Sobre o que é esse filme?

2 03 2017

resumo: Trato aqui da minha experiência com indexação de filmes, minhas leituras e questionamentos sobre o assunto, principalmente  sobre assuntos para filmes de ficção e diferenças entre indexar filmes e textos. Explico como fiz um estudo sobre indexação de filmes a partir da visão do usuário. A partir dos resultados, procuro verificar se o Vocabulário Controlado USP atende às necessidades específicas de recuperação num acervo de filmes de ficção.

 

A busca e a recuperação dos filmes por aspectos do seu conteúdo, como gênero, assunto, elementos de estilo e linguagem etc, é um dos meus interesses profissionais mais antigos. Meu primeiro trabalho de verdade foi na filmoteca da Escola de Comunicações e Artes da USP, quando ainda cursava Biblioteconomia nessa mesma instituição. Naquela época, início dos anos 1980, praticamente não se falava em indexação de filmes no curso. Os professores apenas diziam o tempo todo que bibliotecários não trabalhavam apenas com livros, mas todo o conteúdo das aulas era voltado para livros. Também  não se falava de indexação de obras ficcionais. O assunto de um romance era “romance” + termo geográfico + época. Éramos orientados a não nos metermos com a literatura e outras áreas criativas, porque a arte era uma seara muito pantanosa onde a objetividade profissional poderia afundar sem remédio.

Na realidade profissional, onde moram os acervos, as pessoas e os problemas, descobri rapidamente que:

as pessoas procuram filmes por assunto tão naturalmente quanto qualquer outro tipo de documento

se o seu catálogo não der a resposta quem vai ter que fazer isso é você, com toda a sua subjetividade

nem sempre a distinção entre ficção e documentário é relevante para o pesquisador – depende de como e para quê o filme será usado.

A resposta para “você tem aí um filme sobre a história do barroco mineiro” poucas vezes é simplesmente  “sim’ ou “não”. Pode vir em forma de contraproposta: “não, mas tenho uma biografia romanceada do Aleijadinho, será que serve”? Ou, depois de alguma conversa sobre o uso que será feito do filme descobrimos, usuário e eu, que ele precisa mesmo de boas imagens em movimento de igrejas do período, necessidade que pode ser suprida por um filme que não tenha, em princípio,  nada a ver com a “história do barroco”.

O Aleijadinho: paixão, glória e suplício

O Aleijadinho: paixão, glória e suplício

Olhos nas mãos: teoria e prática da indexação de filmes

As particularidades da interação entre espectador e obra fílmica definem formas de utilização por usuários de acervos que não se limitam à necessidade de obter informações sobre determinado assunto e entender conceitos (quero saber o que é o barroco mineiro) ou fruição estética e lazer (quero ver um bom filme e me distrair um pouco).

Filmes são exibidos como forma de motivar  debates em diversas situações; para mostrar lugares, atividades e acontecimentos distantes do espectador no tempo e no espaço;  como instrução, explicando como fazer alguma coisa; para provar ou tentar provar um acontecimento ou as circunstâncias em que ocorreu; para serem analisados em sua própria condição de obra cinematográfica ou audiovisual; para ilustrar uma situação ou uma ideia, que pode até mesmo ser o oposto do que é mostrado na tela (o conceito de liberdade, por exemplo, pode ser discutido a partir da historia de indivíduos privados dela numa prisão); para ajudar a compor uma outra narrativa diferente daquela na qual foi produzido, como ocorre, por exemplo, quando um filme de arquivo é inserido dentro de uma narrativa ficcional ou quando sequências de  uma obra de ficção são inseridas num documentário. É importante notar que qualquer forma de utilização de um filme pode envolver a obra em sua totalidade ou trechos isolados. Esses usos dos filmes e outras formas das imagens em movimento, observados na prática diária de quem trabalha com esses acervos, remetem às estratégias comunicacionais da fotografia propostas por Schaeffer (1996).

O processo de indexação dos filmes tem suas diferenças em relação à indexação de textos, não apenas em decorrência das diferenças entre a linguagem verbal e a audiovisual, mas também da necessidade de responder a essas diferentes demandas por parte do público do acervo.  Autores como Shatford (1986), Rafferty  e Hidderley  (2005), e Smit (1996) já analisaram essa questão, mas penso que ainda há pontos a serem explorados em relação às imagens em movimento. Na prática, ao indexar filmes regularmente, é possível notar que:

  1.  operamos uma transposição de linguagens, ou seja, expressamos e sintetizamos sob a forma de texto o conteúdo de um documento composto por imagens em movimento, acompanhadas ou não por sons (diálogos, música, ruídos e outros).
  2. o nível de especificidade da análise de filmes pode chegar a sequências ou planos, enquanto que normalmente não indexamos frases ou parágrafos de um texto. Como trechos de filmes podem ser isolados e utilizados em contexto diferente do original, a indexação se pratica tanto em relação ao conteúdo considerado como um todo quanto a trechos específicos.
  3. aspectos específicos da linguagem cinematográfica como a impressão de realidade e a existência de espaços fora do quadro (XAVIER, 2005) interferem no processo de análise e requerem consciência e atenção por parte do indexador.
  4. o processo de interpretação de imagens envolve dificuldades de reconhecimento e nomeação de objetos, ações, pessoas e locais que não ocorrem, em princípio, quando analisamos informação textual.
  5. o uso de verbos e frases como indexadores surge como forte necessidade na descrição de imagens, tanto fixas quanto em movimento (leão rugindo, soldados correndo, bebês dançando, aves atacando pessoas etc).
  6. há outras dimensões além do assunto envolvidas na indexação de filmes, como o gênero, elementos da linguagem cinematográfica, locações e outros (JACOBS, 1999).

A quantidade de elementos visuais, sonoros e narrativos presentes num filme, bem como a presença de estímulos emocionais e intelectuais muito fortes que podem interferir no processo de indexação são dados que precisam ser levados em conta ao definir critérios e políticas de indexação em coleções de filmes. Estabelecer uma grade que indique ao indexador os elementos aos quais precisa dirigir sua atenção é uma maneira de evitar que a análise documentária se torne um pouco produtivo, embora agradável, exercício de crítica e interpretação de filmes. A proposta que elaborei para a Biblioteca da ECA (MACAMBYRA, 2009) e o modelo criado por Cordeiro e La Barre (2011) são exemplos de possíveis soluções para a questão.

Se o uso das imagens em movimento e o processo de indexá-las têm diferenças substanciais em relação ao que fazemos com textos, como ficam os vocabulários controlados? Os mesmos termos podem representar adequadamente assuntos de filmes e de textos? Na USP usamos o mesmo instrumento, o Vocabulário USP, para indexar documentos de todas as áreas do conhecimento e todos os suportes, inclusive imagens fixas e filmes.  Sempre tive minhas dúvidas quanto a isso, como já expliquei num outro post deste blog, e me incomoda bastante o hábito que temos, enquanto indexadores, de pensar tão torto que o usuário é obrigado a dar voltas para chegar aos conteúdos que indexamos.

O estudo

Há alguns anos decidi perguntar para os usuários como eles veem o assunto dos filmes. Como as pessoas entendem o conteúdo de um filme e o expressam em palavras, sem precisar passar pelo filtro de um vocabulário controlado? A ideia era melhorar a indexação dos filmes na Biblioteca da ECA e verificar até que ponto o Vocabulário USP  atende às necessidades específicas de recuperação num acervo de filmes de ficção.

Cidadão Kane

Cidadão Kane

Escolhi, da lista de filmes mais emprestados no ano anterior – dado fornecido pelo sistema de empréstimos que usamos na USP – 14 longa-metragens de ficção. Procurei selecionar filmes diferentes entre si, de vários gêneros, épocas e níveis de complexidade de linguagem, para não restringir a pesquisa a usuários com um gosto específico para cinema. Os filmes escolhidos foram:

A janela indiscreta – Alfred Hitchcock, 1954

Terra em transe – Glauber Rocha, 1967

300 – Zack Snyder, 2006

O discurso do rei – Tom Hooper, 2010

Laranja mecânica  – Stanley Kubrick, 1971

Tropa de elite – José Padilha, 2007

A pele que habito – Pedro Almodóvar, 2011

Cidadão Kane – Orson Welles, 1941

Matrix (1) – Andy e Larry Wachovski, 1999

Os incompreendidos – François Truffaut, 1959

Pulp-fiction  – Quentin Tarantino, 1994

O labirinto do fauno – Guillermo del Toro, 2006

O encouraçado Potemkin – Sergei Eisenstein, 1925

Ensaio sobre a cegueira – Fernando Meirelles, 2008

 

Elaborei este questionário simples e divulguei pela rede social Facebook, em meu próprio perfil e em grupos de estudantes da Escola de Comunicações e Artes.

Analisando os resultados

Minha preocupação era obter respostas de estudantes de vários cursos, não apenas de biblioteconomia, como já vi em outras pesquisas do mesmo tipo. A tarefa não é tão simples, porque tenho mais contato com alunos de biblioteconomia. Além disso, o tema da pesquisa é mais atraente e compreensível para eles do que para estudantes de outras áreas. Apesar de tudo,  resultado foi razoável: das 66 respostas, 31 foram de estudantes de biblioteconomia de graduação ou mestrandos do programa de pós-graduação em ciência da informação; os demais se distribuíram por outros cursos da Escola: Jornalismo, Audiovisual, Artes Visuais, Publicidade, Turismo e outros. Mais importante:  não percebi diferenças significativas entre os termos escolhidos pelos estudantes de biblioteconomia e os demais.

Excluídos todos os nomes próprios e agrupados todos os sinônimos e variações de plural e singular, obtive 529 termos válidos.

Apenas 12 (2%) dos indexadores não atribuíram termos da esfera do gênero aos filmes analisados, embora o questionário perguntasse explicitamente sobre assuntos, dado que confirma a importância do gênero na recuperação de filmes.

O resultado revelou algumas surpresas. Curiosamente, alguns assuntos que parecem óbvios, à primeira vista, não são tanto  Das 46 pessoas que indexaram Laranja mecânica, 20 não utilizaram o termo violência (ou semelhantes); das 64 pessoas que indexaram Tropa de elite, 24 não usaram o termo polícia (ou semelhante); dos 30 indexadores de Cidadão Kane, 14 não utilizaram nenhum termo relacionado à jornalismo, jornalistas, imprensa ou mídia; apenas 2 dos 9 indexadores de Os incompreendidos usaram o termo infância, apesar do protagonista ser um garoto pré-adolescente e todo os filme estar centrado na vida desse personagem; 20 respondedores indexaram o Encouraçado Potemkin, mas a nenhum deles pareceu relevante usar termos como navio, barco ou armada e apenas deles usou o termo marujos.

Laranja mecânica

Laranja mecânica

Podemos imaginar, sobretudo no caso do Potemkin, cuja indexação foi bastante pobre, que nem todos os participantes de fato assistiram ao filme, embora o enunciado do questionário pedisse que só quem viu os filmes indicasse seus assuntos. Mesmo assim, o fato de que tantos indexadores deixaram de registrar assuntos presentes nos filmes de forma tão evidente permite duas conclusões: 1. nada é previsível quando se trata de pessoas analisando filmes; 2. o uso de uma grade que ajude o indexador a lembrar de termos importantes é um procedimento bastante recomendável para uma indexação consistente.

Embora estivesse bastante claro no questionário que era possível usar frases na indexação (o bem contra o mal), apenas 36 frases (7% do total) aparecem entre os 529 termos. Qualquer análise seria precipitada sem um estudo específico, mas é possível supor que seja mais fácil atribuir assuntos usando termos simples do que imaginar uma frase que represente o conteúdo de um filme.

O uso de frases para descrever imagens e a possibilidade de usá-las para melhorar sistemas de indexação  têm sido objeto da atenção dos pesquisadores. Goodrum (1997) citada por Rafferty e Hidderley (2005) observa que usuários tendem a construir narrativas para descrever imagens quando não estão circunscritos  a uma  busca de informação.O´Connor, O´Connor e Abbas (1999) citados por Rafferty e Hidderley (2005), descobriram que, quando não há descrições de imagens disponíveis, usuários criam narrativas curtas ou histórias para imagens que vão além da descrição dos objetos representados.

Rafferty e Albinfalah exploraram a possibilidade de desenvolver um sistema de indexação de imagens baseado em narrativas, a partir de descrições feitas por usuários. Os participantes do estudo em duas partes realizado pelos autores foram convidados a descrever duas imagens usando palavras-chaves ou sentenças (primeira parte)  e a criar histórias interpretando as mesmas imagens. Elementos relacionados à ambientação, personagens, trama, temas e figuras de linguagem foram predominantes nas descrições, entre as quais surgiram expressões como “a vida é um deserto”, “ventos da mudança”, “procurando respostas”, “perda de um ente querido”, “esperando pelo amor” e “culpando Deus”. Os autores concluíram que, como as narrativas são importantes no processo pelo qual pessoas interpretam imagens,  a incorporação de elementos de narrativa no processo de indexação pode ser válida. Os resultados sugerem que o método de criar narrativas produz mais verbos e estimula respostas mais criativas e grande variedade de interpretações conotativas, podendo contribuir para melhorar a exaustividade da indexação e ajudar na busca de informações de caráter mais casual ou criativo.

Entretanto, esses dois estudos foram realizados com imagens fixas. Seria interessante fazer um teste com imagem em movimento e voltado especificamente para essa questão. Frases têm sido bastante usadas em sistemas como o What is my movie, no qual se pode fazer buscas de formas bastante amigáveis. Observem o resultado de uma busca pela frase “a man against the world“. Creio que a indexação por plots (tramas) seria um filão interessante a explorar por bibliotecários que gostem de fugir um pouco da banalidade consagrada. Vejam isto, por exemplo:

http://tvtropes.org/pmwiki/pmwiki.php/Main/Plots.

Comparando com o Vocabulário USP

Dos 529 termos válidos escolhidos pelos participantes do teste,  234 (44%) estão no Vocabulário USP e 295 (56%) não estão. A quantidade de termos ausentes, apesar de expressiva, não é preocupante, porque o Vocabulário permite a sugestão de termos pelos indexadores. Os termos sugeridos, depois de submetidos à avaliação de um grupo gestor, passam a integrar o Vocabulário.

A questão  mais importante é saber se os termos que não constam do Vocabulário poderiam ser facilmente incluídos ou não. Baseada em minha experiência pessoal de vários anos como indexadora, identifiquei apenas 20 termos (4% do total) que poderiam, ao meu ver, ser incluídos sem grandes problemas. Faço a ressalva, porém, de que é bastante difícil fazer essa análise rapidamente, porque os termos precisam ser avaliados por indexadores da área de assunto de cada um e que conheçam bem a estrutura do Vocabulário antes de serem aprovados.

Dos termos não  presentes, 70 (24%) tem sinônimos ou termos bastante semelhantes no Vocabulário,  que poderiam substituir razoavelmente os propostos.

Termo proposto Termo do Voc.USP
Características de um líder LIDERANÇA
Reinados MONARQUIA
Mundo real REALIDADE
Sedação SEDATIVOS

 

Em alguns casos a substituição seria feita por dois termos, já que o Vocabulário USP é pós-coordenado.

Termo proposto Termo do Voc.USP
Grécia antiga GRÉCIA + ANTIGUIDADE
Gângsteres americanos GÂNGSTERES   + ESTADOS UNIDOS

Eventualmente a pós-coordenação provoca alteração no conceito, sobretudo quando o indexador representou uma relação entre dois termos, como realidade versus ilusão, criança-coragem ou protagonista feminina. Se usarmos dois termos isolados para representar esses conceitos perdemos a ideia da relação entre eles e nosso usuário poderá ter dificuldades para localizar o que precisa. Devemos lembrar que a indexação de filmes normalmente é feita não apenas para o filme como um todo, mas também para partes ou sequências específicas, o que tende a gerar grande número de termos para cada documento. Teremos muitos filmes indexados com os termos coragem e crianças, mas a coragem não será um atributo dos personagens infantis em todos eles.

Matrix: bullet time

Matrix: bullet time

Entre os termos que considerei difíceis de inserir no Vocabulário USP, destacam-se:

Termos relacionados à linguagem, técnica ou narrativa cinematográfica

Não linear

Multi-plot

Plot-twist

Final aberto

Cenários gerados por computador

Bullet-time

Happy-end

O problemas com esses conceitos é que não estamos tratando propriamente de assuntos, mas de formas e processos de realização de filmes. Final aberto, por exemplo, é um termo a ser usado para indexar filmes com final aberto, não documentos sobre final aberto. seria Assim, não seria adequado, em princípio, colocá-los na lista principal de assuntos tópicos do Vocabulário. Tampouco seria correto inserir esses termos na tabela de gêneros e formas, porque outra coisa. Criar uma tabela específica seria uma solução a ser considerada.

Temas clássicos e recorrentes em obras ficcionais

Universo paralelo

Ambição

Busca

O escolhido

Traição

Superação

Tensão

Sociedade em crise

Realidade alternativa

Portais temporais

Investigação

É difícil encontrar um local na hierarquia de um vocabulário acadêmico para termos dessa natureza que são, entretanto, temas bastante comuns no universo da ficção cinematográfica. Precisei esperar mais de um ano pela aprovação dos termos Fim do mundoCéu, Torre de Babel e Juízo final que devem ter dado muito trabalho para minhas colegas do Grupo Gestor. São termos que tendem a criar conflito entre sua coloquialidade e a linguagem acadêmica predominante no Vocabulário. Existem no Vocabulário Busca e apreensão (dentro de Direito) e Busca e resgate (em Saúde), mas não o termo Busca sozinho, necessário para indexar filmes que mostram um personagem em busca de algo ou alguém. O mesmo ocorre com Investigação; temos vários tipos de investigações (criminal, linguísticca, de superfície etc), mas aquele tipo de investigação amadora levada a cabo por um personagem marginal ou desacreditado pelo sistema. Muitos filmes que tratam de um personagem escolhido para uma posição ou missão, cuja chegada foi profetizada em algum momento e que deverá desempenhar um papel decisivo na trama, seriam bem indexados com o termo O Escolhido, mas não consigo imaginar esse termo inserido num vocabulário acadêmico

Termos descritivos muito específicos

Moça de vestido vermelho

Olhos nas mãos

Esses termos em particular podem parecer absurdos e sem utilidade,  não é descabido imaginar a busca de imagens por termos como homem com tapa-olho, idosos de bicicleta, animais com roupas humanas, mulheres atirando flechas, lutas com machados etc.

Termos de conotação moral

Decência

Imbecilidade

Arrogância

Cinismo

Termos como esses  são problemáticos porque exigem do indexador algum tipo de avaliação crítica ou juízo de valor sobre os personagens. Ceder à tentação de fazer julgamentos durante o processo de indexação é um caminho perigoso, que pode dar margem à manifestação de preconceitos por parte do profissional. Não é improvável, por outro lado, que usuários façam buscas por esses conceitos. A solução para esse conflito não é evidente, e talvez se resolva apenas no serviço de referência. 

Termos não relacionados ao conteúdo

Maior bilheteria nacional

Palma de Ouro

Diretores famosos

Conceitos ligados a diferentes aspectos de produção ou distribuição,  premiações, festivais etc são importantes na recuperação de filmes. Mas onde colocamos essas informações? Como assunto tópico, certamente não. Pode parecer ingênuo pensar em recuperar filmes por meio da expressão “diretores famosos”, mas não se pode deixar de ver, por trás da designação pouco feliz, uma necessidade autêntica de usuários de filmes. Devemos, portanto, criar meios de atender a essas demandas.

Um final aberto

Meu pequeno estudo confirma minhas percepções sobre indexação de filmes e uso de vocabulários controlados, desenvolvidas ao longo de anos de prática como indexadora.

Não observei diferenças muito significativas entre a indexação feita pelos estudantes que participaram do teste e pelos indexadores profissionais da Biblioteca da ECA quanto à escolha de termos. Falhas como esquecimento de aspectos importantes, falta de exaustividade e de precisão provavelmente não ocorreriam se os participantes estivessem indexando num ambiente controlado, apoiados por instrumentos de apoio e seguindo políticas pré-estabelecidas.

O labirinto do fauno

O labirinto do fauno

O Vocabulário USP pode ser usado para indexar filmes sem grandes dificuldades, mas é necessário introduzir algumas modificações para que se torne um instrumento mais efetivo. Para tanto, será preciso descobrir meios de introduzir termos específicos para indexação de filmes e imagens sem desfigurar o caráter acadêmico e científico do Vocabulário. Uma boa opção seria criar um vocabulário complementar, compatível com o vocabulário principal mas destinado à indexação de filmes de ficção e imagens.

Referências

CORDEIRO, Rosa Inês; LA BARRE, Kathryn.  Análise de facetas e obra fílmica. Informação & Informação, Londrina, v. 16 n. 3, p. 180 – 201, jan./ jun. 2011. Disponível em <http://www.uel.br/revistas/uel/index.php/informacao/article/view/10562/9289>. Acesso em 20 fev. 2017.

JACOBS, Christine.If a picture is worth of a thousand words, then … The Indexer, v. 21, n. 3, 1999.

MACAMBYRA, Marina. Manual de catalogação de filmes da Biblioteca da ECA. São Paulo: Serviço de Biblioteca e Documentação ECA/USP, 2009.

RAFFERTY, P.; ALBINFALAH, F. A tale of two images: the quest to create a story-based image indexing system.Journal of Documentation, Bradford, v. 70, n. 4, p. 605, 2014. ISSN 00220418. Disponível em: <http://search.proquest.com/docview/1660744988?accountid=14643 >

RAFFERTY, P.; HIDDERLEY, R. Indexing multimedia and creative works: the problems of meaning and interpretation. Aldershot: Ashgate, 2005.

SCHAEFFER, J. M. A imagem precária: sobre o dispositivo fotográfico. Campinas: Papirus, 1996.

SHATFORD, Sara. Analyzing the subject of a picture: a theoretical approach. Cataloging & Classification Quartelly, v. 6, n. 3, p. 39-62, 1986.

SMIT, J. A representação da imagem. Informare: caderno do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação, Rio de Janeiro, v.2, n. 2, p. 28-36, jul./dez. 1996.

XAVIER, Ismail. O discurso cinematográfico: a opacidade e a transparência. São Paulo: Paz e Terra, 2005.

 

Agradeço ao pessoal que dedicou seu tempo a responder ao meu questionário ao José Estorniolo Filho pela ajudar na tabulação e na  busca de termos no Vocabulário USP.

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One response

14 04 2017
Jaqueline Bispo

Parabéns, muito legal!

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