Manual da FIAF, o retorno

2 10 2016

moving-imagine-cataloguing-manual-250A Federação Internacional dos Arquivos do Filme (FIAF) lançou, em abril de 2016 o FIAF moving image cataloguing manual, revisão das normas de catalogação de filmes publicadas em 1991. O trabalho está disponível para download gratuito no site da FIAF.

Quando tomei conhecimento das normas da FIAF, num curso ministrado por uma profissional da Cinemateca Brasileira, já catalogava filmes há uns dez anos utilizando normas desenvolvidas localmente. Tive duas surpresas agradáveis: primeira, nas regras da FIAF eu encontrava solução para quase todos os problemas de catalogação de filmes com os quais já havia me defrontado; segundo, as soluções que eu mesma havia criado a partir da observação das necessidades dos usuários da instituição na qual trabalhava não eram tão diferentes assim daquelas da FIAF, em sua essência e  guardadas as devidas proporções.

O novo manual parece, à primeira vista, um trabalho bem mais profundo do que uma simples atualização de normas e tem novidades interessantes. Uma das mais importantes é a inclusão de elementos dos Requisitos Funcionais para Registros Bibliográficos (FRBR) e dos metadados para obras cinematográficas do European Standards Commitee (CEN).  O novo manual adota as entidades Obra, Variante (e não Expressão) Manifestação e Item, preferindo os conceitos de Obra e Variante propostos pelo CEN, por serem mais adequados à representação das imagens em movimento do que os conceitos de Obra e Expressão dos FRBR.

Para os FRBR, Obra e Expressão são entidades abstratas; apenas a Manifestação e o Item têm dimensão física. É difícil, entretanto, imaginar obras cinematográficas como idéias abstratas, porque são produto do trabalho de equipes formadas por diversos criadores e técnicos, só existindo, de fato, quando se tornam objetos analógicos ou digitais. Resumindo, para que um filme exista é necessário que:  um roteiro seja escrito; cenários e figurinos sejam criados; imagens e sons registrados separadamente sejam reunidos e montados numa ordem que não é a mesma da filmagem ou gravação, ocorrendo em todas as etapas do processo decisões estéticas do diretor, produtor, fotógrafo, iluminador, atores, diretor de som, montador etc. No mundo das imagens em movimento, uma Obra já é sua própria expressão.

Variante, na terminologia da FIAF, são versões do filme que trazem variações do conteúdo original, por exemplo, cortes ou acréscimos de cenas, diálogos ou narração, cores, música etc.  Assim, a versão de 1992 do filme Blade Runner modificada pelo diretor, que suprimiu a sequência final e a narração do original lançado em 1982, é uma variante. A versão colorizada, com trilha sonora de música pop e outras modificações do filme Metrópolis, realizada em 1984 por Giorgio Moroder, é uma variante do filme silencioso original, dirigido por Fritz Lang em 1927.

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As normas da FIAF foram elaboradas para atender às necessidades bastante sofisticadas das cinematecas e arquivos de filmes, mas, como se trata do trabalho  mais completo e profissional voltado para o universo das imagens em movimento, qualquer catalogador de filmes precisa conhecê-las, não importa a regra que siga. Segundo a FIAF, são compatíveis com outros padrões existentes, notadamente o RDA: Resource Description and Access.

Então, pessoal, coragem. Cliquem lá no link e aprendam tudo (ou quase tudo) que vocês precisam saber sobre catalogação de filmes.

 

 

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As Obras de Arte, suas Imagens e a Catalogação

17 12 2013

No SNBU de 2008, José Estorniolo Filho e eu apresentamos um trabalho sobre  imagens de arte, no qual examinávamos algumas peculiaridades envolvidas no tratamento desse material e as ideias promissoras trazidas pelos novos princípios e padrões que despontavam no mundo da documentação: os Requisitos Funcionais para Registros Bibliográficos da IFLA (FRBR) e o Cataloguing Cultural Objects, da Visual Resources Association (CCO).

Em novembro deste ano,  no último Encontro Nacional de Catalogadores (Enacat), foram apresentados dois trabalhos  sobre padrões para tratamento de imagens: um deles sobre o padrão de metadados VRA Core, outro que propõe um modelo de requisitos funcionais para documentos imagéticos digitais. Fora isso, não tenho visto produção brasileira de textos acadêmicos sobre o tema imagem e FRBR ou sobre catalogação de imagens de obras de arte usando o padrão CCO. Também não observei experiências de aplicações práticas do CCO em projetos de instituições brasileiras, o que não deixa de ser decepcionante, visto que se trata de uma regra de catalogação desenvolvida especialmente para obras de arte e para as imagens delas.

Suponho que ainda não existam no Brasil acervos de imagens suficientemente organizados para considerarem o estudo de regras de catalogação, ou profissionais da informação atuando nas instituições com esse tipo de acervo, ou que os bibliotecários ainda estejam presos ao AACR2 e sonhando com o RDA sem estudá-lo de fato. Suposições, apenas.

Algumas bibliotecas digitais de imagens lançadas recentemente, como a Biblioteca Digital de Artes Visuais da Unesp e o Arquigrafia, projeto da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, não estão usando o CCO para catalogar as imagens e adotam em suas bases de dados o princípio de registrar foto a foto, sem fazer a distinção entre registro da Obra e registro das imagens da Obra.

Na USP comecei a trabalhar, com o pessoal do Departamento Técnico do Sistema Integrado de Bibliotecas, num projeto de biblioteca digital para a produção artística dos professores usando as entidades do primeiro grupo dos FRBR como base para os registros. Infelizmente, o projeto parou como tantos outros na USP, e não tenho mais esperanças de que seja retomado. Além de ser  muito complicado, a produção artística não é devidamente valorizada na USP.

Mas quais seriam, afinal, as vantagens de tratar imagens de arte pensando na distinção entre a Obra fotografada e as imagens dela? Vou tentar explicar.

A imagem abaixo é da escultura Maman, de Louise Bourgeois, obra de 1999, em bronze, mármore e aço inoxidável, medindo 895 x 980 x 1.160 cm, versão do Museu Guggenheim de Bilbao. Foi fotografada em 2011, em preto e branco, de baixo para cima, por José Estorniolo Filho, que fez, na ocasião, diversas outras fotos em vários ângulos e tomando diferentes decisões estéticas. Todas essas informações, em princípio, podem interessar a um pesquisador de imagens de arte.

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A descrição dessa imagem, de acordo com o AACR2 e numa base de dados em formato MARC, seria mais ou menos assim:

100 = Bourgeois, Louise $d1911-2010
245 = Maman / foto de José Estorniolo Filho
260 = $c2011
300 = 1 foto digital; p&b; 66.1 Kb
520 = Vista parcial, câmera baixa, com parte das paredes do Museu Guggenheim em segundo plano.
534 = $pObra fotografada $aBourgeois, Louise$tMaman $c1999 $e1 escultura : bronze, mármore, aço ; 895 x 980 x 1.160 cm $lMuseu Guggenheim, Bilbao $nEdição 2/6, fundida em 2001
650 = Esculturas públicas
650 = Aranhas
700 = Estorniolo Filho, José

A descrição reflete a condição ambígua das fotografias de obras de arte, usadas como substitutas das obras originais pelo professor, por exemplo, que precisa apresentar aos alunos trabalhos localizadas em diversos pontos do mundo. A entrada principal é o autor da obra fotografada, que é o foco principal do interesse do pesquisador. Mas não se pode esquecer os aspectos da fotografia que está sendo tratada: o nome do fotógrafo (quando conhecido), a data em que a imagem foi produzida e seus dados físicos, pelo menos. O enquadramento, a posição da câmera e outros aspectos da imagem em si, que registrei no campo 520 (resumo) por falta de opção melhor são importantes para a seleção final das imagens pelo usuário. Num bom catálogo de imagens esses elementos deveriam ser filtros disponíveis no sistema de busca. Afinal, o pesquisador pode estar um busca de outro tipo de imagem da Maman, como esta, por exemplo:

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Agora vamos imaginar um acervo que tenha mais 145 imagens da mesma obra, de vários fotógrafos e épocas, em suportes físicos variados. Quem já trabalhou em acervos de slides, de fotos em papel ou imagens digitais, sabe que essa situação não é improvável. Se nosso hipotético acervo for especializado em esculturas ou pertencer a uma instituição da cidade de Bilbao, a quantidade poderá ser ainda maior. Se essas 145 fotos da mesma obra de arte forem catalogadas de acordo com a lógica de tratar o item em mãos – sou seja, cada uma das fotos individualmente – teremos 145 registros com praticamente a mesma descrição. Isso porque a obra fotografada é a mesma, e a parte  mais importante da descrição se refere a essa obra, a Maman de Louise Bourgeois.  Além da repetição um tanto inútil de trabalho, catalogar imagens dessa forma pode gerar inconsistências nas informações. Catalogadores diferentes, ou o mesmo catalogador em diferentes ocasiões, podem omitir um dos dados da obra por distração ou por não encontrá-lo na imagem específica que está sendo tratada.

E o que acontece lá na outra ponta, na recuperação da informação?

O pesquisador vai encontrar 145 (ou mais) imagens isoladas da mesma obra, sem qualquer relação lógica entre uma e outra, nem com a obra documentada. Inconsistências na catalogação, como ausência do nome do museu ou da data da obra, por exemplo, podem gerar dúvidas difíceis de serem resolvidas pela simples visualização das imagens: estou diante de um detalhe da Maman do Guggenheim de Bilbao ou de outra das sete cópias realizadas pela artista? Falta de cuidado na descrição das características específicas das imagens, como enquadramento e posição de câmera dificultam o processo de seleção dos documentos.

Façam uma experiência: entrem no Flickr , pesquisem “maman Louise Bourgeois” e observem a imensa quantidade imagens bastante diferentes entre si que é recuperada. Mesmo quem não está habituado a pesquisar imagens vai entender o problema que é para o usuário encontrar “aquela foto” ou aquele tipo específico de foto da Maman que atenda às suas necessidades.

Para fazer diferente, usando uma lógica que considere mais o usuário da imagem do que princípios de catalogação criados para documentos textuais, vamos tentar o seguinte.

1. Descrever a obra de arte com todos os dados necessários e criar um registro no catálogo para essa descrição.
2. Descrever as imagens dessa obra, ressaltando os aspectos específicos do documento fotográfico e relacionar cada registro de imagem ao registro da obra da obra de arte.

Catalogando de acordo com o CCO, resultado seria algo mais ou menos assim:

Registro da Obra

Classe: Escultura
Tipo de obra: Escultura pública
Título: Maman
Criador: Louise Bourgeois (escultura francesa, 1911-2010)
Data de criação: 1999
Assunto: Maternidade; Aranhas
Localização atual: Museu Guggenheim de Bilbao (Bilbao, Espanha)
Dimensões: 895 x 980 x 1.160 cm
Materiais e técnicas: bronze, mármore, aço
Edição: 2/6, fundida em 2001
Descrição: Aranha gigantesca com vários ovos de mármore no interior do abdômen, concebida pela artista como homenagem à sua mãe, que trabalhava como restauradora de tapeçarias.

Registro de imagem 1

Agente: José Estorniolo Filho (fotógrafo  )
Título: Maman
Data da imagem: 2011
Tipo de imagem: imagem digital
Formato da imagem: jpg
Medidas: 66.1 Kb
Descrição da vista: Vista parcial de baixo da escultura, abdômen com ovos visível, parte da parede do museu enquadrada em segundo plano.
Tipo de vista: Vista parcial; Vista de baixo.
Assunto da vista: Abdomen; Pernas; Ovos.
Direitos autorais: José Estorniolo Filho, licença Creative Commons
Obra relacionada: link para a obra

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Registro de imagem 2

Agente: José Estorniolo Filho (fotógrafo)
Título: Maman
Data da imagem: 2011
Tipo de imagem: imagem digital
Formato da imagem: jpg
Medidas: 2,01 Mb
Descrição da vista: Vista geral de cima, com sombra projetada no chão, parte de passarela e lago enquadrados, pessoas ao redor da escultura.
Tipo de vista: Vista geral; Vista de cima.
Direitos autorais: José Estorniolo Filho, licença Creative Commons
Obra relacionada: link para a obra

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Registro de imagem 3

Agente: Kainet
Título: Looking way too skinny to be healthy
Data da imagem: 2010
Tipo de imagem: imagem digital
Formato da imagem: jpg
Descrição da vista: Vista geral da obra, com Museu Guggenheim ao fundo, realizada com objetiva olho-de-peixe.
Tipo de vista: Vista geral;  Olho-de-peixe; Moldura circular.
Assunto da vista: Museu Guggenheim de Bilbao
Direitos autorais: Kainet, licença Creative Commons.
Obra relacionada: link para a obra

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Registro de imagem 4

Agente: Michael
Título: Chez Maman
Data da imagem: 2007
Tipo de imagem: imagem digital
Formato da imagem: jpg
Descrição da vista: Vista parcial da obra e do Museu Guggenheim, realizada durante o pôr-do-sol.
Tipo de vista: Vista parcial; Luz crepuscular
Assunto da vista: Pôr-do-sol
Direitos autorais: Michael, licença Creative Commons.
Obra relacionada: link para a obra

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Alguns desses elementos, como Criador, Assunto, Tipo de Obra e Tipo de Vista, por exemplo, devem ser relacionados a registros de autoridade.  Parte dos metadados que utilizei na descrição das imagens foi extraída do padrão VRA Core, que pode ser usado em conjunto com as normas do CCO.

As vantagens da dupla CCO/VRA Core em relação a outros padrões são, para ficar apenas nas mais evidentes:

  • Por serem padrões desenvolvidos especificamente para tratar obras de arte e suas imagens, trazem soluções para problemas de descrição não previstas por outras normas.
  • Fazem distinção clara entre Obra e Imagem, eliminado possíveis confusões entre um conceito e outro e ajudando a descrever adequadamente elementos que acabam sendo negligenciados quando usamos padrões concebidos para tratamento de textos.
  • Obrigam o catalogador a voltar necessariamente sua atenção para a Obra e para informações importantes que nem sempre podem ser encontradas nas imagens específicas que estão sendo descritas.
  • Propiciam real economia de esforços, já que a Obra é descrita uma única vez.
  • Permitem que a informação seja recuperada de forma mais lógica e organizada.

Leituras:

Sarah Lorenzon Ferreira e Marcelo dos Santos. Elementos da descrição de imagens de arte em ambiente eletrônicos:  considerações sobre o padrão VRA Core 4.0. http://www.enacat.ufscar.br/index.php/eic-enacat/eic-enacat/paper/viewFile/57/20

Margaret N. Webster. The metadata landscape: Cataloging Cultural Objects, the VRA Core, and our visual collections.  http://ecommons.cornell.edu/handle/1813/9417?mode=full

Mick Eadie. Towards an Application Profile for Imageshttp://www.ariadne.ac.uk/issue55/eadie





Calma, uma coisa de cada vez …

7 04 2012

Ouço essa frase aí há mais ou menos uns 30 anos, sempre que aviso que um filme não é um livro, fato para mim muito óbvio, e que precisamos tratar filmes como filmes, discos como discos, fotografias como fotografias. E que esses documentos não podem ser encarados pelos bibliotecários como acervo de segunda, como mera ilustração ou como apêndice.

Todo professor, administrador ou vendedor de software gosta de dizer que “biblioteca não é só livro”, que  “o importante é a informação,  não o suporte” e outros clichês tão antigos quanto os catálogos de fichas, mas na prática o que se vê nas salas de aula e na rotina das bibliotecas ainda é o império total do texto.

A vez do documento audiovisual não chega jamais, porque nunca é prioridade. Nem mesmo na Universidade de São Paulo, onde os cursos de cinema, televisão, música, artes plásticas, publicidade e outros formam profissionais que produzem documentos audiovisuais e fazem pesquisa em torno de linguagens que não são verbais. A vez do documento audiovisual não chega jamais também porque são poucos os bibliotecários que sabem realmente tratar esse material, mas bibliotecários não gostam  muito de confessar ignorância.

O SIBiUSP acaba de lançar o Portal de Busca Integrada, um serviço de indiscutível qualidade e desenvolvido com tecnologia avançada: o software Primo, da Ex-Libris.

E como ficaram os documentos audiovisuais no Portal? Observem este exemplo:

Pode não parecer, mas esse é o registro do filme A doce vida. Não é um livro catalogado por um bibliotecário um pouco insano, é um filme com os dados cadastrados em campos MARC e exibidos num formato de fichinha de livro. O formato MARC, como expliquei no post A regra do jogo, tem problemas conceituais sérios quando se trata de catalogar filmes.

Temos aí o título original e o título nacional, conceitos importantes para obras cinematográficas, bizarramente agrupados na etiqueta Título. Dá para entender? Claro, usuários não idiotas, e quando não entendem um catálogo de biblioteca consultam a Internet Movie Database. Mas nem por isso é correto.

Se o título original e o nacional forem iguais vai ficar parecendo erro de digitação:

(ainda bem que não temos aquele filme sobre o ataque a Pearl Harbor intitulado Tora! Tora! Tora!)

E nos casos mais  confusos, como

um usuário mais distraído poderá  imaginar que o grande amor de Beethoven era ele mesmo. Bem, talvez fosse.

De qualquer forma, a solução para os títulos de filmes é difícil mesmo, por causa da bagunça feita pelo MARC nesse quesito.

O diretor, a equipe realizadora, os intérpretes  e até as empresas produtoras ficaram todos espremidos na condição de autores. Tudo bem, filmes são obras coletivas, mas existem diferenças no grau de importância dos participantes, e cada um deles tem sua função. O usuário, normalmente, gosta de saber quem fez a montagem, a fotografia, o roteiro etc. Todos esses nomes foram inseridos  no campo 700 com suas respectivas funções especificadas num subcampo, mas o usuário vai ficar sem essa informação por enquanto (uma coisa de cada vez). Tudo bem,   Google e  IMDB estão aí para isso mesmo.

Continuando nosso agradável passeio pelo registro, vamos encontrar no meio dos assuntos os termos FILME e FICÇÃO. Por quê? La dolce vita A doce vida não é um filme sobre FILME e sobre FICÇÃO, é um filme de ficção, termos que a gente insere no campo adequadamente destinado pelo precioso formato MARC para Gênero e forma (655). Mas não há meios de convencer o bibliomundo uspiano que assunto e gênero são coisas diferentes. Quando o Precioso oferece uma solução boa para o documento audiovisual essa é prontamente ignorada pelo pensamento livrocêntrico.

O país de produção e as empresas produtoras, dados importantes para usuários de  filmes, surgem misturadas aos dados de distribuição doméstica do DVD, informação de  interesse reduzido, sob a etiqueta Editor. Ótimo termo para catalogação de livros, mas não é preciso ser Federico Fellini para saber que o editor, para o usuário médio de filmes, é o sujeito que fez a edição (ou montagem) do filme. Na mesma linha de raciocínio, a data de produção do filme – importantíssima – e a data de distribuição do DVD – totalmente desimportante e inconsistente – viraram Data de publicação.

Essa baderna acontece porque todas essas informações de produção (da obra ou expressão) e as de distribuição (da manifestação) foram inseridas no campo 260 , repetitivo. É  a solução menos ruim oferecida pelo Precioso para registrar os dados de produção,  mas cria dificuldades na exibição do registro e na busca por data de produção.

Por último, idioma. A única informação disponível é o idioma original. Para saber se o DVD tem legendas ou opção dublada, procuro no Google e faço download  ilegal, assisto num serviço online qualquer ou passo na banca de jornal e compro uma cópia da coleção da Folha de São Paulo.

Uma das poucas vantagens que as bibliotecas deveriam ter em relação às demais fontes  mais simples e acessíveis seria a qualidade da informação que oferecemos. Deveriam? Bem, uma coisa de cada vez. Primeiro dizemos que somos ÓTIMOS, depois a gente prova.

Para quem chegou até aqui na leitura desse meu post, mais um pequeno esforço, como diria o Marquês de Sade. Está acabando, vamos ver só um exemplo de gravação de música.

Vamos tentar adivinhar. O autor é Gilberto Mendes e mais todo esse pessoal? Era tanta gente para compor uma música que foi preciso chamar um laboratório para ajudar? Nesse caso nem o Google resolve, talvez o usuário precise ligar para a Biblioteca da ECA ou consultar a pobre e velha base de dados em www-ISIS  nosso site dessa Biblioteca para descobrir  que Gilberto Mendes é o compositor e  os demais são os intérpretes. Cada um toca seu instrumento, essa informação foi inserida no banco, mas não pode ser visualizada.

E esses assuntos que não são assuntos? Obviamente, qualquer pessoa que já tenha escutado um disco uma vez na vida já entendeu que músicas não tratam de flautas e pianos, elas são interpretadas com esses instrumentos. Infelizmente, os mais de 40 anos de sólido trabalho na área de documentação musical da Biblioteca da ECA/USP não foram suficientes para garantir a criação de um campo para “meio de expressão” no Banco de Dados Bibliográficos da USP.

Também acho engraçado descobrir que uma obra musical instrumental tem idioma. Nesse caso, é o português (?!). Isso acontece porque o preenchimento do campo é obrigatório, e a gente precisa colocar o idioma do encarte, da capa … Se o disco fosse gravado na França, os violinos tocariam em  francês. Informação desnecessária e que pode confundir o usuário, mas obrigatória.  No formato MARC esse campo não é obrigatório para gravações musicais, mas isso não parece fazer muita diferença no caso, porque música não é importante. Ou talvez porque fazer essa modificação no banco de dados seja algo extremamente difícil, complicado, caro, dolorido ou obsceno, sei lá.

Custo a crer que seja muito difícil criar formatos de exibição específicos para filmes ou discos, afinal compramos o Primo. Ou será que não adquirimos o pacote ouro master super e ficamos com uma espécie de Primo pobre?

O Portal de Busca Integrada acabou de ser implantado, e não quero ser injusta com os colegas que  trabalharam muito e tiveram pouco tempo para colocar no ar o novo serviço. A culpa não é dos mais jovens, a responsabilidade é institucional. As questões do tratamento do documento audiovisual na USP já poderiam e deveriam ter sido resolvidas há muito tempo, mas vão ficando sempre para uma hipotética segunda etapa que nunca chega.

Parece que não ainda não conseguimos sair das versões preliminares.

Mas, afinal, quem se importa?





A regra do jogo

11 01 2012

Por que não se deve catalogar filmes como se fossem livros?

Bibliotecários muitas vezes me olham com certo estranhamento quando critico a forma como a catalogação tradicional trata filmes. Imagens em movimento, na verdade. Aos olhos de catalogadores de livros e textos em geral, uma ficha catalográfica ou um registro MARC de um filme parecem tão coerentes e arrumadinhos, não? Dá uma sensação tão confortável quanto entrar num bom quarto de hotel que a gente já conhece e aprecia.
Bem, então vamos experimentar olhar com olhos de usuário. Todos nós vamos ao cinema, assistimos televisão e DVDs, portanto todos somos usuários de filmes.
Em qualquer fonte especializada de informações sobre cinema, base de dados de filme de caráter acadêmico ou comercial, em qualquer programação de cinema, nas críticas publicadas nas boas revistas, nas filmografias ou nos sites de filmes, vamos sempre encontrar mais ou menos as seguintes informações principais:

Título original
Título de distribuição no país da fonte de informação (a revista, o site etc)
País de produção
Data de produção
Diretor, elenco e outros integrantes da equipe realizadora

Precisamos do título original do filme, aquele que a obra recebeu em seu país de produção, para podermos reconhecê-lo. Para saber que O caçador de andróides é Blade runner e Uma mulher para dois é Jules et Jim. E que Antônio das Mortes é O dragão da maldade contra o santo guerreiro. Mas também precisamos do título que o filme recebeu aqui no Brasil para saber que Hakuchi é O idiota, de Akira Kurosawa e que Das weiße Band – Eine deutsche Kindergeschichte é A fita branca, de Michael Hanecke.

O país de produção do filme é importante porque podemos não gostar de filmes americanos ou italianos, ou estamos fazendo um trabalho sobre o cinema francês, ou queremos saber um pouco sobre o Chile assistindo filmes desse país.

A data de produção é fundamental por motivos semelhantes. Por exemplo, eu não gosto dos filmes que os Estados Unidos fazem hoje, mas gosto dos que faziam nos anos 60. Você pode estar estudando o cinema europeu dos primeiros anos do pós-guerra, ou o cinema alemão produzido durante o período nazista. Ou precisa de imagens da atriz Bette Davis jovem. Para sair um pouco do domínio da ficção, imagine que você está procurando imagens do centro de São Paulo em 1950 ou quer saber como era o Partenon antes da última restauração e tente encontrar os filmes certos numa base de dados que não informe em que ano as imagens foram produzidas.

Podemos encontrar mais ou menos informações, mas essas aí raramente faltam, porque precisamos delas para identificar ou escolher o filme. Observem os exemplos do tratamento dado ao filme francês Acossado (À bout de souffle, 1960), de Jean-Luc Godard:

British Film Institut

Mais detalhes no link do BFI.

Internet Movie Database

Clique na imagem para ampliar. Mais detalhes no link do IMDb.

Até mesmo num site de locadora e revendedora comercial de DVDs, cujo foco é, portanto, a edição específica em DVD que está sendo vendida, podemos observar o cuidado em fornecer as informações mais importantes sobre a obra original:

2001 Vídeo

Clique na imagem para ampliar

Nas revistas especializadas vamos encontrar mais ou menos a mesma coisa, embora eu não tenha exemplos do mesmo filme:

Revista Sight & Sound

Revista Cahiers du Cinéma

Se quiserem ver mais exemplos, façam buscas nos sites da Cinemateca Brasileira, da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo ou  no Filmarchives Online.

Viram? Agora vamos ver como os bibliotecários catalogam filmes:

World Cat

Clique na imagem para ampliar. Mais detalhes no link do World Cat.

Não temos o título original do filme, apenas o título para distribuição nos Estados Unidos e outros países de língua inglesa. De cara isso pode criar dúvidas para um usuário com pouca informação sobre cinema, porque existe uma refilmagem  americana de 1983 com esse título, dirigida por Jim McBride. Também não vemos o país de produção e a data só aparece timidamente escondida lá nas notas, em meio a diversas outras informações menos relevantes.

Entretanto, em local de destaque logo após os autores, e com a etiqueta “Editora”, vemos os dados da distribuidora em DVD desse filme dos Estados Unidos. Uma informação que tem seu interesse para o usuário, mas que não é tão importante para a identificação do documento quanto o país e a data de produção. Colocados dessa forma no registro, esses dados podem até mesmo confundir o usuário.  Estados Unidos? 2010? Como assim, será que esse é o filme que estou procurando?

O diretor, o produtor e três dos atores surgem identificados com “autores” e sem especificação de suas funções no filme. Já o diretor de fotografia, sabe-se lá por qual razão, aparece sozinho nos créditos.

Essa catalogação é tão estranha que, no limite, pode dificultar a recuperação da informação e o reconhecimento do documento tratado. Mas é uma catalogação que, de acordo com as regras o AACR2, está correta. Poderia estar mais completa, mas não está errada.

O conceito de título original sequer existe no AACR2. O que existe para essa norma tão popular é o título principal, definido como “o nome principal de um item, incluindo qualquer título alternativo, mas excluindo títulos equivalentes e outras informações sobre o título” (CÓDIGO …, 2004, Apêndice, D-15). Acontece que o item, para a catalogação tradicional, é o documento que o catalogador tem em  mãos. Seguindo essa lógica, é perfeitamente possível que o catalogador de um filme francês distribuídos nos Estados Unidos conclua, como no exemplo acima,  que o título principal é aquele que aparece na capa do DVD ou vídeo, já que as fontes principais de informação são, segundo o AACR2, o próprio item e seu “contêiner”. E mesmo que nosso catalogador trabalhe direito e resolva visualizar os créditos do filme, poderá não encontrar o título original logo no início do filme. Em alguns casos, o título só vai aparecer depois de alguns minutos ou mesmo apenas no final do filme. Diante disso, talvez esse colega opte pelo título que encontrou com mais facilidade. Ou então, pode topar com a seguinte situação:

São muitas as oportunidades para o bibliotecário pode deixar de lado justamente o título original do filme, uma informação tão importante para o usuário. A solução seria adotar a orientação das regras da Federação Internacional dos Arquivos de Filmes, que considera o título original como o título principal do filme, ainda que esse não conste do documento tratado (FÉDÉRATION …, 1991, p, 13). Essa decisão nem estaria em desacordo com o precioso AACR2 que, afinal, não dá instruções muito precisas para escolha de títulos de filmes e nem diz, a rigor, que não podemos optar sempre pelo título original.

Quanto ao país de produção, já existe no formato MARC, desde 1998, um campo específico para registrá-lo, o 257. Infelizmente esse campo parece ainda não ser muito popular entre os bibliotecários que catalogam filmes, talvez porque não haja  no AACR2 uma regra que preconize o registro dessa informação como obrigatória. A data de produção não tem campo específico no MARC, e muitas vezes os bibliotecários que sabem de sua importância a registram no campo 500  de Notas Gerais  – o popular lixão dos catalogadores –  por falta de opção. Outra solução admitida pelo MARC é  o campo 260 subcampo c, que não é o ideal, mas é melhor do que o lixão. Mas também não a vejo sendo muito utilizada quando faço buscas na Online Computer Library Center (OCLC)  para fazer catalogação copiada no Banco de Dados Bibliográficos da USP, torcendo para NÃO encontrar um registro que eu precise copiar – porque raramente encontro um registro bem feito que compense o trabalho de copiá-lo.

A raiz do problema é novamente a mesma: tratar o item em mãos. De acordo com nosso velho AACR2, na área de Publicação, Distribuição etc devem ser indicados o local (entendido como cidade) de publicação, a distribuidora e a data de distribuição do item que está sendo analisado. Fazendo analogia com a catalogação de livros parece razoável, mas no fundo é privilegiar uma informação de importância secundária  e mandar para o lixão das notas gerais as informações que ajudam a definir e identificar o filme. E além disso, é muito raro encontrar a cidade da distribuidora e a data de distribuição do vídeo ou DVD, justamento porque essas informações são perfeitamente desimportantes. O nome da empresa distribuidora tem seu interesse para o usuário, porque pode ajudá-lo a avaliar a qualidade técnica do material, mas cidade e data são informações que só interessam aos bibliotecários no momento de fazer a famosa catalogação copiada.

A questão da autoria das obras cinematográficas também não é bem resolvida pelo AACR2 e formato MARC. Filmes são, em geral, criações coletivas de uma equipe com variados graus de responsabilidade em relação ao conteúdo do trabalho. Um catalogador que não esteja familiarizado com as funções de uma equipe realizadora e com a terminologia utilizada nos créditos dos filmes terá, certamente, muitas dúvidas sobre o que registrar no campo 245 subcampo c do formato MARC (Indicação de responsabilidade).  A orientação do AACR2 é registrar os participantes “considerados de maior importância” ou seja, os que figuram “com destaque no item”, remetendo às notas os demais integrantes da equipe. Diante das dificuldades em interpretar essas instruções tão vagas, os catalogadores tomam decisões extremas. Há os que não colocam ninguém, privando o usuário de informações importantes, e há os que colocam muitos nomes sem grande relevância, poluindo desnecessariamenteo registro e confundindo o usuário. Pretendo escrever um post sobre esse assunto, que é complexo e interessante. Bem, pelo menos para quem gosta de catalogar filmes.

Observem esse outro exemplo extraído do Wordcat, que também não é muito melhor do que o primeiro:

Ausser Atem

Se vocês fizerem outras buscas encontrarão, com certeza, registros melhores, mas também há piores.  O problema não são os bibliotecários, mas a adaptação de regras criadas para livros aos demais documentos, sem levar em conta as necessidades dos usuários e a própria natureza desses documentos.

E o RDA (Resource Description and Access), vai melhorar o panorama da catalogação de imagens em movimento? A grande vantagem no novo código é o fato de se basear no modelo dos Requisitos Funcionais para Registros Bibliográficos (FRBR). Pensar a catalogação de filmes com foco nas quatro entidades do Grupo 1 dos FRBR – Obra, Expressão, Manifestação e Item – deve permitir um tratamento mais adequado das complexidades desse tipo de documento, mas o RDA  ainda precisa ser analisado e testado.

No Manual de catalogação de filmes da Biblioteca da ECA faço algumas comparações entre a catalogação tradicional, a metodologia local dessa Biblioteca e os FRBR.

Sugiro a leitura dos artigos:

CHEW, Chiat Naum; ELHARD, Kathryn C. Cataloguing, lies and videotape: comparing the IMDB and the library catalogue. Cataloging and Classification Quarterly, New York, v. 41, n. 1, p. 23-43, 2005.

McGRATH, Kelley; BISKO, Lynne. Identifying FRBR work-level data in MARC bibliographic records for manifestations of moving images. Code4Lib Journal, [s.l.], n. 5, p. 12-15, 2008.

YEE, Martha M. FRBR and moving image materials: content (Work and Expression) versus carrier (Manifestation). Oakland: University of California, 2007.

Para quem quiser se aprofundar no estudo de catalogação e metadados de filmes, recomendo o site Metadata Standards for Cinematographic Works, que traz links para alguns padrões de metadados europeus e para a wiki da Comissão de Catalogação e Documentação da FIAF, onde podemos acompanhar o processo de revisão das normas de catalogação dessa instituição.

Porque filmes não são livros.

Referências:

CÓDIGO de Catalogação Anglo-Americano. 2. ed. rev.  São Paulo: FEBAB: Imprensa Oficial, 2004.

FÉDÉRATION INTERNATIONALE DES ARCHIVES DU FILM. The FIAF cataloguing rules for film archives. München: K.G. Saur, 1991. Disponível em <http://www.fiafnet.org/pdf/uk/FIAF_Cat_Rules_-_1.pdf&gt; Acesso em 10 jan. 2012.