Quadro para indexação de filmes

19 04 2020

Indexação de filmes é uma atividade complexa, que exige a atenção de indexadores em múltiplos aspectos. Temos que analisar as imagens que se movem, o som, os conteúdos explícitos e os que se escondem fora do quadro, elementos da linguagem audiovisual que nem sempre compreendemos bem. Tudo isso passa pelo filtro da nossa sensibilidade, ideologia, história pessoal, formação, cultura etc, filtro que não podemos deixar totalmente de lado, mas para o qual podemos nos manter alertas e conscientes. Essa não é uma tarefa que se possa fazer intuitivamente, como se entender o cinema ou audiovisual fosse uma capacidade natural, muito menos com pressa, como se nosso trabalho fosse apenas cumprir metas de processamento. Para indexar filmes são necessários critérios muito claros e método de trabalho. 

A experiência de muitos anos indexando e observando o trabalho de outros profissionais e estagiários me fez identificar os equívocos mais comuns nessa prática:

  • excesso de economia de termos, geralmente resultante do medo de chegar a conclusões erradas
  • no lado oposto do primeiro, delírios de interpretação subjetiva produzindo indexação muito pessoal
  • esquecimento de termos óbvios

Para minimizar esses problemas e melhorar a consistência na indexação, criei um quadro para indexação de filmes, inspirado na grade proposta pela Johanna Smit para indexação de imagens fixas (SMIT, 1996; MANINI, 2002). Aproveitei da proposta da Johanna a ideia de usar uma grade como guia para o processo de análise e os conceitos de específico e genérico que ela trouxe da SHATFORD (1986). Depois de alguns testes práticos,  a última versão do quadro ficou assim: 

Neste link vocês podem encontrar o mesmo quadro da imagem acima, em duas versões: vazio, caso vocês queiram aproveitar em suas atividades, e preenchido com exemplos.

Explicando o quadro

As categorias Local da ação, Época da ação, Personagens, e Assuntos tópicos, divididos em Eventos, Ações, Áreas do conhecimento, Conceitos diversos e Sentimentos e emoções são as que usamos para indexar filmes. Foram definidas a partir da nossa experiência no atendimento aos usuários de filmes mas são necessariamente adequadas em outros contextos, em acervos com outros perfis e usuários com outras necessidades. O que é válido para qualquer situação é a ideia de sistematizar e registrar critérios de indexação e métodos de trabalho, para orientar o olhar do indexador.

Nem todas as categorias admitem  a divisão entre termos genéricos e específicos. Para o local da ação, por exemplo, podemos ter praias, no geral, e uma praia específica. O mesmo não se aplica para a época da ação, áreas do conhecimento e outras categorias que não trazem essa subdivisão no quadro. Observemos, além disso, que um filme ambientado na Praia do Forte também pode satisfazer  perfeitamente o usuário que busque imagens de praias em geral. Portanto, o indexador de imagens, tanto fixas quanto em movimento, normalmente usa termos genéricos e específicos para indexar a mesma imagem ou sequência de imagens em filmes. Essa questão fica mais clara observando os exemplos no quadro preenchido.

Filmes podem ser analisados no todo ou em partes sequências, cenas e até planos específicos, dependendo da política de indexação adotada. Assim, ao analisarmos um filme que narre a história de um médico que busca vingar a morte do filho com quem teve uma relação conflituosa, podemos indexá-lo com os termos vingança e relações pai e filho, que corresponderiam ao assunto geral da obra. E se o filme contiver várias sequências ambientadas no hospital mostrando a rotina de trabalho do personagem, podemos também usar os termos hospitais e médicos. O quadro pode ser usado indistintamente para o assunto do filme como um todo e de trechos específicos. 

Recomendo muito cuidado ao indexar filmes usando termos que descrevam sentimentos e emoções, porque é a categoria na qual a subjetividade do indexador interfere com mais força. O erro mais comum é confundir o assunto do filme com o efeito causado em nossa própria sensibilidade. É preciso não esquecer que a ideia é identificar sobre que é o documento que estamos indexando – assunto é isso. Um filme que nos traz alegria não é, necessariamente, um filme sobre a alegria. Como essa distinção nem sempre é fácil de realizar, o mais prudente, quando se trata de emoções, é nos atermos ao que é efetivamente dito e mostrado de forma explícita no documento.

O que falta

Há duas categorias que tenho muita vontade de incluir no quadro, mas que ainda requerem mais estudos e amadurecimento:  linguagem cinematográfica e temas clássicos do cinema.

O primeiro é o mais complicado, já que exigiria, em princípio, conhecimentos técnicos sobre montagem, fotografia, narrativa etc. que poucos indexadores bibliotecários teriam. Além disso, a indexação nesse nível só seria interessante para um público bastante especializado.

Quanto ao que estou chamando de “temas clássicos do cinema” por não encontrar um nome melhor, acredito ser uma categoria mais fácil de tratar e de utilidade para um público bastante amplo e heterogêneo. Todos nós temos uma boa noção do que seja um filme sobre a luta do bem contra o mal, por exemplo, porque já assistimos a centenas de filmes que tratam desse tema. Temos ainda aqueles filmes que mostram um personagem que enfrenta sozinho toda uma coletividade que está contra ele, ou o estranho que chega e desestrutura uma família, sobre o outsider que precisa recuperar seu lugar no mundo, mulheres em conflito com a maternidade, personagens que foram escolhidos para cumprir uma missão, personagens obcecados por resolver um mistério etc.

Experimentem entrar na Internet Movie Database e fazer uma busca por um assunto muito popular como amor ou morte como palavra-chave. Entre as palavras-chaves mais populares atribuídas pelos usuários da base vamos encontrar triângulo amoroso, amor à primeira vista, carta de amor, morte do pai, morte da mãe, morte em massa etc. 

Não é tão difícil, penso, criar uma lista básica de temas importantes para indexar um acervo de filmes – tomando cuidado para não inventar nada muito complicado. Uma lista de poucos termos, com definições ou notas de escopo claras, estabelecida a partir de pesquisa com usuários e consulta em fontes especializadas seria uma ferramenta útil para indexadores de obras audiovisuais. Vou trabalhar nisso e aceito contribuições.

Como usar

Minha proposta não é preencher um quadro desses para cada documento a ser indexado. Isso dificilmente seria viável.  Sugiro usá-lo em treinamento de indexadores, em atividades ocasionais para acertar procedimentos com a equipe ou nos casos em que o indexador estiver com dúvidas. De qualquer forma, mesmo que não se faça o preenchimento sistemático do quadro, é interessante consultá-lo regularmente.

Convido os colegas que se animarem a testar a me enviarem suas impressões e sugestões.

 

Referências

MANINI, Miriam Paula. Análise documentária de fotografias: leitura de imagens incluindo sua dimensão expressiva. In.: REPOSITÓRIO Institucional da UnB. Brasília: Universidade de Brasília, 2004. Disponível em 
http://repositorio.unb.br/handle/10482/946. Acesso em 10 abr. 2020.

SHATFORD, Sara. Analyzing the subject of a picture: a theoretical approach. Cataloging and Classification Quarterly, New York, v. 6, n. 3, p. 39-62, 1986.

SMIT, Johanna W. Propositions for the treatment of iconographical information. In: CONGRESO INTERNACIONAL DE INFORMACION – INFO’97, 1997. Havana. Textos completos. Havana: IDICT, 1997. p. 1-14.

 

 

 

 

 





Voltando a catalogar filmes numa sexta-feira à tarde

31 12 2019

No primeiro post deste blog relatei a experiência de indexar filmes, na prática, no cotidiano real de uma bibliotecária que conhece esse trabalho, com todas as dúvidas e questões inerentes à atividade.

Hoje, depois de alguns anos na referência, retomo a catalogação de filmes, para ajudar as colegas do tratamento da informação, quase sepultadas por diversas camadas sedimentares de DVDs que, à medida em que a mídia se torna rapidamente obsoleta, chegam todos os dias em doação.

O filme escolhido para essa minha “retomada” foi Os náufragos do Louca Esperança, uma produção do Théâtre du Soleil dirigida por Ariane Mnouchkine, lançada no Brasil pelo selo SESC. E foi uma ótima escolha para reflexões sobre indexação, que vou tentar apresentar aqui.

Mas antes uma observação sobre o processo de catalogação. Para obter todos os dados necessários a uma descrição decente do filme, consultei as seguintes fontes:

os créditos do próprio filme (naturalmente)

o registro da Internet Movie Database, em geral uma das melhores fontes para esse tipo de informação

o site do SESC (link no segundo parágrafo)

o material impresso que acompanha o DVD

E não adianta reclamar, geralmente é assim que se faz. São raros os filmes e outros documentos da grande categoria imagens em movimento que a gente consegue catalogar direito sem consultar várias fontes. Até mesmo a regra geral de considerar o próprio filme nem sempre é totalmente válida, já que erros em créditos de filmes não são raros, nem todas as informações importantes estão lá e, para piorar, letreiros em vídeos, DVDs e documentos postados na internet às vezes estão mutilados. Se seu professor ou professora de catalogação não explicou isso, relevem – o professor não deve ter botado a mão na massa como eu.

Os náufragos do Louca Esperança é a versão cinematográfica de uma peça do Théâtre du Soleil, livremente adaptada de um romance póstumo de Júlio Verne, montada originalmente em sua sede na Cartoucherie do bosque de Vincennes (Paris), em 2010,  e apresentada no SESC Belenzinho em 2011. A filmagem aconteceu no teatro de Paris, segundo informação do encarte do DVD.

A história é mais ou menos assim: uma pesquisadora está escrevendo sua tese sobre um filme mudo baseado no livro de Verne do qual participaram como atores dois antepassados seus, rodado de forma improvisada num cabaré no início do século 20, às vésperas da Primeira Guerra Mundial. Logo no início ela descobre que o cabaré Fol Espoir (Louca Esperança) foi destruído, mas encontra o roteiro do filme. Enquanto ela escreve seu trabalho, vemos ser rodado o filme, que conta a história de um grupo de emigrantes que naufraga numa numa ilha da Terra do Fogo, onde tenta criar um novo modelo de sociedade. Seus dois filhos e uma outra criança, um órfão refugiado que passa a noite com a família assistem a tudo e, eventualmente, participam da ação. Então, temos uma narrativa que conta a história de um  filme baseado num romance, dentro de um filme que é adaptação de uma peça teatral. Mais ou menos como aquelas bonecas russas.

 

E mais, temos a dimensão da memória (ou da fantasia) que se funde com a dimensão do real. Isso tudo quer dizer que, se você não tem problemas a resolver na indexação, você não está indexando direito. Vamos ver.

As características mais importantes desse filme, para fins de indexação, não são assuntos (sobre o que é o filme), mas estão na esfera do  como é ou como foi feito o filme, o que inclui gênero, forma, técnica e linguagem cinematográfica. Os náufragos do Louca Esperança é uma adaptação de peça teatral e contém, isolando apenas uma das bonecas russas, um filme dentro de um filme.

O primeiro aspecto é fácil de resolver num catálogo, já que uma lista de gênero e forma é uma ferramenta básica que toda biblioteca com acervo de filmes deve ter. Sim, isso é item obrigatório na indexação de filmes, e até o formato MARC tem um campo específico para essa informação. Logo, embora adaptação teatral não seja, a rigor, um gênero cinematográfico, o termo cabe perfeitamente numa lista de gênero e forma. No Vocabulário USP inserimos termos para diversos tipos de adaptações, vejam aqui e adotem, se acharem pertinente.

Já o conceito de “filme dentro do filme” pode apresentar algumas dificuldades no mundo das bibliotecas. Não é assunto nem chega a ser um gênero. De acordo com o AMC Filmsite, em seu glossário de termos, trata-se de um tipo de narrativa, uma forma de contar a história. A busca de filmes por termos relacionados à linguagem, técnica ou narrativa cinematográficas, bem como certos temas típicos do cinema, é bastante comum entre usuários que têm alguma intimidade com esse universo, como explico neste post, no qual analiso os resultados de uma pesquisa que realizei há alguns anos com estudantes da Escola de Comunicações e Artes da USP. Observem quantos filmes são recuperados pela palavra-chave “film within a film” na Internet Movie Database. Ainda não temos, no Vocabulário USP, esse e outros termos da mesma “família”, como “narrativa não linear”, “final aberto” ou “final feliz”. Não tenho certeza de como poderemos encaixá-los na hierarquia do Vocabulário, mas pretendo encontrar uma solução. Afinal, organizar acervos de filmes em tempos de streaming e torrents exige algum esforço para fazer a diferença em termos de qualidade na recuperação da informação, o que implica ir fundo em questões específicas da linguagem do audiovisual.

Continuando o processo de acordo com a grade que usamos para indexar filmes sem perder muito o rumo, passei a identificar ações, eventos, conceitos, personagens, local e tempo da ação. E me deparei com a necessidade de analisar tanto o filme quanto o filme dentro do filme.

Uma explicação necessária: a maneira mais correta e segura de indexar um filme é assisti-lo na íntegra. Entretanto, dificilmente é viável fazer isso em nossa jornada normal de trabalho, sobretudo quando o material tem várias horas de duração, como é o caso do DVD sobre o qual escrevo. Consegui ver apenas algumas partes d’Os náufragos do Louca Esperança, completando as lacunas com a leitura de fontes externas confiáveis. Portanto, é muito provável que alguns conceitos importantes tenham escapado à minha análise, que será enriquecida  com a ajuda dos usuários ou se, em algum momento, eu decidir assistir ao filme em meus momentos de lazer, em casa.

Ações, eventos, conceitos

Filmagem e Cinema mudo são, no meu ponto de vista, claramente termos adequados para descrever esse documento. Em sua quase totalidade, o filme mostra um filme da época do cinema mudo sendo rodado. Vemos as instruções do diretor, o trabalho dos atores, a montagem dos cenários, a operação de equipamentos, a criação dos efeitos especiais etc. É o filme dentro do filme sendo realizado. Mas, e o naufrágio? Embora seja um dos assuntos do filme dentro do filme, dizer que estamos de fato vendo um naufrágio é polêmico. O que vemos é a representação de um naufrágio encenada num espaço fechado. Observem este trecho:

Bem, mas no cinema não é sempre assim, os eventos não são todos resultado de uma cuidadosa encenação? Num filme como o Titanic de James Cameron é evidente que não estamos vendo as imagens do naufrágio real do famoso navio, mas isso de fato não importa para o espectador – e nem para o indexador. A indexação de filmes é um processo que se dá no nível da diegese, ou seja, da realidade fictícia que foi construída pela técnica e linguagem cinematográficas. Quando a câmera se aproxima do barquinho cenográfico na sequência mostrada acima, não vemos realmente um navio sacudido pelas ondas? Não existe resposta certa para essas indagações. A decisão vai depender dos critérios de indexação adotados na instituição e do olhar crítico do indexador.

Seria interessante, talvez, usar o termo utopia, já que os náufragos tentam criar um novo tipo de sociedade mais justa, mas para isso eu precisaria ver o filme com mais atenção.

Personagens

Características dos personagens principais, como profissão, faixa etária, gênero e outras são interessantes para recuperação. Nesse nosso filme, identificamos facilmente a presença significativa de atores, um diretor de cinema e três crianças. A mãe das crianças e narradora da história não me pareceu relevante para fins de indexação, pois aparece pouco em seus papéis de mãe e pesquisadora. E no filme dentro do filme temos os náufragos e o capitão do navio.

Local e tempo da ação

A história se desenrola em Paris, numa casa de família, aparentemente na época da realização do filme – anos 2000 (primeiro nível). A narrativa da mãe das crianças acontece na mesma cidade, em 1914, num cabaré (segundo nível). O filme dentro do filme se passa num navio, em pleno mar, e numa ilha da Terra do Fogo, no final do século 19 (terceiro nível). Entretanto:

Paris não aparece

Não identifiquei elementos relevantes na caracterização da época atual

Nem a casa de família  nem o cabaré estão caracterizados de forma clara e relevante para a recuperação da informação

O navio e a Terra do Fogo também não aparecem, apenas são sugeridos pela cenografia do filme dentro do filme

Optei, em função dos critérios de duração na tela e presença de elementos culturais que considerei interessantes, por destacar a época da filmagem (Século 20 – Década de 10)  e do filme dentro do filme (Século 19 – final). Quanto ao navio, valem as mesmas considerações que fiz sobre o naufrágio, mas optei por usar o termo – embora cheia de dúvidas – porque as imagens sugerem a ideia de navio de maneira muito forte.

Conclusão

Para indexar filmes precisamos atentar a diferentes aspectos:

as imagens (sobretudo)

o som (trilha sonora e musical)

a história que é contada ou os eventos e conceitos que são analisados

a forma pela qual a história é contada

E quando analisamos um filme como Os náufragos do Louca Esperança observamos, ainda, que um filme pode se organizar em diferentes “camadas”, como realidade, fantasia, delírio, narrativas dentro do núcleo principal etc, e que qualquer ação, objeto, personagem, ambiente ou período histórico pode ser representado de várias formas não realistas. O indexador precisa estar consciente dessas questões e levá-las em consideração em seu processo de análise, embasando suas decisões, sempre que possível em políticas de indexação institucionais.

Às vezes penso que deveríamos sofisticar um pouco mais nossas velhas técnicas de indexação e acrescentar, por exemplo, qualificadores ou filtros que esclareçam o tratamento dado nos filmes aos elementos que decidimos indexar. Por exemplo: assassinato realista, naufrágio sugerido, explosão na trilha sonora etc.

Difícil? Talvez. Mas o que é realmente difícil é atender aos pesquisadores usando catálogos obsoletos e técnicas inadequadas e tentar convencê-los de que nosso trabalho é importante e que ainda não pode ser realizado totalmente por máquinas.

 

 

 

 

 





Indexação de imagens e expressão fotográfica

30 01 2019

colaboração: José Estorniolo Filho

Quando observamos uma fotografia, não vemos apenas o objeto fotografado, vemos o resultado de uma série de decisões técnicas e estéticas do fotógrafo, que seleciona entre os recursos oferecidos pelos equipamentos os que mais se prestam a expressar sua individualidade de artista ou, simplesmente, a fazer o registro mais fiel ou interessante do objeto.

Diferentes enquadramentos ou posição da câmera, uso de lentes ou filtros especiais, por exemplo, podem gerar imagens bastante diferentes entre si, como se pode ver nessas fotos da Torre Eiffel:

foto 1 – Chris Khamken (Flickr)

foto 2

foto 3

foto 4

Essas diferenças entre imagens do mesmo objeto podem ser decisivas para a escolha do usuário. Se eu preciso de uma foto que mostre a torre por inteiro, com seu entorno visível, as melhores opções serão as fotos 2 e 4; as fotos 1 e 3 podem interessar mais a alguém em busca de uma visão “diferente” da torre.

Não é difícil entender, portanto, que a expressão fotográfica, termo cunhado por Johanna Smit para designar o conjunto de recursos técnicos e estilísticos que integram a linguagem utilizada pelos fotógrafos, tem impacto sobre a recuperação da informação e deve ser levada em conta no momento da descrição das imagens para fins de indexação (SMIT, 1997). O tema da incorporação da expressão fotográfica à análise documentária de imagens também foi explorado por Miriam Manini, que prefere o termo dimensão expressiva (MANINI, 2004). As duas autoras  elaboraram propostas de sistematização dos elementos da expressão fotográfica  destinados ao uso no processo de indexação. Estorniolo Filho (2004), em seu trabalho de conclusão de curso orientado por Johanna Smit,  apresentou um quadro no qual priorizava os efeitos visíveis na imagem, e não a técnica usada para obtê-los. Vejam aqui as três propostas.

A ideia de introduzir a análise da expressão fotográfica no universo do tratamento de imagens parece excelente, mas, até o momento, não encontramos na literatura autores que tenham avançado na discussão desse tema. 

 Na base de dados Library & Information Science Abstracts (LISA), a busca por artigos publicados nos últimos 5 anos sobre os assuntos “indexing images” e “indexing photographs” recuperou 37 itens, dos quais 23 abordam, predominantemente,  aspectos relacionados à recuperação automática. Na base SCOPUS, que é multidisciplinar, a mesma busca resulta em mais de 1101 artigos. Não fizemos a análise de cada artigo recuperado, devido à grande quantidade, mas o filtro da base mostram que são, indica, majoritariamente,  das áreas de ciências da computação, engenharia e matemática. A julgar por esse resultado,  as questões da análise e recuperação das imagens podem estar migrando para a área da computação, no âmbito do desenvolvimento das ferramentas automáticas.

De fato, é provável que a rápida evolução dos sistemas automáticos seja a solução mais viável para a recuperação da informação em grandes bases de dados da web, e isso não é ruim. O que preocupa é a possibilidade de que os pesquisadores e bibliotecários estejam abandonando a necessária reflexão sobre o tema do olhar humano sobre as imagens.

Também não encontramos relatos sobre a prática da indexação por elementos da expressão fotográfica em acervos de imagens, embora alguns termos isolados estejam sendo usados em bancos de imagem disponíveis na web. 

Na prática

Para que a análise da expressão fotográfica seja realizável na prática da indexação de imagens, algumas dificuldades precisam ser resolvidas:

  • estabelecer quais elementos da expressão fotográfica podem ser identificados a partir da análise de imagens que o indexador, em geral, não sabe como foram produzidas
  • identificar que elementos terão utilidade prática para o público da coleção, considerando que termos técnicos nem sempre são compreendido por leigos
  • padronizar a terminologia, criando uma lista de termos com suas definições, destinada a ser usada pelos indexadores.
  • formar indexadores com o mínimo de informação técnica indispensável para a análise da expressão fotográfica.

É fácil notar que a imagem acima tem características bem marcantes que deveriam ser apontadas na indexação. Mas como saber que técnica foi usada em sua produção? Há só uma maneira de obter esse efeito? Como devo nomeá-lo? São questões difíceis de serem respondidas sem algum conhecimento técnico.

Identificar corretamente o efeito que vemos numa imagem é importante, mas não suficiente. Na prática de indexação é preciso selecionar quais elementos da expressão fotográfica serão indexados e que termo será usado para representá-lo. Vamos tomar como exemplo as fotografias com pouca profundidade de campo, nas quais apenas os elementos que aparecem em primeiro plano estão nítidos, enquanto o fundo não está em foco. Como esta:

Se o indexador concluir que vale a pena destacar essa característica, terá pela frente a tarefa de escolher qual termo vai adotar: sem profundidade de campo, baixa profundidade de campo, fundo desfocado.

São decisões que dependem no contexto: finalidade da coleção, perfil do usuário, possíveis formas de uso, infraestrutura e condições práticas de trabalho.

Indexação e recuperação automática

A tecnologia dos mecanismos de busca da internet procura atender à demanda por imagens com características visuais específicas por meio do recurso da busca por similaridade. Assim, quem busca pelo termo “multidão” no Getty Imagens recupera imagens tão diferentes quanto estas:

Getty Images

Um botão “Imagens semelhantes” permite que o usuário, em princípio, encontre mais imagens que atendam às suas necessidades. O resultado, entretanto,  pode não ser exatamente o que se espera. Para esta esta imagem, por exemplo:

Getty Images

A busca por semelhança devolveu uma série de images de torcedores semelhantes apenas pelo tema e pela presença dos braços erguidos, como esta:

Getty Images

Nesse caso, uma análise correta da expressão fotográfica, realizada por indexadores humanos a partir de uma lista padronizada de termos traria muitos benefícios à recuperação da informação.

No Flickr, site de compartilhamento e hospedagem de imagens, os usuários podem inserir tags tanto em suas próprias fotos quanto nas dos demais. Além disso, existe a atribuição de tags por um robô. As tags automáticas incluem até mesmo elementos de expressão fotográfica, mas não há consistência na indexação. O termo “profundidade de campo” de campo, por exemplo, foi atribuído a esta foto:

mas não a outras imagens com as mesmas características, como a do lagarto mais acima e esta:


Os usuários do serviço são orientados a analisar as tags automáticas e rejeitá-las, caso não estejam de acordo ou identifiquem erros de reconhecimento de imagem, contribuindo, dessa forma, para aprimorar a ferramenta.

Um dos problemas do Flickr, bem como de de outros ambientes colaborativos do mesmo tipo, é a falta de orientação para a atribuição de tags. Indexar imagens, mesmo que sejam as nossas próprias, não é uma tarefa que se resolva de forma totalmente intuitiva. Se não houver um método ou, pelo menos, alguns critérios, não haverá consistência na indexação. A recuperação de imagens no Flickr seria bem mais eficiente se o serviço oferecesse orientações simples para a atribuição de termos, complementadas por exemplos visuais. Dessa forma, o usuário teria mais condições de atribuir tags melhores para suas fotos e analisar com mais propriedade as tags automáticas. O robô indexador é um instrumento poderoso, mas é o olhar humano crítico que vai fazer a tecnologia se desenvolver.

Como ficamos?

Apesar do aparente desinteresse – ou incompreensão – dos profissionais e pesquisadores da área de indexação, análise da expressão fotográfica merece atenção e estudo. Basta ser usuário de imagens para perceber que as escolhas técnicas e estilísticas do fotógrafo definem o resultado final de uma fotografia.

Preferimos o termo expressão fotográfica por remeter ao universo específico da técnica e da linguagem fotográficas. Dimensão expressiva pode se referir, a rigor, a qualquer aspecto de uma imagem.

O trabalho de análise da expressão fotográfica, identificação dos elementos e padronização de terminologia não é simples. Mas como nada é exatamente simples no universo do tratamento documentário de imagens, as dificuldades não devem nos intimidar.

A primeira coisa que um profissional que se proponha a indexar acervos de imagens fotográficas precisa entender é a própria fotografia. Conhecimentos mínimos da técnica, história, linguagem e conservação são fundamentais. Não é indispensável – embora seja interessante – fazer um curso de fotografia. A leitura de um bom manual de fotografia e a experiência de manusear uma câmera, entender seu funcionamento e fotografar o mundo ajuda bastante. Mas, atenção: é bom usar uma câmera com um pouco mais de recursos do que um smartphone.

Para profissionais com experiência ou, pelo menos, reflexão teórica sólida sobre o indexação de imagens, além de conhecimentos mínimos de fotografia, o desafio é criar um tutorial para auxiliar os indexadores na identificação dos elementos da expressão fotográfica. Um guia visual, com bons exemplos de imagens, definições e sugestões de caráter terminológico. Estamos fazendo alguns ensaios, aguardem novidades.

Referências

ESTORNIOLO FILHO, José. A representação da imagem: indexação por conceito e por conteúdo. 2004. Trabalho de conclusão de curso (Bacharelado em Biblioteconomia) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2004. Disponível em: http://www3.eca.usp.br/sites/default/files/form/ biblioteca/acervo/textos/tc1627-estorniolo_filho.pdf. Acesso em 4. fev. 2019

MANINI, Miriam Paula. Análise documentária de fotografias: leitura de imagens incluindo sua dimensão expressiva. In.: REPOSITÓRIO Institucional da UnB. Brasília: Universidade de Brasília, 2004. Disponível em 
http://repositorio.unb.br/handle/10482/946. Acesso em 11 dez. 2018.

SMIT, Johanna W. Propositions for the treatment of iconographical information. In: CONGRESO INTERNACIONAL DE INFORMACION – INFO’97, 1997. Havana. Textos completos. Havana: IDICT, 1997. p. 1-14.

Créditos das fotos

Os créditos estão nas legendas das imagens. As images não legendadas são de autoria de José Estorniolo Filho ou Marina Macambyra.





Arquigrafia: uma coleção de imagens da arquitetura brasileira

17 02 2018

A carência de ferramentas adequadas para tratar e compartilhar imagens de forma profissional é notável em nosso país. No ambiente das bibliotecas, com suas velhas regras e foco eternamente em documentos textuais,  boas iniciativas ainda são poucas.

E o que seria um bom catálogo de imagens? Basicamente, um sistema que mostre prioritariamente as imagens, com boa qualidade, descritas com metadados específicos para imagens e indexadas de acordo com métodos e vocabulários controlados pensados para documentos fotográficos já seria um bom começo. O pesquisador de imagens que se deparar com um registro MARC cheio de informações inúteis para ele, com um link remetendo a uma imagem que demora a carregar vai fugir decepcionado para as montanhas.

O Arquigrafia, fruto de um projeto de pesquisa multidisciplinar coordenado por um professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, escapa da maldição do banco de imagens que mais parece um catálogo de livros. Trata-se de um “ambiente colaborativo” criado para compartilhar imagens de obras arquitetônicas e  espaços urbanos brasileiros, que tem os seguintes pontos fortes:

é um sistema que leva em consideração a visão do usuário especialista na área e privilegia as informações importantes para esse público

as imagens são exibidas de forma agradável e amigável

colaborativo, permite que qualquer interessado no assunto faça um cadastro e insira suas imagens

a interface de catalogação é fácil de usar

tem aplicativo móvel

tem ferramenta para interpretação da obra arquitetônica que deve permitir, futuramente, a busca por semelhança

Os pontos fracos são aqueles típicos dos sistemas colaborativos de compartilhamento de imagens: faltam orientações e critérios mínimos para descrição das imagens. Não me refiro àquelas complicadas regras de catalogação que os bibliotecários adoram, que nem seriam necessárias dentro da proposta do Arquigrafia, mas a algumas convenções básicas poderiam ser adotadas na descrição das imagens. Vamos ver alguns exemplos.

Atribuição de títulos

Como nomear uma foto de detalhe? Altar da Igreja de São Francisco de Assis ou Igreja de São Francisco de Assis: altar?

Se na imagem o que realmente aparece é a marquise do Parque do Ibirapuera, o título deve ser: Parque do Ibirapuera ou Marquise do Parque do Ibirapuera ou Parque do Ibirapuera: marquise?

No campo descrição

É realmente necessário iniciar a descrição com a expressão “vista do“? Quando é necessário especificar se é uma vista geral ou parcial, faz sentido. Caso contrário, é redundância. É uma fotografia, logo, é uma vista.

A utilidade de um  texto descritivo ao lado de uma imagem é, sobretudo, esclarecer aspectos que não estão evidentes na própria imagem. Explicitar os elementos presentes na imagem e sua distribuição espacial, informando o nome daquele chafariz que aparece em primeiro plano ou explicando que as as paredes são de adobe, por exemplo. Apenas repetir a informação que está perfeitamente evidente na própria imagem e no seu título é inútil. Na mesma linha de raciocínio, é interessante informar dados históricos que esclareçam aspectos da imagem, como  a alteração da fachada em  reformas posteriores, ou o fato do piso não ser original. Mas será que é realmente importante inserir no campo descrição um histórico completo da obra ou local fotografado, como se o registro fosse um verbete da Wikipedia?

 

Muitas imagens do Arquigrafia são fotos ou slides antigos digitalizados, já que o acervo da Biblioteca da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo também está sendo registrado na plataforma. É muito comum encontrarmos imagens com sinais de deterioração. Seria interessante que, na descrição ou num campo específico a ser criado, fosse inserida a observação de que a imagem está desbotada e o colorido original da obra está alterado. Pode parecer óbvio, mas como nem sempre a deterioração é evidente aos olhos dos leigos, é interessante alertar. Se a informação quanto ao estado de conservação for registrada em campo específico, poderá ser usada como filtro na busca, permitindo que o usuário exclua imagens desbotadas.

Critérios para indexação

Indexar imagens não é exatamente brincadeira de crianças. Se mesmo profissionais treinados e experientes vacilam e cometem erros clássicos, certamente não se pode esperar consistência ou precisão de usuários sem formação específica. O Arquigrafia já tem uma lista de tags pré-determinadas para ajudar o usuário em suas escolhas, e a equipe tem planos de melhorar o controle vocabular, mas o problema não é só a normalização dos termos. Quando indexamos imagens um dos grandes desafios é decidir quando vamos atribuir determinado assunto e como manter a consistência nas escolhas que fazemos ao longo do tempo.

Um dos erros mais comuns é confundir o local onde foi feita a foto com o assunto da foto. A imagem abaixo, publicada no Arquigrafia, foi feita na marquise do Parque Ibirapuera, mas nela o local realmente aparece de forma reconhecível? Um eventual usuário em busca de informações visuais sobre a dita marquise consideraria útil essa imagem que mostra, sobretudo, um patinador em movimento num  espaço quase vazio? Poderíamos, naturalmente, dizer que a resposta depende do tipo de uso a ser feito da imagem. Pela sua força expressiva, a fotografia poderia ser usada numa peça publicitária ou num cartaz de filme sobre o parque, por exemplo, mas o fato é que a marquise do Ibirapuera quase não aparece na imagem.

Foto de Beatriz Mendes Costa e Natália Andrade.

Acredito ser importante estabelecer um critério e orientar os usuários nesse sentido, para evitar recuperação de imagens irrelevantes. Afinal, é razoável esperar de uma biblioteca de imagens especializada algum rigor na indexação. Mas sei perfeitamente o quanto isso é difícil de ser colocado em prática.

Um outro ponto complicado é o nível de detalhamento na indexação. Ao analisar imagens, é importante considerar os diversos elementos visíveis na cena ou objeto fotografado, mas também é preciso saber desconsiderar detalhes pouco pertinentes. Indexar cada centímetro da imagem pode gerar excesso de informações de pouca utilidade para os usuários. Na imagem abaixo estão visíveis uma árvore, uma pomba e condicionadores de ar nas janelas do prédio, mas é pouco provável que inserir tags para esses elementos tenha algum interesse para quem pesquisa.

Foto de Larissa França Peres

Já a identificação de elementos técnicos da construção de um edifício, ainda que bastante específicos aos olhos de um leigo, podem ser importantes para o especialista,  como mostra a escolha de tags para a imagem abaixo: colônia de férias, sindicato, lazer, centro recreativo, quadra poliesportiva, canteiro de obras, coluna, laje
nervurada, concreto, concreto armado, vão.

Foto do acervo da Biblioteca da FAU

O usuário sem formação em arquitetura terá dificuldades em indexar usando termos técnicos ou usar a ferramenta de interpretação arquitetônica. Um glossário visual dos conceitos básicos da área seria útil, mas, sinceramente, não sei se é viável.

Num acervo colaborativo será impossível evitar decisões diferentes  quanto ao nível de especificidade na indexação, pois cada usuário terá o seu próprio olhar sobre as imagens, condicionado por suas experiências, conhecimento de arquitetura, lógica pessoal etc. Entretanto, acredito que, se forem oferecidas na plataforma orientações básicas e simples para guiar os colaboradores  na atribuição das tags, será possível melhorar um pouco a consistência na indexação.

Um dos conceitos clássicos da análise de imagens,  como aponta Sarah Shatford, é a capacidade que tem uma imagem de representar ao mesmo tempo um objeto específico e uma categoria genérica à qual esse objeto pertence. O assunto de uma foto da Praça da Sé, por exemplo, é tanto Praça da Sé quanto praças. Muitos usuários do Arquigrafia devem intuir isso e indexam as imagens postadas tanto pelo nome específico quanto pela categoria geral, mas nem todos. Seria bastante bem-vinda uma orientação nesse sentido.

Georreferenciação

Ao subir uma imagem por meio do aplicativo móvel, a localização é dada automaticamente pelo Google Maps. O recurso é ótimo, mas só funciona adequadamente se a imagem for postada no local onde foi registrada. Se o usuário fizer o upload em outro local, a georreferenciação ficará errada. Apesar de ser um fato óbvio, muitos usuários não se dão conta disso. Seria útil que o sistema desse um alerta no momento do upload, lembrando que é possível editar e corrigir a localização caso não esteja realizando a postagem no local da tomada da foto.

Adequação das imagens aos objetivos da coleção

Pode parecer evidente, a qualquer ser humano razoável, que a foto de um cachorro ou de um armário de roupas não tem qualquer interesse para uma coleção de imagens de arquitetura brasileira. Está explícito no texto do projeto: “imagens digitais de edifícios e espaços urbanos do Brasil e da comunidade lusófona”.  Não parece difícil de entender (nem de aceitar), mas parece que alguns colaboradores imaginam que seu cachorro ou suas camisetas se enquadram nessa definição. Um controle mínimo de qualidade se faz necessário, portanto,  para preservar as características do projeto.

Observações finais

O Arquigrafia é um trabalho em construção, e tenho certeza de que, apesar das dificuldades inerentes aos projetos tocados com verbas de agências de financiamento de pesquisa, sem pessoal fixo nem dotação orçamentária, ainda vai evoluir bastante. A equipe, da qual fazem parte bibliotecárias da FAU/USP e professoras do Curso de Biblioteconomia da ECA/USP está sempre aberta a sugestões, e eu mesma já dei meus palpites.

A plataforma é aberta a todos que se disponham a compartilhar imagens de arquitetura brasileira. Para participar, basta fazer um cadastro. Não é necessário ser arquiteto, nem estudante de arquitetura, nem fotógrafo. Por esse motivo, considero o Arquigrafia como uma boa oportunidade para professores e estudantes interessados em tratamento documentário de imagens testarem suas habilidades e conhecimentos na prática, travando contato com um sistema de concepção moderna, que busca dialogar tanto com o especialista quanto com os interessados leigos no assunto. Dá para pensar bastante em diversas questões relacionadas ao universo da catalogação e indexação de fotografias, contribuindo, ao mesmo tempo, com a formação de uma bela coleção de imagens de arquitetura brasileira. Sem esquecer, é claro, do cuidado indispensável com a qualidade e pertinência das imagens e informações postadas.

Referência

SHATFORD, S. Analyzing the subject of a picture: a theoretical approach. Cataloging & Classification
Quarterly, v.6, n. 3, p. 39-62,1986.

Mais informações sobre o projeto do Arquigrafia: http://www.arquigrafia.org.br/project

 

 

 

 

 

 

 

 

 





A linguagem secreta do cinema

2 01 2018

O livro Jean-Claude Carrière, A linguagem secreta do cinema, é uma ótima leitura para quem tem vontade ou necessidade de aprender um pouco sobre cinema. Bibliotecários ou arquivistas que trabalhem com acervos de filmes e não tenham formação específica em cinema, estudantes querendo fazer um trabalho sobre organização de filmes e curiosos sobre o assunto em geral podem ler sem susto.

O texto é simples e de leitura agradável, tratando de técnica sem ser técnico, de linguagem e estética sem ser hermético nem chato. Mas não imaginem que seja um livro superficial ou bobinho, não é nada disso. O autor é um roteirista consagrado, que trabalhou com Luis Buñuel, Nagisa Oshima e Louis Malle e foi diretor da École Nationale Supérieure des Métiers de l’Image et du Son, uma importante escola de cinema francesa. Ele, obviamente, sabe do que está falando. Não é somente um teórico, é alguém que teve a mão na massa a vida toda.

Como bibliotecária audiovisual e ex-“filmotecária”, o que mais me chamou a atenção no livro foram os conceitos que provocam reflexões sobre a análise documentária de filmes: o espaço e o tempo nos filmes, o que vemos e deixamos de ver, a questão da realidade no cinema, a função do roteiro e da montagem etc.

No filme Esse obscuro objeto do desejo, dirigido por Luis Buñuel, a mesma personagem é interpretada por duas atrizes bastante diferentes, Angela Molina e Carole Bouquet. Curiosamente, segundo Carrière, muitos espectadores não se deram conta dessa particularidade.

(…) será que não abrigamos, no fundo de nós mesmos, algum tabu, ou hábito, ou incapacidade, ou obsessão, que nos impede de ver o todo ou uma parte do audiovisual que cintila fugazmente diante de nós? (p. 10).

São fenômenos como esse que são descritos e analisados no livro. Vou destacar aqui alguns trechos que me pareceram particularmente interessantes.

Explicando o que está diante dos olhos

Carrière conta que, em nos primórdios do cinema, na Espanha e em alguns países africanos, havia a figura do  explicador de filmes,  um indivíduo que ia explicando para a platéia o que se passava na tela. Do contrário, pessoas de cultura predominantemente oral não conseguiriam entender as imagens sem som (e em preto e branco) que se sucediam diante de seus olhos.

Isso ocorria porque o cinema criou uma linguagem completamente nova, que poucas pessoas conseguiam entender rapidamente, em seu início. O autor enumera, ao longo do livro, vários exemplos dessa incompreensão: o famoso susto dos espectadores da primeira sessão de cinema com o trem que avançava em sua direção; a população de uma aldeia argelina que não entendeu um documentário sobre uma doença que os afetava e que era transmitida por uma mosca, porque eles não tinham moscas daquele tamanho; os caçadores de hipopótamos que acharam errada a música deles mesmos que o cineasta Jean Rouch usou como fundo, porque se eles tocassem música durante a caça, os hipopótamos fugiriam.

Mesmo hoje, que a linguagem do cinema é parte do nosso dia-a-dia e que as imagens em movimento talvez seja a forma de expressão mais consumida pela população, ainda temos ocasião de observar fenômenos de incompreensão. Espectadores habituados a consumir o cinema comercial produzido nos Estados Unidos têm dificuldade, por exemplo, em apreciar filmes de outras cinematografias, que consideram difíceis de entender, monótonos e chatos. E quem nunca se aborreceu com um adulto, no cinema, explicando o enredo a outro adulto que não está entendendo nada do que vê?

Bibliotecários, em sua prática profissional,  trabalham  a todo instante com a necessidade de explicar.  Fazer um resumo, escolher termos de indexação ou recomendar um filme a um usuário, são todas formas de explicar e traduzir, de dizer qual é o assunto do filme e mostrar porque esse filme pode ser útil àquele espectador. Não são tarefas fáceis e precisam ser feitas com bastante consciência do terreno em que estamos pisando.

A montagem e o espaço do filme

Para Carrière, o nascimento da montagem foi o fator que definiu o surgimento de uma linguagem autenticamente nova: ‘”foi aí, na relação invisível de uma cena com a outra, que o cinema gerou uma nova linguagem. No ardor de sua implementação, essa técnica aparentemente simples criou um vocabulário e uma gramática de incrível variedade. Nenhuma outra mídia ostenta um processo como esse” (p. 14).

O autor vai explicando essa ideia com o exemplo do homem que se aproxima de uma janela e olha para fora. A imagem seguinte mostra uma mulher e outro homem na rua – a esposa do primeiro homem e seu amante. O espectador contemporâneo já entende, pela simples justaposição das duas imagens, que o personagem viu a esposa com um amante. Esse reconhecimento é quase automático, mas não era assim no início do cinema, quando a montagem começou a ser usada. Dependendo das imagens que venham a seguir e das diversas escolhas estéticas envolvidas (posição de câmera, iluminação etc), a história pode prosseguir nos mais diferentes rumos, que podemos inferir a partir dos detalhes que percebemos. “O cinema cria, assim, um novo espaço, com um simples deslocamento do ponto de vista” (p. 17).

Esse “novo espaço” criado por processos narrativos específicos da linguagem cinematográfica pode apresentar ao profissional que faz a análise documentária desafios muito particulares. Vamos imaginar que a próxima imagem, depois da sequência do homem que vê a esposa e o amante pela janela, seja de um revólver sendo disparado por mão invisível, seguida por imagens de um cortejo fúnebre, e que o filme termine nesse ponto. O que faz o indexador que precise escrever um resumo minucioso e escolher termos para indexar esse filme? O que aconteceu? Alguém morreu? O marido matou alguém? Seria melhor apenas descrever a sequência de imagens e deixar a conclusão em aberto? Essas questões são parte da rotina do profissional da área. Por isso, embora não seja imprescindível formação específica em cinema para tratar um acervo de filmes, é importante que o profissional esteja atento às dificuldades inerentes à prática e, muito consciente de suas próprias limitações. Ver filmes sempre, de todo o tipo, inclusive os experimentais, tentar acompanhar festivais e se manter atualizado com o que acontece no mundo do cinema é fundamental. Carrière conta que, antes do surgimento da televisão, pessoas que ficaram presas por alguns anos, sem acesso filmes tinham dificuldades para entendê-los quando saiam da prisão. É uma linguagem evolui muito rapidamente.

O cinema e o real

O cinema – e as imagens em movimento de uma forma geral –  tem um “misterioso e irresistível poder de convencimento” que nos leva a acreditar no que vemos de uma forma quase incompreensível. Mesmo nos dias de hoje, pessoas relativamente bem informadas e que sabem, ou deveriam saber, que imagens podem ser manipuladas, ainda defendem seus pontos de vista com argumentos do tipo “é verdade, eu vi o vídeo”.

A rede de imagens que nos cerca é tão densa, tecida de forma tão intrincada, que é quase impossível não ceder a uma espécie de indolência mental, uma sonolência intelectual que permite a invasão de mentiras (…). A “verdade” de uma foto, ou de um cinejornal, ou de qualquer tipo de relato é, obviamente, bastante relativa, porque nós só vemos o que a câmera vê, só ouvimos o que nos dizem. Não vemos o que alguém decidiu que não deveríamos ver,  ou que os criadores dessas imagens não viram. E, acima de tudo, não vemos o que não queremos ver (p. 49).

No Brasil (e provavelmente em qualquer outro país), não são raros os casos de atores que interpretam vilões nas telenovelas serem insultados nas ruas por espectadores ingênuos. E lembremos do filme americano A bruxa de Blair (The Blair witch project), cuja campanha publicitária baseada na estratégia tratar os eventos do filme como algo verídico realmente convenceu parte do público da veracidade da história.

No momento da análise documentária, o profissional precisa estar consciente desse poder de convencimento das imagens em movimento, não se deixar levar pela pretensão e tomar bastante cuidado para não se deixar enganar. Não descrever o que não existe de fato do filme e, por outro lado, enxergar o que está escancarado diante de nossos olhos (como duas atrizes interpretando o mesmo personagem) nem sempre é tão simples quanto parece. Ah, mas eu não sou idiota, estou habituado a ver filmes, muitos de vocês devem estar pensando. Talvez, mas gente esperta também faz bobagens e até profissionais do cinema se enganam. Carrière cita, entre vários exemplos, o caso de um microfone que ficou visível, em primeiro plano, durante uma cena inteira. Todos os espectadores viram o que ninguém na equipe havia percebido  (p. 156).

A passagem do tempo também faz seus estragos, não apenas nos filmes, mas no nossa percepção deles. Podemos achar graça em cenas de filmes antigos que não tinham em sua origem qualquer intenção humorística, porque regras estéticas, convenções e estilos de representação mudaram muito. Também é bastante comum não darmos a devida atenção a um evento histórico que, na época da realização do filme, estava tão próximo e vivo que não se considerou necessário dar muitas explicações. Passados 50 anos, o indexador nascido 20 anos depois não percebe que aquele acontecimento foi importante e que deveria ser mencionado.

A passagem do tempo

Algo tão simples e natural quanto a passagem do tempo, os dias e noites que se sucedem, não é tão simples de ser representado no cinema. Carrière dedica um capítulo à anatomia do tempo no cinema, mostrando os recursos que são usados para mostrar a passagem do tempo, as “regras secretas” da sequência temporal, os ritmos da sucessão de dias e noites etc. Espetadores comuns raramente estão atentos a essas questões fascinantes que explicam, pelo menos em parte, porque às vezes é tão difícil escrever um bom resumo de um filme de ficção.

Tudo o que estamos vendo – ou, graças à montagem, não vendo – é uma multidão de pequenos subterfúgios em meio ao que parece ser a realidade, subterfúgios que se somam para criar um novo tipo de continuidade temporal.  A ação se move mais rápido do que o filme. Situações, atos, palavras se escondem por entre os quadros (p. 99).

A citação acima resume de forma perfeita a encrenca em que está metido o profissional que se lança à análise documentária de filmes. Carrière narra um episódio ocorrido quando, em sua estréia como roteirista de cinema, a montadora de Jacques Tati lhe explicou, mostrando um roteiro e um rolo de filme, que “o problema todo consiste em ir daqui para lá“. E para nós, indexadores, o problema consiste em fazer o caminho inverso, do filme para o texto e para o vocabulário controlado.

Encantamento

Termino esses comentários com uma passagem que remete ao célebre conto Tlön, Uqbar, Orbis Tertius, de Jorge Luis Borges e nos faz pensar no momento que vivemos hoje, em que várias camadas de fantasias, “memes”, imagens e “verdades” artificialmente construídas se sobrepõem ao mundo real.

Talvez o verdadeiro perigo desta saturação pela imagem, de que tanto se fala (geralmente com alarde), resida no desaparecimento, puro e simples, daquilo que costumamos considerar realidade. Existe o perigo de que repetidas imagens do mundo venham, em última análise, a tomar o lugar do mundo… O perigo de que um cinema popularizado e universalmente disseminado possa nos isolar, sem esperança de retorno, do que quer que reste da realidade. De que, num mundo fadado ao desaparecimento (talvez mais cedo do que se imagina), possamos encontrar refúgio provisório numa representação deste mundo (p. 83).

Carrière falava ao cinema, Borges fazia referência a diversos temas filosóficos e ambos escreveram muito antes de existir a internet. A reflexão fica cada dia mais válida e preocupante.

 

CARRIÈRE, Jean-Claude. A linguagem secreta do cinema. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2015.

 

 

 

 

 

 

 





Seres imaginários na academia: como indexar filmes com o Vocabulário USP

2 06 2013

Mas, dá para usar a mesma lista de assuntos para indexar livros e filmes?.

Sempre me perguntam isso. Eu mesma me pergunto isso, ora. Tudo é tão difícil e custoso na nossa área que às vezes tudo o que queremos é uma solução simples e não muito trabalhosa. A regra de catalogação é inadequada, o software não presta? Ah, mas dá para usar. Não é o ideal, mas é o que dá para fazer no momento. Não é perfeito, mas pelo menos o usuário consegue localizar o material. Quantas vezes já não ouvimos ou dissemos frases nessa linha de raciocínio?

A história é sempre a mesma. Engolimos sempre o pacote básico porque é mais barato e dá menos trabalho para a chefia. Dando para fazer o mínimo já está tudo muito bem, e o serviço melhor, o mais sofisticado e o mais arrojado sempre fica para depois. E se esse depois for aquele momento em que bibliotecas e bibliotecários tiverem perdido totalmente a importância?

Mas não é para tratar do apocalipse bibliotecário escrevo este post, vamos ao que interessa.

Trabalho há vários anos indexando filmes na Biblioteca da Escola de Comunicações e Artes da USP com os termos do Vocabulário Controlado USP, ferramenta usada para indexar materiais de todas as áreas do conhecimento e em todos os suportes. Esse vocabulário tem deficiências muito sérias, mas é o que foi possível desenvolver até o momento. Há menos de 20 anos passamos do nada, ou seja, cada biblioteca usando sua própria linguagem, para alguma coisa, o Vocabulário USP, que em algum momento será substituído por algo melhor. Ou não, veremos.

Na prática diária, embora o processo mental de análise de assunto de um filme e de um texto escrito seja diferente – e ainda não consigo explicar convenientemente essa percepção – não sinto falta de um vocabulário específico para indexar documentários ou qualquer filme de caráter técnico. Em geral, podemos indexar tranquilamente um filme sobre pintura brasileira do século 19 ou sobre danças de índios do Xingu com os mesmos termos que utilizaríamos para representar os assuntos de um livro sobre esses temas.

As diferenças aparecem quando indexamos não apenas o filme como um todo, mas partes dele, sobretudo trechos que mostram ações: alguém ou algo fazendo alguma coisa. Tenho um filme sobre o centro de São Paulo, por exemplo, cujo foco principal são as questões ligadas à recuperação de áreas urbanas deterioradas, mas que tem umas sequências interessantes que mostram adolescentes dançando hip-hop na rua e crianças fazendo malabarismo com laranjas nos faróis. Consigo indexar, mas preciso usar vários termos: adolescentes, dança, dançarinos, hip-hop, ruas, crianças ou crianças de rua, malabaristas, malabarismo etc. E vou sempre ficar na dúvida se devo usar dança e dançarinos, ou se escolho um dos termos. E não consigo estabelecer a relação entre os termos. Tudo bem, o usuário vai conseguir, eventualmente, localizar esse conteúdo, principalmente porque não sou besta e vou fazer colocar no resumo a informação que o filme “mostra adolescentes dançando hip-hop na rua e crianças fazendo malabarismo com laranjas nos faróis”. Mas temos que contar que o usuário decomponha a imagem que está em sua mente (meninos dançando na rua) em diversos termos, em geral sem ter noção do que seja controle vocabular.

Agora imaginem um banco de dados gigantesco, como o da USP, quando chegar a ter milhares de filmes e sequências de filmes indexados dessa forma. Nosso usuário vai ter que abrir muitos links, ler muitos resumos e examinar muitas imagens até chegar no que precisa.

Um bom exemplo é este simpático vídeo do Youtube:

http://youtu.be/DQuF_BQRIe4

Se eu tive que indexá-lo usando os recursos do Vocabulário USP, minhas opções seriam mais ou menos estas:

Violonistas

Violão

Interpretação musical (ou Música – Interpretação)

Música instrumental

Os termos seriam provavelmente bons para indexar um artigo sobre essa mulher e outras pessoas que aprendem a tocar violão de forma autodidata, longe de escolas e métodos tradicionais.  Mas falham ao representar o que o vídeo realmente mostra: uma mulher tocando violão de forma diferente da usual. Eu usaria os termos “Interpretação Musical” ou “Música Instrumental” por falta de opção, para tentar representar, de forma torta e indireta, um conteúdo que seria muito bem indexado com uma frase: mulher tocando violão. Esse vídeo não traz, de fato, informações sobre interpretação musical, embora possa ser usado para ilustrar esse conceito. O vídeo apenas mostra uma mulher tocando violão.

Complicado usar frases ou verbos num vocabulário para indexação. Ah, é, de fato. Indexar filmes também é.

O outro momento em que tenho problemas é na indexação de filmes de ficção.

Uma das primeiras dificuldades na qual tropecei é que a ficção tem o hábito de tratar de coisas que não existem: vampiros, fantasmas, viagens no tempo, possessão demoníaca, duendes, fadas, lobisomens, casas mal-assombradas… Já precisei de termos como Inferno, Céu, Olimpo, Futuro e Passado.Toda uma enciclopédia de seres, lugares e situações imaginárias.

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Outro problema dos mais evidentes é a necessidade de usar termos muito mais coloquiais do que os normalmente encontrados num vocabulário feito para textos científicos, técnicos ou acadêmicos.

Quando estou indexando uma comédia ou um filme de terror trash cujos personagens são caracterizados como loucos, preciso do termo “loucos” ou “loucura”. Não dá. Esses termos não existem na área de psicologia. Não temos “loucura”, e sim “Transtornos Mentais”, “Psicoses” “Esquizofrenia” etc. Como faço o diagnóstico dos malucos do meu filme?

Já senti necessidade do termo “Jantares” ou “Almoços”, porque há diversos filmes que se passam durante um jantar ou um almoço, como A festa de Babette, de Gabriel Axe, e O anjo exterminador, de Luís Buñuel. O Vocabulário USP só me dá o termo “Refeições”. Mas não é a mesma coisa? Não exatamente, porque o termo “jantar” não evocar apenas do ato de comer, não se trata apenas de um conceito da nutrição. É um termo que descreve também um evento social, um ritual que acontece ao redor de uma mesa cheia de convidados.

No banco de dados da USP não há remissivas para o usuário. Se houvesse a busca seria mais fácil, mas esse não é o ponto. Remissivas apenas dão uma volta no problema real, que é a diferença entre indexar filmes de ficção e textos acadêmicos.

O Vocabulário USP permite a inclusão de termos conforme a necessidade do indexador. Os termos propostos são avaliados por um grupo gestor que os aprova ou não. Naturalmente, minha legião de monstros e seres imaginários cria situações incômodas para meus colegas do grupo, que não estão habituados a lidar com essas criaturas e nem com os locais que elas habitam. Em geral eles não questionam a necessidade dos termos, mas como inserir tanta fábula no vocabulário da ciência? Não se trata apenas de acrescentar um termo numa lista, é preciso inseri-lo numa hierarquia.

Uma das colegas sugeriu um jeitinho: criar uma lista de personagens para todos os meus bichos em baixo do termo “Personagens”, que já existia no Vocabulário. Posteriormente, sugeri a criação da categoria “Tipos de Cenários e Ambientes” para abrigar lugares estranhos que não consigo encaixar na estrutura de termos. Isso resolve meus problemas e preserva os termos mais comportados das mordidas dos meus lobisomens, mas tenho a impressão de que estamos, na realidade, criando um subvocabulário para ficção dentro do Vocabulário USP. Num futuro próximo podemos vir a ter problemas com isso, porque a estrutura do vocabulário atual não foi prevista para gerenciar essas contradições. De imediato, já existe o risco de um indexador distraído utilizar um termo criado para indexar filmes de ficção para representar um trabalho acadêmico, sem perceber que há um termo mais adequado no Vocabulário.

Existem no mundo vocabulários específicos para indexação de obras ficcionais, como relato no primeiro post deste blog Indexando filmes numa tarde de sexta-feira. Também existe a necessidade de um instrumento específico, ou pelo menos, a suspeita de que seria importante ter esse instrumento. Só não existe, ao menos na USP, a vontade de discutir a questão. A USP não é um espaço para discussões que envolvam bibliotecários, que são apenas funcionários. Discussão, só a do tipo acadêmico, em sala de aula.

Alguma outra instituição se habilita? Estou cansada de discutir comigo mesma.

 





Filmes e facetas

20 10 2012

Comentando um bom artigo:

CORDEIRO, Rosa Inês e LA BARRE, Kathryn.  Análise de facetas e obra fílmica. Clique para ver o texto completo.

As autoras tratam dos princípios de análise fílmica a partir da teoria facetada e relatam os resultados de uma pesquisa empírica sobre o processo de análise de filmes, com a qual pretendiam testar a “possibilidade de aplicação da análise de facetas e análise fílmica para a interpretação e sistematização das informações registradas” pelos participantes e observar se as diferenças culturais entre os indivíduos se manifestavam em suas interpretações .

O texto aborda alguns pontos muito interessantes que nem sempre bibliotecários sem experiência com documentos fílmicos conseguem visualizar com clareza. Um deles, que eu particularmente valorizo muito, é o fato de que a obra fílmica “pode ser de interesse para diversos grupos de usuários e portadores de diferentes níveis de conhecimento” (p. 184). As autoras identificaram na literatura da área uma tendência a propor o tratamento dos documentos em “várias ‘camadas’, a fim de permitir o acesso à informação considerando diferentes interesses e perfis de usuários”(p. 184).

Não cheguei a entender como, na prática, como se daria essa descrição e recuperação em camadas, mas a ideia me parece válida. Qualquer acervo documental pode ser usado de diferentes formas por usuários com características e objetivos diversos, mas penso que no universo das imagens em movimento essas variações são particularmente imprevisíveis. Para citar uma situação concreta do dia-a-dia, muito comum na instituição na qual trabalho, um filme musical americano da década de 50, por exemplo, poderá ser solicitados por estudantes de cinema por suas qualidades estéticas e técnicas, enquanto representante de um gênero que marcou sua época, será recuperado sobretudo pelo gênero, data e país de produção, diretor e atores. O mesmo filme vai interessar aos estudantes de dança para analisar a coreografia, ou a um pesquisador de história da moda, pelos figurinos e adereços, ou simplesmente às pessoas que gostem de musicais, por lazer e diversão.

Idealmente, a análise do filme deve atender às demandas de todos esses tipos de público. Trata-se aqui de uma tipologia de usuários que não se resume apenas a níveis de conhecimento, como no exemplo citado pelas autoras de um projeto de pesquisa que visa os grupos de usuários “acadêmicos, profissionais e leigos” (p.184). Os recortes feitos pelo usuário no conteúdo de um filme são mais complexos do que essa categorização de fundo acadêmico, e percebe-se que o mesmo usuário pode ser leigo numa situação e especialista em outra. Uma outra questão que sempre me chama a atenção ao comparar textos acadêmicos com a prática diária profissional é que nem sempre é possível identificar o grupo de usuários da coleção, porque a combinação pessoas e filmes costuma ser bastante volátil e imprevisível.

Analisando as facetas da obra fílmica, as autoras identificam os seguintes focos, que relacionam com a análise de conteúdo: gêneros, personagens principais, estrutura / unidade narrativa, natureza da representação da trama, referência histórica, conflito matriz e tema, sequências relevantes e aproximações temáticas dessas sequências, cenografia e adereços, figurino, maquiagem, estúdios e locações, efeitos especiais, som, espaços representados na narrativa, registro temporal da trama (p.187-191).

Minha longa prática profissional com acervo e usuários de filmes confirma a validade do método proposto pelas autoras. A observação direta das questões apresentadas por usuários ao longo de cerca de 10 anos em serviço de referência numa filmoteca me levaram a estabelecer um método de análise que envolve indexar, prioritariamente, os seguintes aspectos dos filmes: gênero e forma, características dos personagens principais, ações (conflito matriz e tema, na terminologia das autoras), local da ação (espaços representados na narrativa), época da ação (registro temporal da trama) e eventos históricos presentes no filme (referência histórica). Esse método está descrito no Manual de catalogação de filmes da Biblioteca da ECA e no primeiro post deste blog, poeticamente intitulado Indexando filmes numa tarde de sexta-feira.

Não costumo analisar os demais focos identificados pelas autoras: estrutura / unidade narrativa, natureza da representação da trama, cenografia e adereços, figurino, maquiagem, estúdios e locações, efeitos especiais e som. É perfeitamente possível identificar esses focos num exercício de caráter acadêmico, desde que se tenha conhecimento teórico suficiente para tanto, mas na prática diária da indexação o procedimento pode onerar demais o processo de tratamento da informação. Uma indexação nesse nível de detalhamento se justificaria somente diante da demanda explícita de um público bastante especializado. De qualquer forma, esse olhar das autoras sobre o processo de indexação de filmes buscando apoio em estudos de teóricos do cinema é muito importante, por trazer bases consistentes para o trabalho prático com acervos de filmes em unidades de informação.

Em sua pesquisa empírica para verificar a possibilidade de aplicação do método das facetas, as autoras concluíram que os focos mais recorrentes são: os conflito-matriz e temas representados nos filmes, personagens principais da trama, gênero cinematográfico e as categorias Espaço e Tempo (p. 198). A conclusão confere com minha prática, mas tendo a considerar que a amostragem selecionada  – 12 alunos de pós-graduação em Ciência da Informação – não foi suficientemente representativa. Além de serem poucos, não estavam indexando numa situação real, ou seja, numa unidade de informação específica com objetivos definidos e público em função do qual realizar a indexação. Penso que indexação sem usuário não faz muito sentido, mas aviso que não entendo nada de estatística, as autoras devem saber mais do que eu!