Indexação de imagens e expressão fotográfica

30 01 2019

colaboração: José Estorniolo Filho

Quando observamos uma fotografia, não vemos apenas o objeto fotografado, vemos o resultado de uma série de decisões técnicas e estéticas do fotógrafo, que seleciona entre os recursos oferecidos pelos equipamentos os que mais se prestam a expressar sua individualidade de artista ou, simplesmente, a fazer o registro mais fiel ou interessante do objeto.

Diferentes enquadramentos ou posição da câmera, uso de lentes ou filtros especiais, por exemplo, podem gerar imagens bastante diferentes entre si, como se pode ver nessas fotos da Torre Eiffel:

foto 1 – Chris Khamken (Flickr)

foto 2

foto 3

foto 4

Essas diferenças entre imagens do mesmo objeto podem ser decisivas para a escolha do usuário. Se eu preciso de uma foto que mostre a torre por inteiro, com seu entorno visível, as melhores opções serão as fotos 2 e 4; as fotos 1 e 3 podem interessar mais a alguém em busca de uma visão “diferente” da torre.

Não é difícil entender, portanto, que a expressão fotográfica, termo cunhado por Johanna Smit para designar o conjunto de recursos técnicos e estilísticos que integram a linguagem utilizada pelos fotógrafos, tem impacto sobre a recuperação da informação e deve ser levada em conta no momento da descrição das imagens para fins de indexação (SMIT, 1997). O tema da incorporação da expressão fotográfica à análise documentária de imagens também foi explorado por Miriam Manini, que prefere o termo dimensão expressiva (MANINI, 2004). As duas autoras  elaboraram propostas de sistematização dos elementos da expressão fotográfica  destinados ao uso no processo de indexação. Estorniolo Filho (2004), em seu trabalho de conclusão de curso orientado por Johanna Smit,  apresentou um quadro no qual priorizava os efeitos visíveis na imagem, e não a técnica usada para obtê-los. Vejam aqui as três propostas.

A ideia de introduzir a análise da expressão fotográfica no universo do tratamento de imagens parece excelente, mas, até o momento, não encontramos na literatura autores que tenham avançado na discussão desse tema. 

 Na base de dados Library & Information Science Abstracts (LISA), a busca por artigos publicados nos últimos 5 anos sobre os assuntos “indexing images” e “indexing photographs” recuperou 37 itens, dos quais 23 abordam, predominantemente,  aspectos relacionados à recuperação automática. Na base SCOPUS, que é multidisciplinar, a mesma busca resulta em mais de 1101 artigos. Não fizemos a análise de cada artigo recuperado, devido à grande quantidade, mas o filtro da base mostram que são, indica, majoritariamente,  das áreas de ciências da computação, engenharia e matemática. A julgar por esse resultado,  as questões da análise e recuperação das imagens podem estar migrando para a área da computação, no âmbito do desenvolvimento das ferramentas automáticas.

De fato, é provável que a rápida evolução dos sistemas automáticos seja a solução mais viável para a recuperação da informação em grandes bases de dados da web, e isso não é ruim. O que preocupa é a possibilidade de que os pesquisadores e bibliotecários estejam abandonando a necessária reflexão sobre o tema do olhar humano sobre as imagens.

Também não encontramos relatos sobre a prática da indexação por elementos da expressão fotográfica em acervos de imagens, embora alguns termos isolados estejam sendo usados em bancos de imagem disponíveis na web. 

Na prática

Para que a análise da expressão fotográfica seja realizável na prática da indexação de imagens, algumas dificuldades precisam ser resolvidas:

  • estabelecer quais elementos da expressão fotográfica podem ser identificados a partir da análise de imagens que o indexador, em geral, não sabe como foram produzidas
  • identificar que elementos terão utilidade prática para o público da coleção, considerando que termos técnicos nem sempre são compreendido por leigos
  • padronizar a terminologia, criando uma lista de termos com suas definições, destinada a ser usada pelos indexadores.
  • formar indexadores com o mínimo de informação técnica indispensável para a análise da expressão fotográfica.

É fácil notar que a imagem acima tem características bem marcantes que deveriam ser apontadas na indexação. Mas como saber que técnica foi usada em sua produção? Há só uma maneira de obter esse efeito? Como devo nomeá-lo? São questões difíceis de serem respondidas sem algum conhecimento técnico.

Identificar corretamente o efeito que vemos numa imagem é importante, mas não suficiente. Na prática de indexação é preciso selecionar quais elementos da expressão fotográfica serão indexados e que termo será usado para representá-lo. Vamos tomar como exemplo as fotografias com pouca profundidade de campo, nas quais apenas os elementos que aparecem em primeiro plano estão nítidos, enquanto o fundo não está em foco. Como esta:

Se o indexador concluir que vale a pena destacar essa característica, terá pela frente a tarefa de escolher qual termo vai adotar: sem profundidade de campo, baixa profundidade de campo, fundo desfocado.

São decisões que dependem no contexto: finalidade da coleção, perfil do usuário, possíveis formas de uso, infraestrutura e condições práticas de trabalho.

Indexação e recuperação automática

A tecnologia dos mecanismos de busca da internet procura atender à demanda por imagens com características visuais específicas por meio do recurso da busca por similaridade. Assim, quem busca pelo termo “multidão” no Getty Imagens recupera imagens tão diferentes quanto estas:

Getty Images

Um botão “Imagens semelhantes” permite que o usuário, em princípio, encontre mais imagens que atendam às suas necessidades. O resultado, entretanto,  pode não ser exatamente o que se espera. Para esta esta imagem, por exemplo:

Getty Images

A busca por semelhança devolveu uma série de images de torcedores semelhantes apenas pelo tema e pela presença dos braços erguidos, como esta:

Getty Images

Nesse caso, uma análise correta da expressão fotográfica, realizada por indexadores humanos a partir de uma lista padronizada de termos traria muitos benefícios à recuperação da informação.

No Flickr, site de compartilhamento e hospedagem de imagens, os usuários podem inserir tags tanto em suas próprias fotos quanto nas dos demais. Além disso, existe a atribuição de tags por um robô. As tags automáticas incluem até mesmo elementos de expressão fotográfica, mas não há consistência na indexação. O termo “profundidade de campo” de campo, por exemplo, foi atribuído a esta foto:

mas não a outras imagens com as mesmas características, como a do lagarto mais acima e esta:


Os usuários do serviço são orientados a analisar as tags automáticas e rejeitá-las, caso não estejam de acordo ou identifiquem erros de reconhecimento de imagem, contribuindo, dessa forma, para aprimorar a ferramenta.

Um dos problemas do Flickr, bem como de de outros ambientes colaborativos do mesmo tipo, é a falta de orientação para a atribuição de tags. Indexar imagens, mesmo que sejam as nossas próprias, não é uma tarefa que se resolva de forma totalmente intuitiva. Se não houver um método ou, pelo menos, alguns critérios, não haverá consistência na indexação. A recuperação de imagens no Flickr seria bem mais eficiente se o serviço oferecesse orientações simples para a atribuição de termos, complementadas por exemplos visuais. Dessa forma, o usuário teria mais condições de atribuir tags melhores para suas fotos e analisar com mais propriedade as tags automáticas. O robô indexador é um instrumento poderoso, mas é o olhar humano crítico que vai fazer a tecnologia se desenvolver.

Como ficamos?

Apesar do aparente desinteresse – ou incompreensão – dos profissionais e pesquisadores da área de indexação, análise da expressão fotográfica merece atenção e estudo. Basta ser usuário de imagens para perceber que as escolhas técnicas e estilísticas do fotógrafo definem o resultado final de uma fotografia.

Preferimos o termo expressão fotográfica por remeter ao universo específico da técnica e da linguagem fotográficas. Dimensão expressiva pode se referir, a rigor, a qualquer aspecto de uma imagem.

O trabalho de análise da expressão fotográfica, identificação dos elementos e padronização de terminologia não é simples. Mas como nada é exatamente simples no universo do tratamento documentário de imagens, as dificuldades não devem nos intimidar.

A primeira coisa que um profissional que se proponha a indexar acervos de imagens fotográficas precisa entender é a própria fotografia. Conhecimentos mínimos da técnica, história, linguagem e conservação são fundamentais. Não é indispensável – embora seja interessante – fazer um curso de fotografia. A leitura de um bom manual de fotografia e a experiência de manusear uma câmera, entender seu funcionamento e fotografar o mundo ajuda bastante. Mas, atenção: é bom usar uma câmera com um pouco mais de recursos do que um smartphone.

Para profissionais com experiência ou, pelo menos, reflexão teórica sólida sobre o indexação de imagens, além de conhecimentos mínimos de fotografia, o desafio é criar um tutorial para auxiliar os indexadores na identificação dos elementos da expressão fotográfica. Um guia visual, com bons exemplos de imagens, definições e sugestões de caráter terminológico. Estamos fazendo alguns ensaios, aguardem novidades.

Referências

ESTORNIOLO FILHO, José. A representação da imagem: indexação por conceito e por conteúdo. 2004. Trabalho de conclusão de curso (Bacharelado em Biblioteconomia) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2004. Disponível em: http://www3.eca.usp.br/sites/default/files/form/ biblioteca/acervo/textos/tc1627-estorniolo_filho.pdf. Acesso em 4. fev. 2019

MANINI, Miriam Paula. Análise documentária de fotografias: leitura de imagens incluindo sua dimensão expressiva. In.: REPOSITÓRIO Institucional da UnB. Brasília: Universidade de Brasília, 2004. Disponível em 
http://repositorio.unb.br/handle/10482/946. Acesso em 11 dez. 2018.

SMIT, Johanna W. Propositions for the treatment of iconographical information. In: CONGRESO INTERNACIONAL DE INFORMACION – INFO’97, 1997. Havana. Textos completos. Havana: IDICT, 1997. p. 1-14.

Créditos das fotos

Os créditos estão nas legendas das imagens. As images não legendadas são de autoria de José Estorniolo Filho ou Marina Macambyra.

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Arquigrafia: uma coleção de imagens da arquitetura brasileira

17 02 2018

A carência de ferramentas adequadas para tratar e compartilhar imagens de forma profissional é notável em nosso país. No ambiente das bibliotecas, com suas velhas regras e foco eternamente em documentos textuais,  boas iniciativas ainda são poucas.

E o que seria um bom catálogo de imagens? Basicamente, um sistema que mostre prioritariamente as imagens, com boa qualidade, descritas com metadados específicos para imagens e indexadas de acordo com métodos e vocabulários controlados pensados para documentos fotográficos já seria um bom começo. O pesquisador de imagens que se deparar com um registro MARC cheio de informações inúteis para ele, com um link remetendo a uma imagem que demora a carregar vai fugir decepcionado para as montanhas.

O Arquigrafia, fruto de um projeto de pesquisa multidisciplinar coordenado por um professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, escapa da maldição do banco de imagens que mais parece um catálogo de livros. Trata-se de um “ambiente colaborativo” criado para compartilhar imagens de obras arquitetônicas e  espaços urbanos brasileiros, que tem os seguintes pontos fortes:

é um sistema que leva em consideração a visão do usuário especialista na área e privilegia as informações importantes para esse público

as imagens são exibidas de forma agradável e amigável

colaborativo, permite que qualquer interessado no assunto faça um cadastro e insira suas imagens

a interface de catalogação é fácil de usar

tem aplicativo móvel

tem ferramenta para interpretação da obra arquitetônica que deve permitir, futuramente, a busca por semelhança

Os pontos fracos são aqueles típicos dos sistemas colaborativos de compartilhamento de imagens: faltam orientações e critérios mínimos para descrição das imagens. Não me refiro àquelas complicadas regras de catalogação que os bibliotecários adoram, que nem seriam necessárias dentro da proposta do Arquigrafia, mas a algumas convenções básicas poderiam ser adotadas na descrição das imagens. Vamos ver alguns exemplos.

Atribuição de títulos

Como nomear uma foto de detalhe? Altar da Igreja de São Francisco de Assis ou Igreja de São Francisco de Assis: altar?

Se na imagem o que realmente aparece é a marquise do Parque do Ibirapuera, o título deve ser: Parque do Ibirapuera ou Marquise do Parque do Ibirapuera ou Parque do Ibirapuera: marquise?

No campo descrição

É realmente necessário iniciar a descrição com a expressão “vista do“? Quando é necessário especificar se é uma vista geral ou parcial, faz sentido. Caso contrário, é redundância. É uma fotografia, logo, é uma vista.

A utilidade de um  texto descritivo ao lado de uma imagem é, sobretudo, esclarecer aspectos que não estão evidentes na própria imagem. Explicitar os elementos presentes na imagem e sua distribuição espacial, informando o nome daquele chafariz que aparece em primeiro plano ou explicando que as as paredes são de adobe, por exemplo. Apenas repetir a informação que está perfeitamente evidente na própria imagem e no seu título é inútil. Na mesma linha de raciocínio, é interessante informar dados históricos que esclareçam aspectos da imagem, como  a alteração da fachada em  reformas posteriores, ou o fato do piso não ser original. Mas será que é realmente importante inserir no campo descrição um histórico completo da obra ou local fotografado, como se o registro fosse um verbete da Wikipedia?

 

Muitas imagens do Arquigrafia são fotos ou slides antigos digitalizados, já que o acervo da Biblioteca da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo também está sendo registrado na plataforma. É muito comum encontrarmos imagens com sinais de deterioração. Seria interessante que, na descrição ou num campo específico a ser criado, fosse inserida a observação de que a imagem está desbotada e o colorido original da obra está alterado. Pode parecer óbvio, mas como nem sempre a deterioração é evidente aos olhos dos leigos, é interessante alertar. Se a informação quanto ao estado de conservação for registrada em campo específico, poderá ser usada como filtro na busca, permitindo que o usuário exclua imagens desbotadas.

Critérios para indexação

Indexar imagens não é exatamente brincadeira de crianças. Se mesmo profissionais treinados e experientes vacilam e cometem erros clássicos, certamente não se pode esperar consistência ou precisão de usuários sem formação específica. O Arquigrafia já tem uma lista de tags pré-determinadas para ajudar o usuário em suas escolhas, e a equipe tem planos de melhorar o controle vocabular, mas o problema não é só a normalização dos termos. Quando indexamos imagens um dos grandes desafios é decidir quando vamos atribuir determinado assunto e como manter a consistência nas escolhas que fazemos ao longo do tempo.

Um dos erros mais comuns é confundir o local onde foi feita a foto com o assunto da foto. A imagem abaixo, publicada no Arquigrafia, foi feita na marquise do Parque Ibirapuera, mas nela o local realmente aparece de forma reconhecível? Um eventual usuário em busca de informações visuais sobre a dita marquise consideraria útil essa imagem que mostra, sobretudo, um patinador em movimento num  espaço quase vazio? Poderíamos, naturalmente, dizer que a resposta depende do tipo de uso a ser feito da imagem. Pela sua força expressiva, a fotografia poderia ser usada numa peça publicitária ou num cartaz de filme sobre o parque, por exemplo, mas o fato é que a marquise do Ibirapuera quase não aparece na imagem.

Foto de Beatriz Mendes Costa e Natália Andrade.

Acredito ser importante estabelecer um critério e orientar os usuários nesse sentido, para evitar recuperação de imagens irrelevantes. Afinal, é razoável esperar de uma biblioteca de imagens especializada algum rigor na indexação. Mas sei perfeitamente o quanto isso é difícil de ser colocado em prática.

Um outro ponto complicado é o nível de detalhamento na indexação. Ao analisar imagens, é importante considerar os diversos elementos visíveis na cena ou objeto fotografado, mas também é preciso saber desconsiderar detalhes pouco pertinentes. Indexar cada centímetro da imagem pode gerar excesso de informações de pouca utilidade para os usuários. Na imagem abaixo estão visíveis uma árvore, uma pomba e condicionadores de ar nas janelas do prédio, mas é pouco provável que inserir tags para esses elementos tenha algum interesse para quem pesquisa.

Foto de Larissa França Peres

Já a identificação de elementos técnicos da construção de um edifício, ainda que bastante específicos aos olhos de um leigo, podem ser importantes para o especialista,  como mostra a escolha de tags para a imagem abaixo: colônia de férias, sindicato, lazer, centro recreativo, quadra poliesportiva, canteiro de obras, coluna, laje
nervurada, concreto, concreto armado, vão.

Foto do acervo da Biblioteca da FAU

O usuário sem formação em arquitetura terá dificuldades em indexar usando termos técnicos ou usar a ferramenta de interpretação arquitetônica. Um glossário visual dos conceitos básicos da área seria útil, mas, sinceramente, não sei se é viável.

Num acervo colaborativo será impossível evitar decisões diferentes  quanto ao nível de especificidade na indexação, pois cada usuário terá o seu próprio olhar sobre as imagens, condicionado por suas experiências, conhecimento de arquitetura, lógica pessoal etc. Entretanto, acredito que, se forem oferecidas na plataforma orientações básicas e simples para guiar os colaboradores  na atribuição das tags, será possível melhorar um pouco a consistência na indexação.

Um dos conceitos clássicos da análise de imagens,  como aponta Sarah Shatford, é a capacidade que tem uma imagem de representar ao mesmo tempo um objeto específico e uma categoria genérica à qual esse objeto pertence. O assunto de uma foto da Praça da Sé, por exemplo, é tanto Praça da Sé quanto praças. Muitos usuários do Arquigrafia devem intuir isso e indexam as imagens postadas tanto pelo nome específico quanto pela categoria geral, mas nem todos. Seria bastante bem-vinda uma orientação nesse sentido.

Georreferenciação

Ao subir uma imagem por meio do aplicativo móvel, a localização é dada automaticamente pelo Google Maps. O recurso é ótimo, mas só funciona adequadamente se a imagem for postada no local onde foi registrada. Se o usuário fizer o upload em outro local, a georreferenciação ficará errada. Apesar de ser um fato óbvio, muitos usuários não se dão conta disso. Seria útil que o sistema desse um alerta no momento do upload, lembrando que é possível editar e corrigir a localização caso não esteja realizando a postagem no local da tomada da foto.

Adequação das imagens aos objetivos da coleção

Pode parecer evidente, a qualquer ser humano razoável, que a foto de um cachorro ou de um armário de roupas não tem qualquer interesse para uma coleção de imagens de arquitetura brasileira. Está explícito no texto do projeto: “imagens digitais de edifícios e espaços urbanos do Brasil e da comunidade lusófona”.  Não parece difícil de entender (nem de aceitar), mas parece que alguns colaboradores imaginam que seu cachorro ou suas camisetas se enquadram nessa definição. Um controle mínimo de qualidade se faz necessário, portanto,  para preservar as características do projeto.

Observações finais

O Arquigrafia é um trabalho em construção, e tenho certeza de que, apesar das dificuldades inerentes aos projetos tocados com verbas de agências de financiamento de pesquisa, sem pessoal fixo nem dotação orçamentária, ainda vai evoluir bastante. A equipe, da qual fazem parte bibliotecárias da FAU/USP e professoras do Curso de Biblioteconomia da ECA/USP está sempre aberta a sugestões, e eu mesma já dei meus palpites.

A plataforma é aberta a todos que se disponham a compartilhar imagens de arquitetura brasileira. Para participar, basta fazer um cadastro. Não é necessário ser arquiteto, nem estudante de arquitetura, nem fotógrafo. Por esse motivo, considero o Arquigrafia como uma boa oportunidade para professores e estudantes interessados em tratamento documentário de imagens testarem suas habilidades e conhecimentos na prática, travando contato com um sistema de concepção moderna, que busca dialogar tanto com o especialista quanto com os interessados leigos no assunto. Dá para pensar bastante em diversas questões relacionadas ao universo da catalogação e indexação de fotografias, contribuindo, ao mesmo tempo, com a formação de uma bela coleção de imagens de arquitetura brasileira. Sem esquecer, é claro, do cuidado indispensável com a qualidade e pertinência das imagens e informações postadas.

Referência

SHATFORD, S. Analyzing the subject of a picture: a theoretical approach. Cataloging & Classification
Quarterly, v.6, n. 3, p. 39-62,1986.

Mais informações sobre o projeto do Arquigrafia: http://www.arquigrafia.org.br/project

 

 

 

 

 

 

 

 

 





A linguagem secreta do cinema

2 01 2018

O livro Jean-Claude Carrière, A linguagem secreta do cinema, é uma ótima leitura para quem tem vontade ou necessidade de aprender um pouco sobre cinema. Bibliotecários ou arquivistas que trabalhem com acervos de filmes e não tenham formação específica em cinema, estudantes querendo fazer um trabalho sobre organização de filmes e curiosos sobre o assunto em geral podem ler sem susto.

O texto é simples e de leitura agradável, tratando de técnica sem ser técnico, de linguagem e estética sem ser hermético nem chato. Mas não imaginem que seja um livro superficial ou bobinho, não é nada disso. O autor é um roteirista consagrado, que trabalhou com Luis Buñuel, Nagisa Oshima e Louis Malle e foi diretor da École Nationale Supérieure des Métiers de l’Image et du Son, uma importante escola de cinema francesa. Ele, obviamente, sabe do que está falando. Não é somente um teórico, é alguém que teve a mão na massa a vida toda.

Como bibliotecária audiovisual e ex-“filmotecária”, o que mais me chamou a atenção no livro foram os conceitos que provocam reflexões sobre a análise documentária de filmes: o espaço e o tempo nos filmes, o que vemos e deixamos de ver, a questão da realidade no cinema, a função do roteiro e da montagem etc.

No filme Esse obscuro objeto do desejo, dirigido por Luis Buñuel, a mesma personagem é interpretada por duas atrizes bastante diferentes, Angela Molina e Carole Bouquet. Curiosamente, segundo Carrière, muitos espectadores não se deram conta dessa particularidade.

(…) será que não abrigamos, no fundo de nós mesmos, algum tabu, ou hábito, ou incapacidade, ou obsessão, que nos impede de ver o todo ou uma parte do audiovisual que cintila fugazmente diante de nós? (p. 10).

São fenômenos como esse que são descritos e analisados no livro. Vou destacar aqui alguns trechos que me pareceram particularmente interessantes.

Explicando o que está diante dos olhos

Carrière conta que, em nos primórdios do cinema, na Espanha e em alguns países africanos, havia a figura do  explicador de filmes,  um indivíduo que ia explicando para a platéia o que se passava na tela. Do contrário, pessoas de cultura predominantemente oral não conseguiriam entender as imagens sem som (e em preto e branco) que se sucediam diante de seus olhos.

Isso ocorria porque o cinema criou uma linguagem completamente nova, que poucas pessoas conseguiam entender rapidamente, em seu início. O autor enumera, ao longo do livro, vários exemplos dessa incompreensão: o famoso susto dos espectadores da primeira sessão de cinema com o trem que avançava em sua direção; a população de uma aldeia argelina que não entendeu um documentário sobre uma doença que os afetava e que era transmitida por uma mosca, porque eles não tinham moscas daquele tamanho; os caçadores de hipopótamos que acharam errada a música deles mesmos que o cineasta Jean Rouch usou como fundo, porque se eles tocassem música durante a caça, os hipopótamos fugiriam.

Mesmo hoje, que a linguagem do cinema é parte do nosso dia-a-dia e que as imagens em movimento talvez seja a forma de expressão mais consumida pela população, ainda temos ocasião de observar fenômenos de incompreensão. Espectadores habituados a consumir o cinema comercial produzido nos Estados Unidos têm dificuldade, por exemplo, em apreciar filmes de outras cinematografias, que consideram difíceis de entender, monótonos e chatos. E quem nunca se aborreceu com um adulto, no cinema, explicando o enredo a outro adulto que não está entendendo nada do que vê?

Bibliotecários, em sua prática profissional,  trabalham  a todo instante com a necessidade de explicar.  Fazer um resumo, escolher termos de indexação ou recomendar um filme a um usuário, são todas formas de explicar e traduzir, de dizer qual é o assunto do filme e mostrar porque esse filme pode ser útil àquele espectador. Não são tarefas fáceis e precisam ser feitas com bastante consciência do terreno em que estamos pisando.

A montagem e o espaço do filme

Para Carrière, o nascimento da montagem foi o fator que definiu o surgimento de uma linguagem autenticamente nova: ‘”foi aí, na relação invisível de uma cena com a outra, que o cinema gerou uma nova linguagem. No ardor de sua implementação, essa técnica aparentemente simples criou um vocabulário e uma gramática de incrível variedade. Nenhuma outra mídia ostenta um processo como esse” (p. 14).

O autor vai explicando essa ideia com o exemplo do homem que se aproxima de uma janela e olha para fora. A imagem seguinte mostra uma mulher e outro homem na rua – a esposa do primeiro homem e seu amante. O espectador contemporâneo já entende, pela simples justaposição das duas imagens, que o personagem viu a esposa com um amante. Esse reconhecimento é quase automático, mas não era assim no início do cinema, quando a montagem começou a ser usada. Dependendo das imagens que venham a seguir e das diversas escolhas estéticas envolvidas (posição de câmera, iluminação etc), a história pode prosseguir nos mais diferentes rumos, que podemos inferir a partir dos detalhes que percebemos. “O cinema cria, assim, um novo espaço, com um simples deslocamento do ponto de vista” (p. 17).

Esse “novo espaço” criado por processos narrativos específicos da linguagem cinematográfica pode apresentar ao profissional que faz a análise documentária desafios muito particulares. Vamos imaginar que a próxima imagem, depois da sequência do homem que vê a esposa e o amante pela janela, seja de um revólver sendo disparado por mão invisível, seguida por imagens de um cortejo fúnebre, e que o filme termine nesse ponto. O que faz o indexador que precise escrever um resumo minucioso e escolher termos para indexar esse filme? O que aconteceu? Alguém morreu? O marido matou alguém? Seria melhor apenas descrever a sequência de imagens e deixar a conclusão em aberto? Essas questões são parte da rotina do profissional da área. Por isso, embora não seja imprescindível formação específica em cinema para tratar um acervo de filmes, é importante que o profissional esteja atento às dificuldades inerentes à prática e, muito consciente de suas próprias limitações. Ver filmes sempre, de todo o tipo, inclusive os experimentais, tentar acompanhar festivais e se manter atualizado com o que acontece no mundo do cinema é fundamental. Carrière conta que, antes do surgimento da televisão, pessoas que ficaram presas por alguns anos, sem acesso filmes tinham dificuldades para entendê-los quando saiam da prisão. É uma linguagem evolui muito rapidamente.

O cinema e o real

O cinema – e as imagens em movimento de uma forma geral –  tem um “misterioso e irresistível poder de convencimento” que nos leva a acreditar no que vemos de uma forma quase incompreensível. Mesmo nos dias de hoje, pessoas relativamente bem informadas e que sabem, ou deveriam saber, que imagens podem ser manipuladas, ainda defendem seus pontos de vista com argumentos do tipo “é verdade, eu vi o vídeo”.

A rede de imagens que nos cerca é tão densa, tecida de forma tão intrincada, que é quase impossível não ceder a uma espécie de indolência mental, uma sonolência intelectual que permite a invasão de mentiras (…). A “verdade” de uma foto, ou de um cinejornal, ou de qualquer tipo de relato é, obviamente, bastante relativa, porque nós só vemos o que a câmera vê, só ouvimos o que nos dizem. Não vemos o que alguém decidiu que não deveríamos ver,  ou que os criadores dessas imagens não viram. E, acima de tudo, não vemos o que não queremos ver (p. 49).

No Brasil (e provavelmente em qualquer outro país), não são raros os casos de atores que interpretam vilões nas telenovelas serem insultados nas ruas por espectadores ingênuos. E lembremos do filme americano A bruxa de Blair (The Blair witch project), cuja campanha publicitária baseada na estratégia tratar os eventos do filme como algo verídico realmente convenceu parte do público da veracidade da história.

No momento da análise documentária, o profissional precisa estar consciente desse poder de convencimento das imagens em movimento, não se deixar levar pela pretensão e tomar bastante cuidado para não se deixar enganar. Não descrever o que não existe de fato do filme e, por outro lado, enxergar o que está escancarado diante de nossos olhos (como duas atrizes interpretando o mesmo personagem) nem sempre é tão simples quanto parece. Ah, mas eu não sou idiota, estou habituado a ver filmes, muitos de vocês devem estar pensando. Talvez, mas gente esperta também faz bobagens e até profissionais do cinema se enganam. Carrière cita, entre vários exemplos, o caso de um microfone que ficou visível, em primeiro plano, durante uma cena inteira. Todos os espectadores viram o que ninguém na equipe havia percebido  (p. 156).

A passagem do tempo também faz seus estragos, não apenas nos filmes, mas no nossa percepção deles. Podemos achar graça em cenas de filmes antigos que não tinham em sua origem qualquer intenção humorística, porque regras estéticas, convenções e estilos de representação mudaram muito. Também é bastante comum não darmos a devida atenção a um evento histórico que, na época da realização do filme, estava tão próximo e vivo que não se considerou necessário dar muitas explicações. Passados 50 anos, o indexador nascido 20 anos depois não percebe que aquele acontecimento foi importante e que deveria ser mencionado.

A passagem do tempo

Algo tão simples e natural quanto a passagem do tempo, os dias e noites que se sucedem, não é tão simples de ser representado no cinema. Carrière dedica um capítulo à anatomia do tempo no cinema, mostrando os recursos que são usados para mostrar a passagem do tempo, as “regras secretas” da sequência temporal, os ritmos da sucessão de dias e noites etc. Espetadores comuns raramente estão atentos a essas questões fascinantes que explicam, pelo menos em parte, porque às vezes é tão difícil escrever um bom resumo de um filme de ficção.

Tudo o que estamos vendo – ou, graças à montagem, não vendo – é uma multidão de pequenos subterfúgios em meio ao que parece ser a realidade, subterfúgios que se somam para criar um novo tipo de continuidade temporal.  A ação se move mais rápido do que o filme. Situações, atos, palavras se escondem por entre os quadros (p. 99).

A citação acima resume de forma perfeita a encrenca em que está metido o profissional que se lança à análise documentária de filmes. Carrière narra um episódio ocorrido quando, em sua estréia como roteirista de cinema, a montadora de Jacques Tati lhe explicou, mostrando um roteiro e um rolo de filme, que “o problema todo consiste em ir daqui para lá“. E para nós, indexadores, o problema consiste em fazer o caminho inverso, do filme para o texto e para o vocabulário controlado.

Encantamento

Termino esses comentários com uma passagem que remete ao célebre conto Tlön, Uqbar, Orbis Tertius, de Jorge Luis Borges e nos faz pensar no momento que vivemos hoje, em que várias camadas de fantasias, “memes”, imagens e “verdades” artificialmente construídas se sobrepõem ao mundo real.

Talvez o verdadeiro perigo desta saturação pela imagem, de que tanto se fala (geralmente com alarde), resida no desaparecimento, puro e simples, daquilo que costumamos considerar realidade. Existe o perigo de que repetidas imagens do mundo venham, em última análise, a tomar o lugar do mundo… O perigo de que um cinema popularizado e universalmente disseminado possa nos isolar, sem esperança de retorno, do que quer que reste da realidade. De que, num mundo fadado ao desaparecimento (talvez mais cedo do que se imagina), possamos encontrar refúgio provisório numa representação deste mundo (p. 83).

Carrière falava ao cinema, Borges fazia referência a diversos temas filosóficos e ambos escreveram muito antes de existir a internet. A reflexão fica cada dia mais válida e preocupante.

 

CARRIÈRE, Jean-Claude. A linguagem secreta do cinema. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2015.

 

 

 

 

 

 

 





Seres imaginários na academia: como indexar filmes com o Vocabulário USP

2 06 2013

Mas, dá para usar a mesma lista de assuntos para indexar livros e filmes?.

Sempre me perguntam isso. Eu mesma me pergunto isso, ora. Tudo é tão difícil e custoso na nossa área que às vezes tudo o que queremos é uma solução simples e não muito trabalhosa. A regra de catalogação é inadequada, o software não presta? Ah, mas dá para usar. Não é o ideal, mas é o que dá para fazer no momento. Não é perfeito, mas pelo menos o usuário consegue localizar o material. Quantas vezes já não ouvimos ou dissemos frases nessa linha de raciocínio?

A história é sempre a mesma. Engolimos sempre o pacote básico porque é mais barato e dá menos trabalho para a chefia. Dando para fazer o mínimo já está tudo muito bem, e o serviço melhor, o mais sofisticado e o mais arrojado sempre fica para depois. E se esse depois for aquele momento em que bibliotecas e bibliotecários tiverem perdido totalmente a importância?

Mas não é para tratar do apocalipse bibliotecário escrevo este post, vamos ao que interessa.

Trabalho há vários anos indexando filmes na Biblioteca da Escola de Comunicações e Artes da USP com os termos do Vocabulário Controlado USP, ferramenta usada para indexar materiais de todas as áreas do conhecimento e em todos os suportes. Esse vocabulário tem deficiências muito sérias, mas é o que foi possível desenvolver até o momento. Há menos de 20 anos passamos do nada, ou seja, cada biblioteca usando sua própria linguagem, para alguma coisa, o Vocabulário USP, que em algum momento será substituído por algo melhor. Ou não, veremos.

Na prática diária, embora o processo mental de análise de assunto de um filme e de um texto escrito seja diferente – e ainda não consigo explicar convenientemente essa percepção – não sinto falta de um vocabulário específico para indexar documentários ou qualquer filme de caráter técnico. Em geral, podemos indexar tranquilamente um filme sobre pintura brasileira do século 19 ou sobre danças de índios do Xingu com os mesmos termos que utilizaríamos para representar os assuntos de um livro sobre esses temas.

As diferenças aparecem quando indexamos não apenas o filme como um todo, mas partes dele, sobretudo trechos que mostram ações: alguém ou algo fazendo alguma coisa. Tenho um filme sobre o centro de São Paulo, por exemplo, cujo foco principal são as questões ligadas à recuperação de áreas urbanas deterioradas, mas que tem umas sequências interessantes que mostram adolescentes dançando hip-hop na rua e crianças fazendo malabarismo com laranjas nos faróis. Consigo indexar, mas preciso usar vários termos: adolescentes, dança, dançarinos, hip-hop, ruas, crianças ou crianças de rua, malabaristas, malabarismo etc. E vou sempre ficar na dúvida se devo usar dança e dançarinos, ou se escolho um dos termos. E não consigo estabelecer a relação entre os termos. Tudo bem, o usuário vai conseguir, eventualmente, localizar esse conteúdo, principalmente porque não sou besta e vou fazer colocar no resumo a informação que o filme “mostra adolescentes dançando hip-hop na rua e crianças fazendo malabarismo com laranjas nos faróis”. Mas temos que contar que o usuário decomponha a imagem que está em sua mente (meninos dançando na rua) em diversos termos, em geral sem ter noção do que seja controle vocabular.

Agora imaginem um banco de dados gigantesco, como o da USP, quando chegar a ter milhares de filmes e sequências de filmes indexados dessa forma. Nosso usuário vai ter que abrir muitos links, ler muitos resumos e examinar muitas imagens até chegar no que precisa.

Um bom exemplo é este simpático vídeo do Youtube:

http://youtu.be/DQuF_BQRIe4

Se eu tive que indexá-lo usando os recursos do Vocabulário USP, minhas opções seriam mais ou menos estas:

Violonistas

Violão

Interpretação musical (ou Música – Interpretação)

Música instrumental

Os termos seriam provavelmente bons para indexar um artigo sobre essa mulher e outras pessoas que aprendem a tocar violão de forma autodidata, longe de escolas e métodos tradicionais.  Mas falham ao representar o que o vídeo realmente mostra: uma mulher tocando violão de forma diferente da usual. Eu usaria os termos “Interpretação Musical” ou “Música Instrumental” por falta de opção, para tentar representar, de forma torta e indireta, um conteúdo que seria muito bem indexado com uma frase: mulher tocando violão. Esse vídeo não traz, de fato, informações sobre interpretação musical, embora possa ser usado para ilustrar esse conceito. O vídeo apenas mostra uma mulher tocando violão.

Complicado usar frases ou verbos num vocabulário para indexação. Ah, é, de fato. Indexar filmes também é.

O outro momento em que tenho problemas é na indexação de filmes de ficção.

Uma das primeiras dificuldades na qual tropecei é que a ficção tem o hábito de tratar de coisas que não existem: vampiros, fantasmas, viagens no tempo, possessão demoníaca, duendes, fadas, lobisomens, casas mal-assombradas… Já precisei de termos como Inferno, Céu, Olimpo, Futuro e Passado.Toda uma enciclopédia de seres, lugares e situações imaginárias.

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Outro problema dos mais evidentes é a necessidade de usar termos muito mais coloquiais do que os normalmente encontrados num vocabulário feito para textos científicos, técnicos ou acadêmicos.

Quando estou indexando uma comédia ou um filme de terror trash cujos personagens são caracterizados como loucos, preciso do termo “loucos” ou “loucura”. Não dá. Esses termos não existem na área de psicologia. Não temos “loucura”, e sim “Transtornos Mentais”, “Psicoses” “Esquizofrenia” etc. Como faço o diagnóstico dos malucos do meu filme?

Já senti necessidade do termo “Jantares” ou “Almoços”, porque há diversos filmes que se passam durante um jantar ou um almoço, como A festa de Babette, de Gabriel Axe, e O anjo exterminador, de Luís Buñuel. O Vocabulário USP só me dá o termo “Refeições”. Mas não é a mesma coisa? Não exatamente, porque o termo “jantar” não evocar apenas do ato de comer, não se trata apenas de um conceito da nutrição. É um termo que descreve também um evento social, um ritual que acontece ao redor de uma mesa cheia de convidados.

No banco de dados da USP não há remissivas para o usuário. Se houvesse a busca seria mais fácil, mas esse não é o ponto. Remissivas apenas dão uma volta no problema real, que é a diferença entre indexar filmes de ficção e textos acadêmicos.

O Vocabulário USP permite a inclusão de termos conforme a necessidade do indexador. Os termos propostos são avaliados por um grupo gestor que os aprova ou não. Naturalmente, minha legião de monstros e seres imaginários cria situações incômodas para meus colegas do grupo, que não estão habituados a lidar com essas criaturas e nem com os locais que elas habitam. Em geral eles não questionam a necessidade dos termos, mas como inserir tanta fábula no vocabulário da ciência? Não se trata apenas de acrescentar um termo numa lista, é preciso inseri-lo numa hierarquia.

Uma das colegas sugeriu um jeitinho: criar uma lista de personagens para todos os meus bichos em baixo do termo “Personagens”, que já existia no Vocabulário. Posteriormente, sugeri a criação da categoria “Tipos de Cenários e Ambientes” para abrigar lugares estranhos que não consigo encaixar na estrutura de termos. Isso resolve meus problemas e preserva os termos mais comportados das mordidas dos meus lobisomens, mas tenho a impressão de que estamos, na realidade, criando um subvocabulário para ficção dentro do Vocabulário USP. Num futuro próximo podemos vir a ter problemas com isso, porque a estrutura do vocabulário atual não foi prevista para gerenciar essas contradições. De imediato, já existe o risco de um indexador distraído utilizar um termo criado para indexar filmes de ficção para representar um trabalho acadêmico, sem perceber que há um termo mais adequado no Vocabulário.

Existem no mundo vocabulários específicos para indexação de obras ficcionais, como relato no primeiro post deste blog Indexando filmes numa tarde de sexta-feira. Também existe a necessidade de um instrumento específico, ou pelo menos, a suspeita de que seria importante ter esse instrumento. Só não existe, ao menos na USP, a vontade de discutir a questão. A USP não é um espaço para discussões que envolvam bibliotecários, que são apenas funcionários. Discussão, só a do tipo acadêmico, em sala de aula.

Alguma outra instituição se habilita? Estou cansada de discutir comigo mesma.

 





Filmes e facetas

20 10 2012

Comentando um bom artigo:

CORDEIRO, Rosa Inês e LA BARRE, Kathryn.  Análise de facetas e obra fílmica. Clique para ver o texto completo.

As autoras tratam dos princípios de análise fílmica a partir da teoria facetada e relatam os resultados de uma pesquisa empírica sobre o processo de análise de filmes, com a qual pretendiam testar a “possibilidade de aplicação da análise de facetas e análise fílmica para a interpretação e sistematização das informações registradas” pelos participantes e observar se as diferenças culturais entre os indivíduos se manifestavam em suas interpretações .

O texto aborda alguns pontos muito interessantes que nem sempre bibliotecários sem experiência com documentos fílmicos conseguem visualizar com clareza. Um deles, que eu particularmente valorizo muito, é o fato de que a obra fílmica “pode ser de interesse para diversos grupos de usuários e portadores de diferentes níveis de conhecimento” (p. 184). As autoras identificaram na literatura da área uma tendência a propor o tratamento dos documentos em “várias ‘camadas’, a fim de permitir o acesso à informação considerando diferentes interesses e perfis de usuários”(p. 184).

Não cheguei a entender como, na prática, como se daria essa descrição e recuperação em camadas, mas a ideia me parece válida. Qualquer acervo documental pode ser usado de diferentes formas por usuários com características e objetivos diversos, mas penso que no universo das imagens em movimento essas variações são particularmente imprevisíveis. Para citar uma situação concreta do dia-a-dia, muito comum na instituição na qual trabalho, um filme musical americano da década de 50, por exemplo, poderá ser solicitados por estudantes de cinema por suas qualidades estéticas e técnicas, enquanto representante de um gênero que marcou sua época, será recuperado sobretudo pelo gênero, data e país de produção, diretor e atores. O mesmo filme vai interessar aos estudantes de dança para analisar a coreografia, ou a um pesquisador de história da moda, pelos figurinos e adereços, ou simplesmente às pessoas que gostem de musicais, por lazer e diversão.

Idealmente, a análise do filme deve atender às demandas de todos esses tipos de público. Trata-se aqui de uma tipologia de usuários que não se resume apenas a níveis de conhecimento, como no exemplo citado pelas autoras de um projeto de pesquisa que visa os grupos de usuários “acadêmicos, profissionais e leigos” (p.184). Os recortes feitos pelo usuário no conteúdo de um filme são mais complexos do que essa categorização de fundo acadêmico, e percebe-se que o mesmo usuário pode ser leigo numa situação e especialista em outra. Uma outra questão que sempre me chama a atenção ao comparar textos acadêmicos com a prática diária profissional é que nem sempre é possível identificar o grupo de usuários da coleção, porque a combinação pessoas e filmes costuma ser bastante volátil e imprevisível.

Analisando as facetas da obra fílmica, as autoras identificam os seguintes focos, que relacionam com a análise de conteúdo: gêneros, personagens principais, estrutura / unidade narrativa, natureza da representação da trama, referência histórica, conflito matriz e tema, sequências relevantes e aproximações temáticas dessas sequências, cenografia e adereços, figurino, maquiagem, estúdios e locações, efeitos especiais, som, espaços representados na narrativa, registro temporal da trama (p.187-191).

Minha longa prática profissional com acervo e usuários de filmes confirma a validade do método proposto pelas autoras. A observação direta das questões apresentadas por usuários ao longo de cerca de 10 anos em serviço de referência numa filmoteca me levaram a estabelecer um método de análise que envolve indexar, prioritariamente, os seguintes aspectos dos filmes: gênero e forma, características dos personagens principais, ações (conflito matriz e tema, na terminologia das autoras), local da ação (espaços representados na narrativa), época da ação (registro temporal da trama) e eventos históricos presentes no filme (referência histórica). Esse método está descrito no Manual de catalogação de filmes da Biblioteca da ECA e no primeiro post deste blog, poeticamente intitulado Indexando filmes numa tarde de sexta-feira.

Não costumo analisar os demais focos identificados pelas autoras: estrutura / unidade narrativa, natureza da representação da trama, cenografia e adereços, figurino, maquiagem, estúdios e locações, efeitos especiais e som. É perfeitamente possível identificar esses focos num exercício de caráter acadêmico, desde que se tenha conhecimento teórico suficiente para tanto, mas na prática diária da indexação o procedimento pode onerar demais o processo de tratamento da informação. Uma indexação nesse nível de detalhamento se justificaria somente diante da demanda explícita de um público bastante especializado. De qualquer forma, esse olhar das autoras sobre o processo de indexação de filmes buscando apoio em estudos de teóricos do cinema é muito importante, por trazer bases consistentes para o trabalho prático com acervos de filmes em unidades de informação.

Em sua pesquisa empírica para verificar a possibilidade de aplicação do método das facetas, as autoras concluíram que os focos mais recorrentes são: os conflito-matriz e temas representados nos filmes, personagens principais da trama, gênero cinematográfico e as categorias Espaço e Tempo (p. 198). A conclusão confere com minha prática, mas tendo a considerar que a amostragem selecionada  – 12 alunos de pós-graduação em Ciência da Informação – não foi suficientemente representativa. Além de serem poucos, não estavam indexando numa situação real, ou seja, numa unidade de informação específica com objetivos definidos e público em função do qual realizar a indexação. Penso que indexação sem usuário não faz muito sentido, mas aviso que não entendo nada de estatística, as autoras devem saber mais do que eu!





Indexando filmes numa tarde de sexta-feira

10 12 2011

Indexar filmes é um dos trabalhos mais divertidos e interessantes que os bibliotecários já inventaram para fazer. O que não quer dizer que seja um trabalho fácil.

Um dia desses eu estava às voltas com Mais uma noite , curta realizado por estudantes do Curso de Audiovisual da ECA/USP, produzido pela Escola. À primeira vista não me pareceu conter nenhum problema sério de análise, é um filme com enredo linear e sem grandes complicações, nada comparável aos trabalhos experimentais de difícil compreensão que os alunos às vezes produzem.

Conta mais ou menos a seguinte história: um rapaz e uma moça, ambos muitos jovens, se encontram numa balada. Carol, cansada de ser assediada por garotos que se aproximam já usando as mãos, tenta se livrar um deles abraçando Caio, com quem havia trocado um rápido olhar momentos antes. Os dois conversam um pouquinho. São inteligentes, irônicos e compartilham o mesmo tipo de humor. Um interesse genuíno parece surgir entre os dois mas, enquanto ela vai ao toalete, os amigos dele o convencem a investir numa menina mais fácil de levar para um hotel. A noite termina com os dois voltando para casa com suas respectivas turmas, com alguma decepção no olhar.

Comecei a aplicar o esquema que utilizo para indexar filmes de ficção:

 Caracterização dos personagens principais: profissão, gênero, faixa etária, natureza, etnia, nacionalidade etc.
  Época da ação
  Local da ação
  Ações, eventos, situações

Os personagens aparentam ter algo entre 18 e 20 anos, uma das meninas está na faculdade. Devo chamá-los de “adolescentes” ou de “jovens”?

Identificar, entender, nomear. Três processos importantes para a indexação de imagens, nem sempre de realização simples.

Para a Organização Mundial da Saúde a adolescência vai até os 20 anos, e os personagens me parecem tão infantis que minha tendência inicial é optar por “adolescentes”. Os diálogos e todo o contexto da história indicam que estamos no mundo dos adolescentes, mas talvez meu conceito de adolescente esteja desatualizado, porque não convivo com pessoas dessa faixa etária.

Quando indexamos imagens nossas experiências e visão do mundo interferem de forma mais decisiva na escolha dos termos do que ocorre com outras linguagens.

Enfim, fico com o termo “Adolescentes”. Uma parte dos usuários que recupere esse filme ao buscar “adolescentes” na base de dados vai concordar comigo, outra parte vai pensar que eu não entendo nada de adolescentes. Há que conviver com isso. O termo “Jovens” parece dizer menos sobre o conteúdo do filme, mas enquanto escrevo esse texto mudo de ideia e resolvo colocar os dois.

 Caracterização dos personagens principais Adolescentes

Jovens

Os termos constam do Vocabulário USP, que utilizamos na Universidade de São Paulo para indexar todos os tipos de documentos, em todas as áreas. Essa abrangência tão grande traz alguns problemas, que pretendo comentar em outra oportunidade.

A época não está indicada de forma explícita no filme. Não há letreiros, não há diálogos em que a época seja citada, não há imagens que situem esses personagens no tempo de forma inequívoca. É possível deduzir, pelo forma de falar e de vestir, que a ação transcorre mais ou menos na época em que o filme foi realizado, em 2009. Mas a época, por si só, não é um elemento tão relevante nesse filme que justifique ser um termo para busca. Minha decisão de não considerar esse elemento é consciente, mas também tenho consciência de que, dentro de alguns anos – dez, quinze e até menos – alguém poderá procurar um documento qualquer que retrate o comportamento dos jovens no final dessa primeira década do século 21. Daqui a 15 anos talvez elementos que hoje não me parecem muito característicos da época atual adquiram relevância para o pesquisador. Como saber? Quando vejo filmes que indexei há 15 anos às vezes considero que são bons documentos para analisar a época, às vezes não.

E vamos para o local. O ambiente é urbano, mas não é possível identificar a cidade. E mesmo que fosse possível, a cidade aparece muito pouco no filme, não faria sentido indexar pelo seu nome. Os personagens dizem que estão numa “balada”. Dúvidas me assaltam. Balada é o nome do evento social, algo parecido com “festa” ou com o “baile” de antigamente? Balada também não poderia ser o nome do local? Pergunto para a estagiária, única jovem presente no recinto da biblioteca. Ela acha que a palavra tem os dois sentidos, mas avisa que os adolescentes não estão mais usando o termo. Não sabe qual seria a palavra da moda, mas já foi chamada de velha ao falar em balada, minha estagiária de 20 ou 21anos.

A balada que já existe no Vocabulário USP é uma forma musical, portanto não me serve.Poderia solicitar a inclusão de um novo termo com outra acepção, mas tenho minhas dúvidas quanto a propor um conceito novo difícil de definir, e que amanhã talvez já tenha caído em desuso. Desisto da balada com certa frustração porque afinal, considerando apenas o conteúdo do filme, balada seria um ótimo termo.

E como chamar, afinal, o local onde transcorre quase que a totalidade da ação do filme? É um local onde as pessoas dançam, bebem, paqueram. Um bar, uma boate, uma danceteria? Ainda se usam esses termos? Diante da impossibilidade de pesquisar, porque Mais uma noite não é o único filme que preciso indexar antes da minha jornada terminar, procuro uma solução aceitável no Vocabulário USP. O termo que mais se aproxima é Casas noturnas. Sem muitas alternativas, fico com ele.

 Local da ação  Casas noturnas

O filme trata, sobretudo, do comportamente da juventude em relação a relacionamentos, sexo, namoro, paquera. E também das pressões dos grupos sobre os indivíduos, da necessidade de autoafirmação da molecada. Sim? Não? Estou fazendo interpretações muito pessoais? Talvez, mas não são interpretações descabidas, logo tento encontrar um termo que descreva bem esses assuntos no Vocabulário USP, que não foi concebido para indexar filmes de ficção. Eu preciso usar o Vocabulário USP, não sei se já mencionei.

Encontro o termo “Relações homem-mulher”. Bem, é isso, mas o termo da área de Psicologia parece um tanto sisudo para o nosso filme. Continuo procurando e topo com “Comportamento de corte (humano)”. Anos de prática em indexação me ensinaram que, quando a coisa começa a ficar engraçada, é hora de desistir. Se eu estou achando engraçado, imaginem o usuário … Opto pelo termo mais geral “Comportamento”.

 Ações, eventos etc  Relações homem-mulher

Comportamento

E o que mais? Se eu indexasse de forma mais específica, com o foco em sequências isoladas, gostaria de usar “Pessoas bebendo” e “Pessoas dançando”. Se fosse indexar dessa forma, teria que propor ao Vocabulário USP a incorporação de frases como essas, que são fundamentais para indexar imagens. Mas esse problema fica para o futuro. Por enquanto, a presença de pessoas bebendo ou dançando será sugerida pelo termo que designa o ambiente. É o que dá para fazer.

E aí? Alguém gostaria de discutir minha indexação? Pode ser divertido. Se não estiverem interessados, pelo menos vejam o filme dos meninos:

http://youtu.be/ir7imfwUVQ8

Leituras

Esse modelo para indexação é algo que fui desenvolvendo a partir das perguntas e pedidos dos próprios usuários da coleção de filmes da Biblioteca da ECA. Trabalhei atendendo ao público por mais de 10 anos, numa época em que o usuário se dirigia aos bibliotecários com mais frequência do que acontece hoje, que todos pensam que sabem fazer buscas sozinhos. Trata-se de um método resultante da prática profissional e da interação com o público, mas não é, de fato, invenção minha. É uma forma de indexar, como descobri depois de começar a aplicá-la, bastante usual no campo da indexação de obras ficcionais. Essas facetas são adotadas no Tesaurus for indexing fiction, de Eiler Jansson e Bo Södervall e no Kaunokki: the Finish thesaurus for fiction, experiências escandinavas analisadas por Saarti (p. 89-90). Baseando-se em pesquisa com usuários de bibliotecas públicas, Annelise Pejtersen desenvolveu o método considerado por Lancaster (p. 193) o mais aprimorado para indexação de literatura de ficção, que inclui época, local, conteúdo temático,ação e curso dos acontecimentos entre as dimensões propostas para indexar obras ficcionais (PEJTERSEN, p. 254). Lancaster considera que se pode atribuir um termo de indexação a uma obra de ficção para representar seu tema ou temas centrais, fatos ou situações que ela pode exemplificar e o ambiente em que ela se situa, em suas dimensões espaciais, temporais e de personagem (LANCASTER, p. 190). Um estudo realizado a partir de questões enviadas por e-mail ao Deutsche Film Institute no período de um ano identificou, entre as perguntas relacionadas ao conteúdo dos filmes, local e época como as mais frequentes (HERTZUM, p. 177). O Laboratório de Investigação Audiovisual do Instituto de Arte e Comunicação Social e da Universidade Federal Fluminense propôs um modelo para representação de filmes de ficção do qual fazem parte as facetas gênero, registro temporal da trama, gancho temporal, referência histórica e temas, entre outras. (CORDEIRO e AMÂNCIO, p. 92).

CORDEIRO, Rosa Inês de Novais; AMÂNCIO, Tunico. Análise e representação de filmes em unidades de informação. Ciência da Informação, Brasília, v. 34, n. 1, p. 84-90, jan./abr. 2005.

HERTZUM, Morten. Requests for information from a film archive: a case study of multimedia retrieval. Journal of Documentation, v. 59, n. 2, 2003, p.168-186.

LANCASTER, F. W. Da indexação e redação de resumos de obras de ficção. In.: Indexação e resumos: teoria e prática. Brasília, Briquet de Lemos / Livros, 2004, p. 189-199.

PEJTERSEN, Annelise Mark. The meaning of “about” in fiction indexing and retrieval. Aslib Proceedings, v. 31, n. 5, 1979, p. 251-257.

SAARTI, Jarmo. Fiction indexing and the development of ficcion thesauri. Journal of Librarianship and Information Science, v. 31. n. 2, 1999, p. 85-92.