma adequada e de fácil compreensão, talvez só nos reste fazer como Manuel Bandeira e tocar um tango argentino ou pensar numa alternativa mais prática à ABNT.

Apontei alguns pontos no texto que considerei falhos mas, de fato, todo o capítulo dos audiovisuais precisaria ser repensado e refeito. Logo no escopo do capítulo se lê:

Inclui imagens em movimento e registros sonoros nos suportes: disco de vinil, DVD, blu-ray, entre outros.

Bobagem. Numa área onde suportes novos aparecem todos os dias seria melhor não especificar nenhum. Se querem dar exemplos de suportes, coloquem pelo menos os mais conhecidos atualmente, não apenas três.

A norma aponta como elementos essenciais da referência de filmes: título, diretor, produtor, local, produtora, data e especificação do suporte em unidades físicas (destaques meus). O produtor como elemento obrigatório é problemático, porque existem diversas funções na esfera da produção de uma obra audiovisual: produtor, diretor de produção, produtor executivo, produtor associado, co-produtor supervisor de produção etc. Isso pode confundir o usuário. “Qual desses produtores eu coloco na referência” é uma pergunta que eu escuto bastante. Na maior parte dos casos, o produtor ou o diretor de produção seriam os mais indicados, mas a norma dá um exemplo citando o produtor executivo. Confusão formada.

Trecho da ficha técnica do filme Reflexões de um liquidificador, extraída da Filmografia Brasileira (Cinemateca Brasileira).

Trecho da ficha técnica do filme Reflexões de um liquidificador, extraída da Filmografia Brasileira (Cinemateca Brasileira).

Outra bagunça terminológica é o uso do termo produtora. Existem empresas produtoras e empresas distribuidoras (embora algumas façam as duas coisas). Na referência de um filme em DVD o mais lógico é informar o nome da empresa responsável pela distribuição no mercado de vídeo doméstico, porque é preciso identificar corretamente o material referenciado. Nos exemplos aparecem as distribuidoras, exceto no de filme em película. Para referenciar uma cópia em película consultada no acervo de uma cinemateca, por exemplo, é melhor citar a(s) empresa(s) produtora(s). Essas distinções nem sempre são simples de entender, e a norma não deveria aumentar a confusão. Por que usar o termo produtora quando, na maioria dos casos, o que é mencionado na referência é a distribuidora?

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Trecho da ficha técnica do DVD do filme O sacrifício, extraída do site da Livraria Cultura.

Minha sugestão para o enunciado deste item seria algo assim: ” Os elementos essenciais são: título, diretor OU produtor OU roteirista, local de distribuição, empresa distribuidora, data de distribuição e especificação do suporte. Na ausência de pessoas creditados como diretor, produtor ou roteirista, inserir outro nome que possa ser identificado como responsável pelo conteúdo”. Mas não tenho certeza de que isso seria possível, porque existem “diretivas” para elaboração de normas (sim, normas para elaborar normas) e nem sempre o que a gente acha interessante é permitido.

De qualquer forma, seria importante permitir ao usuário escolher um ou mais indivíduos,  ou uma instituição (ou instituições), com ampla responsabilidade sobre o conteúdo do documento para mencionar na referência, e deixar claro, nos exemplos, que existe essa opção. Há dois exemplos de filme de longa-metragem no texto do projeto de norma, ambos com vários nomes da equipe citados, o que é um exagero completamente inútil numa referência.

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Os demais exemplos, com menos dados, são de curtas-metragens, séries de TV e vídeos de música, o que pode dar ao usuário a ideia errada de que precisa encher de nomes a referência de um longa. Pobre usuário, sempre perdido na selva da normalização, sempre dependendo de nós, às vezes precisando contratar um bibliotecário para revisar suas referências.

Há diversas falhas nos exemplos do projeto, algumas pequenas, outras nem tanto. Parecem ter sido elaborados por pessoas que não conhecem muito esse tipo de documento. Um dos exemplos é de uma coleção de slides – chamados no texto pelo nome em português que ninguém mais usa desde que eu era criança, “diapositivos” – acompanhados por áudio em fita cassete. O que diabos é isso? Algo que era bastante usado como material didático antes da popularização do videocassete. Qual é a possibilidade de alguém ainda precisar referenciar esse tipo de material? Remota. Nunca me perguntaram sobre isso nos últimos 30 anos. Claro que é preciso ter exemplos de materiais antigos na norma, mas dentro de um universo de apenas 8, dedicar um exemplo inteirinho para um tipo de documento que nem deve existir mais não muito faz sentido.

No exemplo da série Breaking bad, foram citados os produtores executivos. Ninguém que conheça séries faria isso, já que o normal seria mencionar o criador da série, como mostra claramente o registro da IMDB. Por que confundir assim o usuário?

Nos dois exemplos para vídeos publicados no Youtube a interpretação da responsabilidade é discutível.

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Nesse exemplo, não está claro nos créditos que o vídeo seja uma produção de Leerestademoda. No letreiro final do vídeo a única informação disponível é o endereço do site leerestademoda.com, mas não há nenhuma indicação que nos permita concluir que se trata da entidade produtora do documento.

Snap 2015-12-21 at 13.15.10Nesse outro caso, parece realmente haver um equívoco, já que Laura Cohen é autora do manifesto, não do vídeo.

Posso estar sendo chata, mas em 9 anos de trabalho de revisão o pessoal não conseguiu encontrar uns exemplos melhores?

Ainda em relação aos vídeos do Youtube, senti falta de orientações sobre o canal, um elemento importante. O canal representa o indivíduo ou instituição que publica o documento na plataforma, que pode ser ou não o responsável pela realização do vídeo. Em alguns casos, é uma informação que pode garantir a confiabilidade do documento publicado e, por esse motivo, muitos usuários perguntam como mencioná-la na referência.

Temos pouco mais de 2 páginas para modelos de referências de documentos audiovisuais e no mínimo 15, se contei direito, para documentos textuais. Para as inadequadamente chamadas “monografias” (*) temos umas 4 páginas de modelos, com subdivisões para monografia no todo, parte de monografia, monografia em meio eletrônico e parte de monografia em meio eletrônico. Entretanto, elaborar uma referência de filme não é tarefa menos complexa, e um documento audiovisual também pode ser referenciado em parte, no todo, em meio eletrônico etc. O conteúdo de um documento audiovisual pode se apresentar em tantas ou mais formas do que um documento textual: evento, reportagem, capítulo de novela, videoarte, documentação de performance, concerto, clip, ópera, entrevista, depoimento, comercial, tomadas não editadas, cenas excluídas, extras de DVDs, aulas etc. Não imagino que seja possível ter exemplos para todos esses casos, porque não queremos uma norma com 512 páginas, mas talvez fosse possível reorganizar o texto, iniciando com uma seção de modelos genéricos que servissem para documentos com características de conteúdo semelhante, independentemente do suporte.

Outra orientação que me incomoda, suponho que tirada da catalogação, é a entrada pelo título para qualquer documento audiovisual. Na verdade, existem audiovisuais que são obras coletivas e outros que não são, assim como acontece no mundo dos textos.

Vou parando por aqui, para não matar meus leitores de tédio. Assim que reunir coragem e determinação suficientes, publicarei meus comentários sobre referências de documento sonoro, partitura e documento iconográfico. Não sou, de forma alguma, especialista em normalização, sou apenas uma bibliotecária de referência que conhece documentação audiovisual e gosta de auxiliar usuários. Portanto, se alguém quiser corrigir algum erro meu ou acrescentar comentários, ficarei muito grata.

Normas para quem? (post do Blog da Biblioteca da ECA)

(*) Um livro de poemas ou de contos, uma coletânea de peças teatrais ou de textos diversos não são monografias, mas há uma regra besta qualquer determinando que seja usada essa palavra.

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Uma história sem fim ou O fim de uma história

26 01 2015

No  I Encontro Nacional de Bibliotecários Catalogadores de Acervos de Música do Brasil, evento simultâneo ao XVIII Seminário Nacional de Bibliotecas Universitária (SNBU), apresentei, com minha colega Sarah Lorenzón Ferreira, nosso trabalho Catalogação de partituras na Biblioteca da ECA.

Nesse trabalho, também apresentado no SNBU como poster, contamos um pouco da história da organização do acervo de partituras da Biblioteca da ECA e da metodologia de tratamento desse material desenvolvida pela instituição ao longo de uns 45 anos de trabalho voltados ao atendimento de usuários músicos e musicólogos. Um trabalho regido pelo princípio de atender às demandas de informação do usuário, sem o apego cego a regras ultrapassadas de catalogação que, muitas vezes, servem mais como apoio às inseguranças dos bibliotecários do que como mecanismo de padronização de fato. Até porque, como não canso de lembrar, regras feitas para tratamento de texto muito pouco se prestam à padronização de verdade de outros tipos de documentos.

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Também abordamos os problemas envolvidos na migração dos registros de nossa base de dados de partituras – uma velhinha pioneira nascida em 1978 – para o Banco de Dados Bibliográficos da USP (Dédalus), criado bem depois. O motivo eternamento alegado por bibliotecários, analistas e sei lá mais quem do Departamento Técnico do Sistema Integrado de Bibliotecas da USP para não fazer a migração (solicitada pela Biblioteca da ECA em 1996) era, além da necessidade de priorizar coleções mais valorizadas pelo mundo acadêmico do que partituras musicais, o uso pecaminoso de regras locais. Os campos da base são perfeitamente mapeáveis para a estrutura do Dédalus, mas isso não fez diferença alguma;  o próprio formato MARC sempre permitiu a criação de campos locais, mas isso jamais foi levado em consideração para o acervo de partituras.  O pavor provocado pela frase “não é AACR2” tem efeitos paralisantes sobre o bibliomundo. Se um dia a polícia quiser dispersar uma passeata de bibliotecários não precisa jogar bombas, é só gritar “não usamos AACR2” que vai ser uma debandada geral.

Um dos impasses era a falta de um campo específico no Sagrado Formato MARC para o meio de expressão das obras musicais. Em nossa base o campo sempre existiu.

Mas vocês não podem colocar no campo Assunto, como todo mundo?

 

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Era a frase que mais escutávamos. Sim, podíamos, mas estaríamos fazendo errado como todo mundo. Meio de expressão são os instrumentos, vozes, grupos vocais e instrumentais para os quais a obra musical foi escrita. Uma partitura para violino e orquestra não é um documento SOBRE violino e orquestra, certo? Logo, inserir a informação no campo 650 do Sagrado (permitam-me chamá-lo assim, singelamente) é um pequeno erro conceitual, se não estou equivocada. Ao fazer a migração para um sistema maior, não queríamos de dar um passo para trás e o surgimento dos FRBR,  no qual o Medium of Performance é um dos atributos da obra musical, reforçou nossa convicção de que nossa abordagem era a mais correta. E finalmente, em 2012 o mundo não acabou e o campo 382 – Medium of Performance entrou para o Sagrado. O mundo é grande e dá voltas, afinal.

No início de 2014, quando finalmente começamos a discutir de forma concreta a migração, outro impasse surgiu: o campo 650 do Sagrado (Assunto tópico) é obrigatório no Dédalus. Mas partituras não têm assunto tópico, têm Meio de expressão e Gênero / Forma:

MENDES, Gilberto. Motetos à feição de Lobo de Mesquita

382 – Meio de expressão : Voz, oboé, violoncelo e cravo
655 – Gênero / forma : Moteto

Como fazer, então? É um tanto absurdo exigir que um documento tenha assunto tópico quando, por sua própria natureza, ele não tem. Inventar um assunto só porque um campo precisa de um conteúdo, porque alguém pensou que “todo livro é sobre alguma coisa” e, portanto, com as partituras deve ser a mesma coisa. Nossa singela sugestão de usar a expressão “Sem assunto”, como fez outra biblioteca da USP mais badalada do que a nossa, foi vetada. Esse tipo de liberdade com as normas é só para quem pode.

E sim, é verdade. Se vocês não acreditam, procurem “sem assunto” no Dédalus e vejam o que acontece: são 14529 livros, quase todos sobre alguma coisa, indexados com a expressão “sem assunto” justamente no campo assunto. Contradições do pensamento dominante em nossa área de atuação e suas regras supostamente inquebráveis: o que seria certo (partituras sem assunto tópico) vira errado e não é permitido, enquanto o errado (livros sem assunto), torna-se certo e aprovado.

Minha colega Sarah decidiu então buscar diálogo e informação atualizada um pouco mais longe e solicitou esclarecimentos sobre o uso dos 382, 650 e 655 para a própria Library of Congress, que respondeu prontamente. Mais longe às vezes pode ser mais perto, já que estamos tratando de contradições. A resposta deixa claro que nossa abordagem, afinal, é a que será vitoriosa num futuro bastante próximo. A LC está preparando o Library of Congress Genre/Form for Library and Archival Material , que deverá separar os termos de gênero e forma dos assuntos tópicos. Stephen Yusko, da Divisão de Música, observou, em sua resposta, que os cabeçalhos da LC para partituras e gravações sonoras  nunca foram assuntos no sentido normal do termo, mas sempre funcionaram como gênero e forma. Logo que esse novo produto estiver implantado, o que deverá ocorrer em 2015, os campos 655 e 382 substituirão o campo 650.

Isso quer dizer que, se a migração que já tenho chamado de lendária dos registros da nossa base para o Dédalus efetivamente acontecer, provavelmente teremos que dar um jeito de preencher um campo que logo estará obsoleto.

Mas essa história ainda não terminou. Sarah e eu continuamos vivas e saudáveis, e agora temos um novo e jovem chefe na divisão de catalogação do Departamento Técnico do SIBi, alguém aberto ao diálogo e com formação tecnológica sólida e que parece disposto a botar fim a uns vinte anos de atraso. Os trabalhos foram finalmente retomados e estão andando rápido.

Nem tudo termina com a migração lendária, entretanto. Se não conseguirmos fazer do Dédalus um catálogo eficiente para as partituras e gravações musicais, é a própria história pioneira da documentação  musical na Biblioteca da ECA que pode ter um fim melancólico. Afinal, um catálogo não deve existir apenas para cumprir regras e diminuir a quantidade de material não processado nas estatísticas, mas para possibilitar a localização da informação pelo usuário.

Não é mesmo?

 

foto: hobvias sudoneighm, Flickr.

 

 

 

 





Os números de 2014

5 01 2015

Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2014 deste blog.

Aqui está um resumo:

Um bonde de São Francisco leva 60 pessoas. Este blog foi visitado cerca de 2.900 vezes em 2014. Se fosse um bonde, eram precisas 48 viagens para as transportar.

Clique aqui para ver o relatório completo





Palestra sobre documentação audiovisual na UFMG

8 11 2014

Fui convidada pela profa. Cristina Ortega apresentar uma palestra sobre minha experiência na área de documentação audiovisual, ou de “militante do audiovisual”, como os colegas me definiram no cartaz de divulgação do evento, nas Jornadas de Relatos e Debates da Prática Bibliotecária da Escola de Ciência da Informação da UFMG.

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Dei lá o meu recado, com muito orgulho e alegria por estar em contato com estudantes e profissionais da área numa universidade que não é a minha, onde não desperto muito interesse. Não contei não uma história de conquistas e sucessos, mas uma história de luta com muitas batalhas perdidas. E que ainda não terminou.

Falei do trabalho pioneiro e criativo da Biblioteca da Escola de Comunicações e Artes da USP, arena principal da minha militância, na organização de acervos de documentos audiovisuais para usuários de acervos audiovisuais, não para outros bibliotecários e burocratas escondidos atrás de regras. Tentei mostrar como é árdua a tarefa de incorporar experiências de uma biblioteca de áreas não valorizadas na universidade a um sistema cujas prioridades jamais incluirão o tratamento adequado de acervos de filmes, imagens ou música.

Mostrei as dificuldades quase inacreditáveis que enfrentamos na tentativa de migrar catálogos locais da biblioteca para o banco de dados da universidade,  ainda que os softwares sejam compatíveis, apenas porque seriam necessárias alterações mínimas no sistema maior. Criar um campo que não é sacramentado por regras obsoletas sem as quais muitos bibliotecários não conseguem respirar pode causar catástrofes de proporções épicas, como todo mundo sabe.

Procurei mostrar que a falta de formação dos bibliotecários para tratar documentos audiovisuais pode estar levando à perda irremediável de um  mercado de trabalho que teria tudo para ser nosso.

Vídeo da palestra: https://www.youtube.com/watch?v=p9n5522KTWk

Apresentação: http://pt.slideshare.net/MarinaMacambyra/documentao-audiovisual-e-biblioteca-universitria

Site da Jornada: http://www.eci.ufmg.br/novidades/events/jornada-de-relatos-e-debates-da-pratica-bibliotecaria-1





A grande ilusão

25 03 2014

(copio aqui o texto que publiquei no blog Bibliotecários Sem Fronteiras)

Trabalhei com documentação audiovisual durante toda a minha vida profissional. Comecei organizando uma filmoteca, no tempo em que o suporte para o cinema amador ou para filmes destinados ao uso didático era a película em 16 milímetros. Depois veio um caótico acervo de fotografias e slides, mais tarde aprendi a catalogar discos e partituras e quando surgiu o videocassete, criei uma videoteca. Trabalhei com conservação, migração de suportes, digitalização, tratamento da informação, seleção e aquisição, atendimento ao público. Desenvolvi metodologias de tratamento para esses documentos e preparei dois manuais para compartilhar a experiência.

Tive o privilégio de ter sido aluna da  Johanna Smit, convivido e trocado ideias com ela ao longo desses anos todos de trabalho na ECA/USP. Lá no início dos anos 80 os professores do curso de biblioteconomia já diziam, com aquela carinha de professor que descobriu algo muito importante e está alertando as crianças para o fato , que “bibliotecários não trabalham só com livros, hoje as bibliotecas tem vários tipos de documentos” e que “nós trabalhamos com informação, não com livros”. E provavelmente já diziam coisas assim antes, mas eu não ainda estava lá para ouvir.

O problema é que essas afirmações, que gosto de chamar de “a grande ilusão” por motivos essencialmente cinematográficos, só se tornavam realidade palpável na aula da Johanna, enquanto as demais tratavam mesmo de livros. E lá se foram mais de 30 anos. Suportes que na época ainda não existiam hoje já estão praticamente extintos, e os alunos de hoje continuam reclamando da mesma coisa: por mais que se apregoe o contrário, nos cursos de biblioteconomia só se aprende a trabalhar com livros.

Para suprir as deficiências de sua formação, bibliotecários que trabalham com documentos audiovisuais sempre recorreram à experiência de instituições com tradição na área. Eu fiz isso no início, e quando já estava mais à vontade nesse universo comecei a receber visitas de colegas para conhecer o trabalho da Biblioteca da ECA. Conheci dessa forma muitos bibliotecários preocupados por não saber como tratar o acervo sob sua responsabilidade que, provavelmente, acabaram aprendendo. Também conheci administradores que nem imaginavam que um bibliotecário poderia resolver seu problema, até porque nem sabiam o que era um bibliotecário, e outros que não conseguiam contratar um profissional com experiência ou algum conhecimento na área de audiovisual. Mas o pior foi topar com gente que contratou bibliotecário e se arrependeu, porque o profissional só enxergava uma forma de trabalhar, seguindo aquelas normas que aprendeu na faculdade como se fossem leis de um livro sagrado e teimando em ignorar a opinião do usuário de seus serviços.

Sempre tive a sensação de que estávamos perdendo uma fatia do mercado de trabalho que poderia ser muito promissora para bibliotecários, por culpa, sobretudo, da formação deficiente que recebemos. Já reclamei disso no meu blog Dia de Greve, Dia de Trabalho, onde reclamo o tempo todo.

Fora do discurso vazio, na dura realidade, o status quo da biblioteconomia só se preocupa com documentos textuais e não entende muito outras linguagens e formas de expressão. Reparem que não estou me referindo a simples diferenças de suportes, a coisa não é tão simples como pretendem os que dizem que “é tudo a mesma coisa, só muda o suporte”. Para atender às necessidades de usuários de acervos de imagens ou de música, por exemplo, é preciso saber um pouco mais do que preencher corretamente os 007 e 300 do MARC. Já escrevi um pouco sobre essa questão em alguns textos deste blog, onde também reclamo bastante (porque sou uma bibliotecária muito rabugenta):

Antes que o diabo saiba

Calma, uma coisa de cada vez

A regra do jogo

Um artigo recente da revista El Profesional de la Información, Rasgos y trayetorias de la documentación audiovisual, coloca em termos bastante concretos os meus receios. O autor observa que ao crescimento da produção e circulação da informação audiovisual não estaria correspondendo um crescimento proporcional da gestão documental desses conteúdos. Muito se produz e se usa, mas pouco se organiza. Uma das razões apontadas no artigo é o fato de que os novos sistemas digitais de produção audiovisual transferem ao próprio produtor-usuário funções antigamente próprias dos arquivos, como a inserção de metadados e a busca. E bota o dedo numa ferida antiga e difícil de curar:

Observa-se que existe uma distância entre os programas acadêmicos das graduações em biblioteconomia e documentação, orientados monograficamente à gestão da informação, e os perfis profissionais demandados em determinados setores, como o multimídia, onde a gestão de informação não ocupa um lugar independente, mas integrado em outras atividades da organização (p. 11).

Resumindo, não conseguimos dar conta do recado, apesar de existir a demanda por um serviço que, em tese, poderíamos oferecer. E a tecnologia veio ajudar os próprios usuários potenciais e negligenciados a se virarem sem nossa preciosa mediação.

Outro ponto interessante do artigo é a constatação de que grandes arquivos audiovisuais analógicos permanecem, na Espanha, à espera de projetos de conservação e digitalização. O risco de perda de documentos é expressivo: gravações em vídeo da década de oitenta, por exemplo, já mostram sinais de deterioração. Uma das dificuldades a enfrentar é a falta de um inventário nacional desses arquivos. Sabe-se que existem talvez milhares, mas não se sabe ao certo o que contêm. Suponho que a situação no Brasil não seja lá muito diferente, embora o autor mencione nosso país como um dos que inseriram “a preservação do patrimônio audiovisual dentro de um conceito mais amplo de identidade cultural” (p. 8), dado sem dúvida positivo.

Minha conclusão pessoal é que ainda somos necessários, embora a perda de espaço já seja um fato. Ainda existem acervos importantes precisando de tratamento, mercado potencial para profissionais da informação que saibam o que fazer ou aprendam muito rápido. Mas quanto tempo ainda resta, isso eu não sei.

 





As Obras de Arte, suas Imagens e a Catalogação

17 12 2013

No SNBU de 2008, José Estorniolo Filho e eu apresentamos um trabalho sobre  imagens de arte, no qual examinávamos algumas peculiaridades envolvidas no tratamento desse material e as ideias promissoras trazidas pelos novos princípios e padrões que despontavam no mundo da documentação: os Requisitos Funcionais para Registros Bibliográficos da IFLA (FRBR) e o Cataloguing Cultural Objects, da Visual Resources Association (CCO).

Em novembro deste ano,  no último Encontro Nacional de Catalogadores (Enacat), foram apresentados dois trabalhos  sobre padrões para tratamento de imagens: um deles sobre o padrão de metadados VRA Core, outro que propõe um modelo de requisitos funcionais para documentos imagéticos digitais. Fora isso, não tenho visto produção brasileira de textos acadêmicos sobre o tema imagem e FRBR ou sobre catalogação de imagens de obras de arte usando o padrão CCO. Também não observei experiências de aplicações práticas do CCO em projetos de instituições brasileiras, o que não deixa de ser decepcionante, visto que se trata de uma regra de catalogação desenvolvida especialmente para obras de arte e para as imagens delas.

Suponho que ainda não existam no Brasil acervos de imagens suficientemente organizados para considerarem o estudo de regras de catalogação, ou profissionais da informação atuando nas instituições com esse tipo de acervo, ou que os bibliotecários ainda estejam presos ao AACR2 e sonhando com o RDA sem estudá-lo de fato. Suposições, apenas.

Algumas bibliotecas digitais de imagens lançadas recentemente, como a Biblioteca Digital de Artes Visuais da Unesp e o Arquigrafia, projeto da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, não estão usando o CCO para catalogar as imagens e adotam em suas bases de dados o princípio de registrar foto a foto, sem fazer a distinção entre registro da Obra e registro das imagens da Obra.

Na USP comecei a trabalhar, com o pessoal do Departamento Técnico do Sistema Integrado de Bibliotecas, num projeto de biblioteca digital para a produção artística dos professores usando as entidades do primeiro grupo dos FRBR como base para os registros. Infelizmente, o projeto parou como tantos outros na USP, e não tenho mais esperanças de que seja retomado. Além de ser  muito complicado, a produção artística não é devidamente valorizada na USP.

Mas quais seriam, afinal, as vantagens de tratar imagens de arte pensando na distinção entre a Obra fotografada e as imagens dela? Vou tentar explicar.

A imagem abaixo é da escultura Maman, de Louise Bourgeois, obra de 1999, em bronze, mármore e aço inoxidável, medindo 895 x 980 x 1.160 cm, versão do Museu Guggenheim de Bilbao. Foi fotografada em 2011, em preto e branco, de baixo para cima, por José Estorniolo Filho, que fez, na ocasião, diversas outras fotos em vários ângulos e tomando diferentes decisões estéticas. Todas essas informações, em princípio, podem interessar a um pesquisador de imagens de arte.

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A descrição dessa imagem, de acordo com o AACR2 e numa base de dados em formato MARC, seria mais ou menos assim:

100 = Bourgeois, Louise $d1911-2010
245 = Maman / foto de José Estorniolo Filho
260 = $c2011
300 = 1 foto digital; p&b; 66.1 Kb
520 = Vista parcial, câmera baixa, com parte das paredes do Museu Guggenheim em segundo plano.
534 = $pObra fotografada $aBourgeois, Louise$tMaman $c1999 $e1 escultura : bronze, mármore, aço ; 895 x 980 x 1.160 cm $lMuseu Guggenheim, Bilbao $nEdição 2/6, fundida em 2001
650 = Esculturas públicas
650 = Aranhas
700 = Estorniolo Filho, José

A descrição reflete a condição ambígua das fotografias de obras de arte, usadas como substitutas das obras originais pelo professor, por exemplo, que precisa apresentar aos alunos trabalhos localizadas em diversos pontos do mundo. A entrada principal é o autor da obra fotografada, que é o foco principal do interesse do pesquisador. Mas não se pode esquecer os aspectos da fotografia que está sendo tratada: o nome do fotógrafo (quando conhecido), a data em que a imagem foi produzida e seus dados físicos, pelo menos. O enquadramento, a posição da câmera e outros aspectos da imagem em si, que registrei no campo 520 (resumo) por falta de opção melhor são importantes para a seleção final das imagens pelo usuário. Num bom catálogo de imagens esses elementos deveriam ser filtros disponíveis no sistema de busca. Afinal, o pesquisador pode estar um busca de outro tipo de imagem da Maman, como esta, por exemplo:

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Agora vamos imaginar um acervo que tenha mais 145 imagens da mesma obra, de vários fotógrafos e épocas, em suportes físicos variados. Quem já trabalhou em acervos de slides, de fotos em papel ou imagens digitais, sabe que essa situação não é improvável. Se nosso hipotético acervo for especializado em esculturas ou pertencer a uma instituição da cidade de Bilbao, a quantidade poderá ser ainda maior. Se essas 145 fotos da mesma obra de arte forem catalogadas de acordo com a lógica de tratar o item em mãos – sou seja, cada uma das fotos individualmente – teremos 145 registros com praticamente a mesma descrição. Isso porque a obra fotografada é a mesma, e a parte  mais importante da descrição se refere a essa obra, a Maman de Louise Bourgeois.  Além da repetição um tanto inútil de trabalho, catalogar imagens dessa forma pode gerar inconsistências nas informações. Catalogadores diferentes, ou o mesmo catalogador em diferentes ocasiões, podem omitir um dos dados da obra por distração ou por não encontrá-lo na imagem específica que está sendo tratada.

E o que acontece lá na outra ponta, na recuperação da informação?

O pesquisador vai encontrar 145 (ou mais) imagens isoladas da mesma obra, sem qualquer relação lógica entre uma e outra, nem com a obra documentada. Inconsistências na catalogação, como ausência do nome do museu ou da data da obra, por exemplo, podem gerar dúvidas difíceis de serem resolvidas pela simples visualização das imagens: estou diante de um detalhe da Maman do Guggenheim de Bilbao ou de outra das sete cópias realizadas pela artista? Falta de cuidado na descrição das características específicas das imagens, como enquadramento e posição de câmera dificultam o processo de seleção dos documentos.

Façam uma experiência: entrem no Flickr , pesquisem “maman Louise Bourgeois” e observem a imensa quantidade imagens bastante diferentes entre si que é recuperada. Mesmo quem não está habituado a pesquisar imagens vai entender o problema que é para o usuário encontrar “aquela foto” ou aquele tipo específico de foto da Maman que atenda às suas necessidades.

Para fazer diferente, usando uma lógica que considere mais o usuário da imagem do que princípios de catalogação criados para documentos textuais, vamos tentar o seguinte.

1. Descrever a obra de arte com todos os dados necessários e criar um registro no catálogo para essa descrição.
2. Descrever as imagens dessa obra, ressaltando os aspectos específicos do documento fotográfico e relacionar cada registro de imagem ao registro da obra da obra de arte.

Catalogando de acordo com o CCO, resultado seria algo mais ou menos assim:

Registro da Obra

Classe: Escultura
Tipo de obra: Escultura pública
Título: Maman
Criador: Louise Bourgeois (escultura francesa, 1911-2010)
Data de criação: 1999
Assunto: Maternidade; Aranhas
Localização atual: Museu Guggenheim de Bilbao (Bilbao, Espanha)
Dimensões: 895 x 980 x 1.160 cm
Materiais e técnicas: bronze, mármore, aço
Edição: 2/6, fundida em 2001
Descrição: Aranha gigantesca com vários ovos de mármore no interior do abdômen, concebida pela artista como homenagem à sua mãe, que trabalhava como restauradora de tapeçarias.

Registro de imagem 1

Agente: José Estorniolo Filho (fotógrafo  )
Título: Maman
Data da imagem: 2011
Tipo de imagem: imagem digital
Formato da imagem: jpg
Medidas: 66.1 Kb
Descrição da vista: Vista parcial de baixo da escultura, abdômen com ovos visível, parte da parede do museu enquadrada em segundo plano.
Tipo de vista: Vista parcial; Vista de baixo.
Assunto da vista: Abdomen; Pernas; Ovos.
Direitos autorais: José Estorniolo Filho, licença Creative Commons
Obra relacionada: link para a obra

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Registro de imagem 2

Agente: José Estorniolo Filho (fotógrafo)
Título: Maman
Data da imagem: 2011
Tipo de imagem: imagem digital
Formato da imagem: jpg
Medidas: 2,01 Mb
Descrição da vista: Vista geral de cima, com sombra projetada no chão, parte de passarela e lago enquadrados, pessoas ao redor da escultura.
Tipo de vista: Vista geral; Vista de cima.
Direitos autorais: José Estorniolo Filho, licença Creative Commons
Obra relacionada: link para a obra

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Registro de imagem 3

Agente: Kainet
Título: Looking way too skinny to be healthy
Data da imagem: 2010
Tipo de imagem: imagem digital
Formato da imagem: jpg
Descrição da vista: Vista geral da obra, com Museu Guggenheim ao fundo, realizada com objetiva olho-de-peixe.
Tipo de vista: Vista geral;  Olho-de-peixe; Moldura circular.
Assunto da vista: Museu Guggenheim de Bilbao
Direitos autorais: Kainet, licença Creative Commons.
Obra relacionada: link para a obra

looking way too skinny to be healthy

Registro de imagem 4

Agente: Michael
Título: Chez Maman
Data da imagem: 2007
Tipo de imagem: imagem digital
Formato da imagem: jpg
Descrição da vista: Vista parcial da obra e do Museu Guggenheim, realizada durante o pôr-do-sol.
Tipo de vista: Vista parcial; Luz crepuscular
Assunto da vista: Pôr-do-sol
Direitos autorais: Michael, licença Creative Commons.
Obra relacionada: link para a obra

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Alguns desses elementos, como Criador, Assunto, Tipo de Obra e Tipo de Vista, por exemplo, devem ser relacionados a registros de autoridade.  Parte dos metadados que utilizei na descrição das imagens foi extraída do padrão VRA Core, que pode ser usado em conjunto com as normas do CCO.

As vantagens da dupla CCO/VRA Core em relação a outros padrões são, para ficar apenas nas mais evidentes:

  • Por serem padrões desenvolvidos especificamente para tratar obras de arte e suas imagens, trazem soluções para problemas de descrição não previstas por outras normas.
  • Fazem distinção clara entre Obra e Imagem, eliminado possíveis confusões entre um conceito e outro e ajudando a descrever adequadamente elementos que acabam sendo negligenciados quando usamos padrões concebidos para tratamento de textos.
  • Obrigam o catalogador a voltar necessariamente sua atenção para a Obra e para informações importantes que nem sempre podem ser encontradas nas imagens específicas que estão sendo descritas.
  • Propiciam real economia de esforços, já que a Obra é descrita uma única vez.
  • Permitem que a informação seja recuperada de forma mais lógica e organizada.

Leituras:

Sarah Lorenzon Ferreira e Marcelo dos Santos. Elementos da descrição de imagens de arte em ambiente eletrônicos:  considerações sobre o padrão VRA Core 4.0. http://www.enacat.ufscar.br/index.php/eic-enacat/eic-enacat/paper/viewFile/57/20

Margaret N. Webster. The metadata landscape: Cataloging Cultural Objects, the VRA Core, and our visual collections.  http://ecommons.cornell.edu/handle/1813/9417?mode=full

Mick Eadie. Towards an Application Profile for Imageshttp://www.ariadne.ac.uk/issue55/eadie





Imagens e Bobagens

6 08 2013

Quem escreve sobre análise de imagens na área de documentação adora começar o texto discorrendo sobre o aumento da produção e circulação de imagens na atualidade. Nunca se fotografou tanto, vivemos cercados de imagens etc. Sim, com certeza eu também já escrevi algo assim. Mas não vejo muitos dados numéricos a respeito, e confesso que nunca pesquisei direito. Encontrei, por acaso, na revista Nouvel Observateur, um estudo com algumas cifras interessantes.

600 a 800 bilhões de fotos teriam sido feitas em 2012 (o estudo diz “serão feitas”, trata-se de projeção).
7 bilhões de fotos foram postadas no Facebook em 2011.
1934  fotos foram feitas em 2011 por cada possuidor de uma câmera reflex (o dado não inclui imagens geradas de celulares e por aquelas câmeras compactas que todo mundo tem).

Fonte: Observatoire des Professions de l’Image 2012
http://www.gnpp.com/files/posts/000055-opi2012.pdf

Não tenho dados do tempo das câmeras de filme para comparar, mas é mais ou menos óbvio que os números devem ter aumentado. Experiência pessoal: chegamos a voltar de viagens de férias, meu companheiro e eu, com 10 filmes de 36 poses para revelar. Hoje, voltamos de viagens com umas 3000 imagens para selecionar, tratar, apagar, separar em pastinhas,  organizar minimamente para serem mostradas e postar em sites de compartilhamento de imagens.

Certo, mas e nossa relação com as imagens, como anda?

Como estamos produzindo imagens em escala monstro e podemos acessá-las com muita facilidade, é razoável supor que hoje vemos mais imagens do que há trinta anos. Meus últimos álbuns de fotos de viagem em papel devem ter sido vistos por três ou quatro pessoas da família ou amigos que apareceram na minha casa. Grandes demais para serem transportados por aí e vistos pelos colegas de trabalho na hora do almoço. Já um dos meus últimos álbuns de viagem no Facebook foi curtido por 62 pessoas. Obviamente muitos desses amigos podem ter apenas apertado o botão “Curtir” por gentileza, sem terem visto de fato as imagens. Mas há sinais de que as fotos estão sendo vistas: comentários, fotos que são compartilhadas, gente com quem tenho pouco contato fora das redes sociais dizendo que gostou das minhas fotos, perguntando sobre os lugares que visitei etc.

Ver mais imagens, entretanto, não quer necessariamente dizer ver melhor. Esse suposto maior contato com imagens não parece estar correspondendo a um melhor entendimento dessa linguagem.

Situação clássica: nos museus em que é permitido fotografar, verdadeiras multidões passam pelas obras expostas e fazem uma foto, quase sem olhar. Levam para casa, muitas vezes, uma reprodução distorcida, tremida e torta da pobre Monalisa, que talvez jamais saia de dentro do celular. Não apreciaram devidamente o quadro e nem vão ter uma reprodução decente para guardar de lembrança.

As redes sociais são um verdadeiro tesouro de exemplos de leituras ingênuas e desatentas das imagens que nelas circulam tão animadamente. Periodicamente alguém posta a foto do “toureiro arrependido” ou do “manifestante carregando o policial ferido”, sem questionar se a história não seria fofa demais para ser verdadeira.

toureiro_touro

A historinha edificante que circulou com essa imagem dizia que toureiro passou mal durante a tourada e o touro, por piedade, não o atacou. Esse acontecimento teria levado o homem a abandonar o ofício. Pena que toureiro da foto não estivesse passando mal e nem fosse Álvaro Múnera Builes, como foi veiculado. Múnera  de fato largou a profissão,  mas só depois de levar uma surra de um touro que o deixou paraplégico, E o  momento registrado na foto é apenas uma parte do “espetáculo” da tourada, uma espécie de desafio ao touro que está para ser morto, como explicam o divertido site E-Farsas e o blog Prótouro.

http://www.e-farsas.com/o-touro-que-teve-piedade-do-toureiro-verdadeiro-ou-farsa.html

http://protouro.wordpress.com/2012/07/19/quando-as-mentiras-nao-ajudam-a-causa-pela-abolicao-da-tauromaquia/

Já a foto abaixo aparece de forma recorrente nas redes sociais sempre que acontece algum tipo de manifestação de rua em São Paulo.

policial_carregado1
Foi divulgada inicialmente como sendo a foto de um manifestante socorrendo uma policial ferida, mas a verdade é bem menos romântica: o rapaz era um policial infiltrado no movimento dos professores em greve, como explica novamente o E-Farsas.

http://www.e-farsas.com/policial-ferido-e-carregado-por-professor-em-manifestacao-em-sp.html

Como de hábito nesse tipo de lorota, a foto é de 2010, mas ressuscita periodicamente sempre que a realidade precisa ser minimamente enfeitada.

As pessoas se deixam enganar um pouco por falta de conhecimento do contexto. No Brasil não sabemos como são as touradas, e só quem já participou de manifestações com repressão tem condições de saber o quanto é improvável que a polícia permita que um manifestante chegue perto de um policial ferido. Mas, convenhamos, uma análise um pouco mais atenta das imagens e das informações veiculadas pelo texto que as acompanha poderia gerar, pelo menos, alguma desconfiança. Um toureiro, estrela do espetáculo, deixado à mercê do touro enquanto passa mal? Ninguém correu para socorrê-lo? No meio das bombas de gás estourando, um manifestante carrega uma policial? E os colegas dela, acharam bonitinho?

Um dado curioso sobre a foto do P2 é que foi divulgada com a legenda “policial ferido é carregado por manifestante” e muita gente nem se deu conta de que era uma mulher. Um olhar um pouco mais atento teria notado os braços sem pelos e questionaria se um homem tão pequeno a ponto de ser carregado nos braços daquela forma conseguiria entrar para a polícia.

Algo mais grave do que um ingênuo compartilhamento de história fake aconteceu na recentemente na Europa, envolvendo outro aspecto da relação das pessoas com as imagens: a capacidade de selecionar corretamente a fonte, descobrir a origem de uma imagem e identificá-la. Um designer precisava de uma foto de criança para um cartaz publicitário do Festival de Jazz de Montreux. Procurou no Google, escolheu descuidadamente uma foto sem se preocupar em saber do que se tratava e botou no cartaz a foto de um menino assassinado há 29 anos na França, um crime de chocou o país e que jamais foi solucionado.  O distraído não era francês – o que não chega a ser uma boa desculpa para a irresponsabilidade – portanto não sabia nada sobre o acontecimento. Dois fatos tornam a burrada mais grave: foi perpetrada por um profissional que supostamente deveria estar habituado a trabalhar com imagens, e a foto utilizada era de uma criança. Como um designer simplesmente se apropria da foto de uma criança sem autorização dos pais e sem saber quem é? A foto tem todo o aspecto de ser um retrato familiar, não é uma imagem publicitária feita para um de banco de imagens comercial, por exemplo.  A história toda saiu na revista Samuel:

http://revistasamuel.uol.com.br/conteudo/view/20436/Imagem_de_menino_assassinado_ha_29_anos_e_usada_em_cartaz_do_festival_de_montreux.shtml

Outra questão que me interessa é descobrir se as pessoas que estariam produzindo e divulgando imagens aos bilhões dedicam algum tempo a selecionar suas fotos, melhorar a qualidade delas usando ferramentas simples de edição, descartando as muito ruins. Hoje podemos fazer muitas e muitas fotos de um mesmo motivo e selecionar a melhor de vinte, por exemplo. E depois manipular facilmente nossas imagens para deixá-las mais expressivas, aplicando filtros, fazendo recortes e outros recursos que, antes da imagem digital,  estavam ao alcance apenas dos fotógrafos profissionais ou dos amadores com acesso a laboratórios.

Ainda não localizei dados sobre o uso de ferramentas de edição de imagens por amadores, mas a gente vê muita imagem ruim circulando por aí. Enquadramentos descuidados, fotos tremidas ou desfocadas, além das famosas “fotos do nada”, aquelas que a gente olha e não consegue descobrir o que diabos o fotógrafo tentou registrar. Se alguém souber de uma pesquisa sobre esse assunto, me avise, por favor.

Acredito que o hábito de avaliar as próprias “obras” e investir algum tempo em tentar deixá-las mais bonitas seja um ótimo treinamento para o ofício de ver e analisar imagens. Bibliotecários e outros profissionais da informação cuja formação acadêmica raramente os capacita a tratar acervos de imagens deveriam adotar essa prática, se pensam em enveredar pela área. Fotografar mais e aprender um pouco sobre linguagem fotográfica também ajuda bastante na atividade profissional ligada à organização de acervos fotográficos.

Não é preciso saber fotografar ou manipular imagens para organizar um acervo fotográfico, mas sabendo fica muito mais divertido.