Imagens de arte e a arte de trabalhar com imagens

4 06 2018

Novo texto meu no blog Bibliotecários sem Fronteiras, sobre o projeto da  Biblioteca Digital da Produção Artística da ECA/USP.

Leiam no link:

https://bsf.org.br/2018/05/28/imagens-de-arte-biblioteca-digital/

 

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Arquigrafia: uma coleção de imagens da arquitetura brasileira

17 02 2018

A carência de ferramentas adequadas para tratar e compartilhar imagens de forma profissional é notável em nosso país. No ambiente das bibliotecas, com suas velhas regras e foco eternamente em documentos textuais,  boas iniciativas ainda são poucas.

E o que seria um bom catálogo de imagens? Basicamente, um sistema que mostre prioritariamente as imagens, com boa qualidade, descritas com metadados específicos para imagens e indexadas de acordo com métodos e vocabulários controlados pensados para documentos fotográficos já seria um bom começo. O pesquisador de imagens que se deparar com um registro MARC cheio de informações inúteis para ele, com um link remetendo a uma imagem que demora a carregar vai fugir decepcionado para as montanhas.

O Arquigrafia, fruto de um projeto de pesquisa multidisciplinar coordenado por um professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, escapa da maldição do banco de imagens que mais parece um catálogo de livros. Trata-se de um “ambiente colaborativo” criado para compartilhar imagens de obras arquitetônicas e  espaços urbanos brasileiros, que tem os seguintes pontos fortes:

é um sistema que leva em consideração a visão do usuário especialista na área e privilegia as informações importantes para esse público

as imagens são exibidas de forma agradável e amigável

colaborativo, permite que qualquer interessado no assunto faça um cadastro e insira suas imagens

a interface de catalogação é fácil de usar

tem aplicativo móvel

tem ferramenta para interpretação da obra arquitetônica que deve permitir, futuramente, a busca por semelhança

Os pontos fracos são aqueles típicos dos sistemas colaborativos de compartilhamento de imagens: faltam orientações e critérios mínimos para descrição das imagens. Não me refiro àquelas complicadas regras de catalogação que os bibliotecários adoram, que nem seriam necessárias dentro da proposta do Arquigrafia, mas a algumas convenções básicas poderiam ser adotadas na descrição das imagens. Vamos ver alguns exemplos.

Atribuição de títulos

Como nomear uma foto de detalhe? Altar da Igreja de São Francisco de Assis ou Igreja de São Francisco de Assis: altar?

Se na imagem o que realmente aparece é a marquise do Parque do Ibirapuera, o título deve ser: Parque do Ibirapuera ou Marquise do Parque do Ibirapuera ou Parque do Ibirapuera: marquise?

No campo descrição

É realmente necessário iniciar a descrição com a expressão “vista do“? Quando é necessário especificar se é uma vista geral ou parcial, faz sentido. Caso contrário, é redundância. É uma fotografia, logo, é uma vista.

A utilidade de um  texto descritivo ao lado de uma imagem é, sobretudo, esclarecer aspectos que não estão evidentes na própria imagem. Explicitar os elementos presentes na imagem e sua distribuição espacial, informando o nome daquele chafariz que aparece em primeiro plano ou explicando que as as paredes são de adobe, por exemplo. Apenas repetir a informação que está perfeitamente evidente na própria imagem e no seu título é inútil. Na mesma linha de raciocínio, é interessante informar dados históricos que esclareçam aspectos da imagem, como  a alteração da fachada em  reformas posteriores, ou o fato do piso não ser original. Mas será que é realmente importante inserir no campo descrição um histórico completo da obra ou local fotografado, como se o registro fosse um verbete da Wikipedia?

 

Muitas imagens do Arquigrafia são fotos ou slides antigos digitalizados, já que o acervo da Biblioteca da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo também está sendo registrado na plataforma. É muito comum encontrarmos imagens com sinais de deterioração. Seria interessante que, na descrição ou num campo específico a ser criado, fosse inserida a observação de que a imagem está desbotada e o colorido original da obra está alterado. Pode parecer óbvio, mas como nem sempre a deterioração é evidente aos olhos dos leigos, é interessante alertar. Se a informação quanto ao estado de conservação for registrada em campo específico, poderá ser usada como filtro na busca, permitindo que o usuário exclua imagens desbotadas.

Critérios para indexação

Indexar imagens não é exatamente brincadeira de crianças. Se mesmo profissionais treinados e experientes vacilam e cometem erros clássicos, certamente não se pode esperar consistência ou precisão de usuários sem formação específica. O Arquigrafia já tem uma lista de tags pré-determinadas para ajudar o usuário em suas escolhas, e a equipe tem planos de melhorar o controle vocabular, mas o problema não é só a normalização dos termos. Quando indexamos imagens um dos grandes desafios é decidir quando vamos atribuir determinado assunto e como manter a consistência nas escolhas que fazemos ao longo do tempo.

Um dos erros mais comuns é confundir o local onde foi feita a foto com o assunto da foto. A imagem abaixo, publicada no Arquigrafia, foi feita na marquise do Parque Ibirapuera, mas nela o local realmente aparece de forma reconhecível? Um eventual usuário em busca de informações visuais sobre a dita marquise consideraria útil essa imagem que mostra, sobretudo, um patinador em movimento num  espaço quase vazio? Poderíamos, naturalmente, dizer que a resposta depende do tipo de uso a ser feito da imagem. Pela sua força expressiva, a fotografia poderia ser usada numa peça publicitária ou num cartaz de filme sobre o parque, por exemplo, mas o fato é que a marquise do Ibirapuera quase não aparece na imagem.

Foto de Beatriz Mendes Costa e Natália Andrade.

Acredito ser importante estabelecer um critério e orientar os usuários nesse sentido, para evitar recuperação de imagens irrelevantes. Afinal, é razoável esperar de uma biblioteca de imagens especializada algum rigor na indexação. Mas sei perfeitamente o quanto isso é difícil de ser colocado em prática.

Um outro ponto complicado é o nível de detalhamento na indexação. Ao analisar imagens, é importante considerar os diversos elementos visíveis na cena ou objeto fotografado, mas também é preciso saber desconsiderar detalhes pouco pertinentes. Indexar cada centímetro da imagem pode gerar excesso de informações de pouca utilidade para os usuários. Na imagem abaixo estão visíveis uma árvore, uma pomba e condicionadores de ar nas janelas do prédio, mas é pouco provável que inserir tags para esses elementos tenha algum interesse para quem pesquisa.

Foto de Larissa França Peres

Já a identificação de elementos técnicos da construção de um edifício, ainda que bastante específicos aos olhos de um leigo, podem ser importantes para o especialista,  como mostra a escolha de tags para a imagem abaixo: colônia de férias, sindicato, lazer, centro recreativo, quadra poliesportiva, canteiro de obras, coluna, laje
nervurada, concreto, concreto armado, vão.

Foto do acervo da Biblioteca da FAU

O usuário sem formação em arquitetura terá dificuldades em indexar usando termos técnicos ou usar a ferramenta de interpretação arquitetônica. Um glossário visual dos conceitos básicos da área seria útil, mas, sinceramente, não sei se é viável.

Num acervo colaborativo será impossível evitar decisões diferentes  quanto ao nível de especificidade na indexação, pois cada usuário terá o seu próprio olhar sobre as imagens, condicionado por suas experiências, conhecimento de arquitetura, lógica pessoal etc. Entretanto, acredito que, se forem oferecidas na plataforma orientações básicas e simples para guiar os colaboradores  na atribuição das tags, será possível melhorar um pouco a consistência na indexação.

Um dos conceitos clássicos da análise de imagens,  como aponta Sarah Shatford, é a capacidade que tem uma imagem de representar ao mesmo tempo um objeto específico e uma categoria genérica à qual esse objeto pertence. O assunto de uma foto da Praça da Sé, por exemplo, é tanto Praça da Sé quanto praças. Muitos usuários do Arquigrafia devem intuir isso e indexam as imagens postadas tanto pelo nome específico quanto pela categoria geral, mas nem todos. Seria bastante bem-vinda uma orientação nesse sentido.

Georreferenciação

Ao subir uma imagem por meio do aplicativo móvel, a localização é dada automaticamente pelo Google Maps. O recurso é ótimo, mas só funciona adequadamente se a imagem for postada no local onde foi registrada. Se o usuário fizer o upload em outro local, a georreferenciação ficará errada. Apesar de ser um fato óbvio, muitos usuários não se dão conta disso. Seria útil que o sistema desse um alerta no momento do upload, lembrando que é possível editar e corrigir a localização caso não esteja realizando a postagem no local da tomada da foto.

Adequação das imagens aos objetivos da coleção

Pode parecer evidente, a qualquer ser humano razoável, que a foto de um cachorro ou de um armário de roupas não tem qualquer interesse para uma coleção de imagens de arquitetura brasileira. Está explícito no texto do projeto: “imagens digitais de edifícios e espaços urbanos do Brasil e da comunidade lusófona”.  Não parece difícil de entender (nem de aceitar), mas parece que alguns colaboradores imaginam que seu cachorro ou suas camisetas se enquadram nessa definição. Um controle mínimo de qualidade se faz necessário, portanto,  para preservar as características do projeto.

Observações finais

O Arquigrafia é um trabalho em construção, e tenho certeza de que, apesar das dificuldades inerentes aos projetos tocados com verbas de agências de financiamento de pesquisa, sem pessoal fixo nem dotação orçamentária, ainda vai evoluir bastante. A equipe, da qual fazem parte bibliotecárias da FAU/USP e professoras do Curso de Biblioteconomia da ECA/USP está sempre aberta a sugestões, e eu mesma já dei meus palpites.

A plataforma é aberta a todos que se disponham a compartilhar imagens de arquitetura brasileira. Para participar, basta fazer um cadastro. Não é necessário ser arquiteto, nem estudante de arquitetura, nem fotógrafo. Por esse motivo, considero o Arquigrafia como uma boa oportunidade para professores e estudantes interessados em tratamento documentário de imagens testarem suas habilidades e conhecimentos na prática, travando contato com um sistema de concepção moderna, que busca dialogar tanto com o especialista quanto com os interessados leigos no assunto. Dá para pensar bastante em diversas questões relacionadas ao universo da catalogação e indexação de fotografias, contribuindo, ao mesmo tempo, com a formação de uma bela coleção de imagens de arquitetura brasileira. Sem esquecer, é claro, do cuidado indispensável com a qualidade e pertinência das imagens e informações postadas.

Referência

SHATFORD, S. Analyzing the subject of a picture: a theoretical approach. Cataloging & Classification
Quarterly, v.6, n. 3, p. 39-62,1986.

Mais informações sobre o projeto do Arquigrafia: http://www.arquigrafia.org.br/project

 

 

 

 

 

 

 

 

 





A linguagem secreta do cinema

2 01 2018

O livro Jean-Claude Carrière, A linguagem secreta do cinema, é uma ótima leitura para quem tem vontade ou necessidade de aprender um pouco sobre cinema. Bibliotecários ou arquivistas que trabalhem com acervos de filmes e não tenham formação específica em cinema, estudantes querendo fazer um trabalho sobre organização de filmes e curiosos sobre o assunto em geral podem ler sem susto.

O texto é simples e de leitura agradável, tratando de técnica sem ser técnico, de linguagem e estética sem ser hermético nem chato. Mas não imaginem que seja um livro superficial ou bobinho, não é nada disso. O autor é um roteirista consagrado, que trabalhou com Luis Buñuel, Nagisa Oshima e Louis Malle e foi diretor da École Nationale Supérieure des Métiers de l’Image et du Son, uma importante escola de cinema francesa. Ele, obviamente, sabe do que está falando. Não é somente um teórico, é alguém que teve a mão na massa a vida toda.

Como bibliotecária audiovisual e ex-“filmotecária”, o que mais me chamou a atenção no livro foram os conceitos que provocam reflexões sobre a análise documentária de filmes: o espaço e o tempo nos filmes, o que vemos e deixamos de ver, a questão da realidade no cinema, a função do roteiro e da montagem etc.

No filme Esse obscuro objeto do desejo, dirigido por Luis Buñuel, a mesma personagem é interpretada por duas atrizes bastante diferentes, Angela Molina e Carole Bouquet. Curiosamente, segundo Carrière, muitos espectadores não se deram conta dessa particularidade.

(…) será que não abrigamos, no fundo de nós mesmos, algum tabu, ou hábito, ou incapacidade, ou obsessão, que nos impede de ver o todo ou uma parte do audiovisual que cintila fugazmente diante de nós? (p. 10).

São fenômenos como esse que são descritos e analisados no livro. Vou destacar aqui alguns trechos que me pareceram particularmente interessantes.

Explicando o que está diante dos olhos

Carrière conta que, em nos primórdios do cinema, na Espanha e em alguns países africanos, havia a figura do  explicador de filmes,  um indivíduo que ia explicando para a platéia o que se passava na tela. Do contrário, pessoas de cultura predominantemente oral não conseguiriam entender as imagens sem som (e em preto e branco) que se sucediam diante de seus olhos.

Isso ocorria porque o cinema criou uma linguagem completamente nova, que poucas pessoas conseguiam entender rapidamente, em seu início. O autor enumera, ao longo do livro, vários exemplos dessa incompreensão: o famoso susto dos espectadores da primeira sessão de cinema com o trem que avançava em sua direção; a população de uma aldeia argelina que não entendeu um documentário sobre uma doença que os afetava e que era transmitida por uma mosca, porque eles não tinham moscas daquele tamanho; os caçadores de hipopótamos que acharam errada a música deles mesmos que o cineasta Jean Rouch usou como fundo, porque se eles tocassem música durante a caça, os hipopótamos fugiriam.

Mesmo hoje, que a linguagem do cinema é parte do nosso dia-a-dia e que as imagens em movimento talvez seja a forma de expressão mais consumida pela população, ainda temos ocasião de observar fenômenos de incompreensão. Espectadores habituados a consumir o cinema comercial produzido nos Estados Unidos têm dificuldade, por exemplo, em apreciar filmes de outras cinematografias, que consideram difíceis de entender, monótonos e chatos. E quem nunca se aborreceu com um adulto, no cinema, explicando o enredo a outro adulto que não está entendendo nada do que vê?

Bibliotecários, em sua prática profissional,  trabalham  a todo instante com a necessidade de explicar.  Fazer um resumo, escolher termos de indexação ou recomendar um filme a um usuário, são todas formas de explicar e traduzir, de dizer qual é o assunto do filme e mostrar porque esse filme pode ser útil àquele espectador. Não são tarefas fáceis e precisam ser feitas com bastante consciência do terreno em que estamos pisando.

A montagem e o espaço do filme

Para Carrière, o nascimento da montagem foi o fator que definiu o surgimento de uma linguagem autenticamente nova: ‘”foi aí, na relação invisível de uma cena com a outra, que o cinema gerou uma nova linguagem. No ardor de sua implementação, essa técnica aparentemente simples criou um vocabulário e uma gramática de incrível variedade. Nenhuma outra mídia ostenta um processo como esse” (p. 14).

O autor vai explicando essa ideia com o exemplo do homem que se aproxima de uma janela e olha para fora. A imagem seguinte mostra uma mulher e outro homem na rua – a esposa do primeiro homem e seu amante. O espectador contemporâneo já entende, pela simples justaposição das duas imagens, que o personagem viu a esposa com um amante. Esse reconhecimento é quase automático, mas não era assim no início do cinema, quando a montagem começou a ser usada. Dependendo das imagens que venham a seguir e das diversas escolhas estéticas envolvidas (posição de câmera, iluminação etc), a história pode prosseguir nos mais diferentes rumos, que podemos inferir a partir dos detalhes que percebemos. “O cinema cria, assim, um novo espaço, com um simples deslocamento do ponto de vista” (p. 17).

Esse “novo espaço” criado por processos narrativos específicos da linguagem cinematográfica pode apresentar ao profissional que faz a análise documentária desafios muito particulares. Vamos imaginar que a próxima imagem, depois da sequência do homem que vê a esposa e o amante pela janela, seja de um revólver sendo disparado por mão invisível, seguida por imagens de um cortejo fúnebre, e que o filme termine nesse ponto. O que faz o indexador que precise escrever um resumo minucioso e escolher termos para indexar esse filme? O que aconteceu? Alguém morreu? O marido matou alguém? Seria melhor apenas descrever a sequência de imagens e deixar a conclusão em aberto? Essas questões são parte da rotina do profissional da área. Por isso, embora não seja imprescindível formação específica em cinema para tratar um acervo de filmes, é importante que o profissional esteja atento às dificuldades inerentes à prática e, muito consciente de suas próprias limitações. Ver filmes sempre, de todo o tipo, inclusive os experimentais, tentar acompanhar festivais e se manter atualizado com o que acontece no mundo do cinema é fundamental. Carrière conta que, antes do surgimento da televisão, pessoas que ficaram presas por alguns anos, sem acesso filmes tinham dificuldades para entendê-los quando saiam da prisão. É uma linguagem evolui muito rapidamente.

O cinema e o real

O cinema – e as imagens em movimento de uma forma geral –  tem um “misterioso e irresistível poder de convencimento” que nos leva a acreditar no que vemos de uma forma quase incompreensível. Mesmo nos dias de hoje, pessoas relativamente bem informadas e que sabem, ou deveriam saber, que imagens podem ser manipuladas, ainda defendem seus pontos de vista com argumentos do tipo “é verdade, eu vi o vídeo”.

A rede de imagens que nos cerca é tão densa, tecida de forma tão intrincada, que é quase impossível não ceder a uma espécie de indolência mental, uma sonolência intelectual que permite a invasão de mentiras (…). A “verdade” de uma foto, ou de um cinejornal, ou de qualquer tipo de relato é, obviamente, bastante relativa, porque nós só vemos o que a câmera vê, só ouvimos o que nos dizem. Não vemos o que alguém decidiu que não deveríamos ver,  ou que os criadores dessas imagens não viram. E, acima de tudo, não vemos o que não queremos ver (p. 49).

No Brasil (e provavelmente em qualquer outro país), não são raros os casos de atores que interpretam vilões nas telenovelas serem insultados nas ruas por espectadores ingênuos. E lembremos do filme americano A bruxa de Blair (The Blair witch project), cuja campanha publicitária baseada na estratégia tratar os eventos do filme como algo verídico realmente convenceu parte do público da veracidade da história.

No momento da análise documentária, o profissional precisa estar consciente desse poder de convencimento das imagens em movimento, não se deixar levar pela pretensão e tomar bastante cuidado para não se deixar enganar. Não descrever o que não existe de fato do filme e, por outro lado, enxergar o que está escancarado diante de nossos olhos (como duas atrizes interpretando o mesmo personagem) nem sempre é tão simples quanto parece. Ah, mas eu não sou idiota, estou habituado a ver filmes, muitos de vocês devem estar pensando. Talvez, mas gente esperta também faz bobagens e até profissionais do cinema se enganam. Carrière cita, entre vários exemplos, o caso de um microfone que ficou visível, em primeiro plano, durante uma cena inteira. Todos os espectadores viram o que ninguém na equipe havia percebido  (p. 156).

A passagem do tempo também faz seus estragos, não apenas nos filmes, mas no nossa percepção deles. Podemos achar graça em cenas de filmes antigos que não tinham em sua origem qualquer intenção humorística, porque regras estéticas, convenções e estilos de representação mudaram muito. Também é bastante comum não darmos a devida atenção a um evento histórico que, na época da realização do filme, estava tão próximo e vivo que não se considerou necessário dar muitas explicações. Passados 50 anos, o indexador nascido 20 anos depois não percebe que aquele acontecimento foi importante e que deveria ser mencionado.

A passagem do tempo

Algo tão simples e natural quanto a passagem do tempo, os dias e noites que se sucedem, não é tão simples de ser representado no cinema. Carrière dedica um capítulo à anatomia do tempo no cinema, mostrando os recursos que são usados para mostrar a passagem do tempo, as “regras secretas” da sequência temporal, os ritmos da sucessão de dias e noites etc. Espetadores comuns raramente estão atentos a essas questões fascinantes que explicam, pelo menos em parte, porque às vezes é tão difícil escrever um bom resumo de um filme de ficção.

Tudo o que estamos vendo – ou, graças à montagem, não vendo – é uma multidão de pequenos subterfúgios em meio ao que parece ser a realidade, subterfúgios que se somam para criar um novo tipo de continuidade temporal.  A ação se move mais rápido do que o filme. Situações, atos, palavras se escondem por entre os quadros (p. 99).

A citação acima resume de forma perfeita a encrenca em que está metido o profissional que se lança à análise documentária de filmes. Carrière narra um episódio ocorrido quando, em sua estréia como roteirista de cinema, a montadora de Jacques Tati lhe explicou, mostrando um roteiro e um rolo de filme, que “o problema todo consiste em ir daqui para lá“. E para nós, indexadores, o problema consiste em fazer o caminho inverso, do filme para o texto e para o vocabulário controlado.

Encantamento

Termino esses comentários com uma passagem que remete ao célebre conto Tlön, Uqbar, Orbis Tertius, de Jorge Luis Borges e nos faz pensar no momento que vivemos hoje, em que várias camadas de fantasias, “memes”, imagens e “verdades” artificialmente construídas se sobrepõem ao mundo real.

Talvez o verdadeiro perigo desta saturação pela imagem, de que tanto se fala (geralmente com alarde), resida no desaparecimento, puro e simples, daquilo que costumamos considerar realidade. Existe o perigo de que repetidas imagens do mundo venham, em última análise, a tomar o lugar do mundo… O perigo de que um cinema popularizado e universalmente disseminado possa nos isolar, sem esperança de retorno, do que quer que reste da realidade. De que, num mundo fadado ao desaparecimento (talvez mais cedo do que se imagina), possamos encontrar refúgio provisório numa representação deste mundo (p. 83).

Carrière falava ao cinema, Borges fazia referência a diversos temas filosóficos e ambos escreveram muito antes de existir a internet. A reflexão fica cada dia mais válida e preocupante.

 

CARRIÈRE, Jean-Claude. A linguagem secreta do cinema. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2015.

 

 

 

 

 

 

 





Sobre o que é esse filme?

2 03 2017

resumo: Trato aqui da minha experiência com indexação de filmes, minhas leituras e questionamentos sobre o assunto, principalmente  sobre assuntos para filmes de ficção e diferenças entre indexar filmes e textos. Explico como fiz um estudo sobre indexação de filmes a partir da visão do usuário. A partir dos resultados, procuro verificar se o Vocabulário Controlado USP atende às necessidades específicas de recuperação num acervo de filmes de ficção.

 

A busca e a recuperação dos filmes por aspectos do seu conteúdo, como gênero, assunto, elementos de estilo e linguagem etc, é um dos meus interesses profissionais mais antigos. Meu primeiro trabalho de verdade foi na filmoteca da Escola de Comunicações e Artes da USP, quando ainda cursava Biblioteconomia nessa mesma instituição. Naquela época, início dos anos 1980, praticamente não se falava em indexação de filmes no curso. Os professores apenas diziam o tempo todo que bibliotecários não trabalhavam apenas com livros, mas todo o conteúdo das aulas era voltado para livros. Também  não se falava de indexação de obras ficcionais. O assunto de um romance era “romance” + termo geográfico + época. Éramos orientados a não nos metermos com a literatura e outras áreas criativas, porque a arte era uma seara muito pantanosa onde a objetividade profissional poderia afundar sem remédio.

Na realidade profissional, onde moram os acervos, as pessoas e os problemas, descobri rapidamente que:

as pessoas procuram filmes por assunto tão naturalmente quanto qualquer outro tipo de documento

se o seu catálogo não der a resposta quem vai ter que fazer isso é você, com toda a sua subjetividade

nem sempre a distinção entre ficção e documentário é relevante para o pesquisador – depende de como e para quê o filme será usado.

A resposta para “você tem aí um filme sobre a história do barroco mineiro” poucas vezes é simplesmente  “sim’ ou “não”. Pode vir em forma de contraproposta: “não, mas tenho uma biografia romanceada do Aleijadinho, será que serve”? Ou, depois de alguma conversa sobre o uso que será feito do filme descobrimos, usuário e eu, que ele precisa mesmo de boas imagens em movimento de igrejas do período, necessidade que pode ser suprida por um filme que não tenha, em princípio,  nada a ver com a “história do barroco”.

O Aleijadinho: paixão, glória e suplício

O Aleijadinho: paixão, glória e suplício

Olhos nas mãos: teoria e prática da indexação de filmes

As particularidades da interação entre espectador e obra fílmica definem formas de utilização por usuários de acervos que não se limitam à necessidade de obter informações sobre determinado assunto e entender conceitos (quero saber o que é o barroco mineiro) ou fruição estética e lazer (quero ver um bom filme e me distrair um pouco).

Filmes são exibidos como forma de motivar  debates em diversas situações; para mostrar lugares, atividades e acontecimentos distantes do espectador no tempo e no espaço;  como instrução, explicando como fazer alguma coisa; para provar ou tentar provar um acontecimento ou as circunstâncias em que ocorreu; para serem analisados em sua própria condição de obra cinematográfica ou audiovisual; para ilustrar uma situação ou uma ideia, que pode até mesmo ser o oposto do que é mostrado na tela (o conceito de liberdade, por exemplo, pode ser discutido a partir da historia de indivíduos privados dela numa prisão); para ajudar a compor uma outra narrativa diferente daquela na qual foi produzido, como ocorre, por exemplo, quando um filme de arquivo é inserido dentro de uma narrativa ficcional ou quando sequências de  uma obra de ficção são inseridas num documentário. É importante notar que qualquer forma de utilização de um filme pode envolver a obra em sua totalidade ou trechos isolados. Esses usos dos filmes e outras formas das imagens em movimento, observados na prática diária de quem trabalha com esses acervos, remetem às estratégias comunicacionais da fotografia propostas por Schaeffer (1996).

O processo de indexação dos filmes tem suas diferenças em relação à indexação de textos, não apenas em decorrência das diferenças entre a linguagem verbal e a audiovisual, mas também da necessidade de responder a essas diferentes demandas por parte do público do acervo.  Autores como Shatford (1986), Rafferty  e Hidderley  (2005), e Smit (1996) já analisaram essa questão, mas penso que ainda há pontos a serem explorados em relação às imagens em movimento. Na prática, ao indexar filmes regularmente, é possível notar que:

  1.  operamos uma transposição de linguagens, ou seja, expressamos e sintetizamos sob a forma de texto o conteúdo de um documento composto por imagens em movimento, acompanhadas ou não por sons (diálogos, música, ruídos e outros).
  2. o nível de especificidade da análise de filmes pode chegar a sequências ou planos, enquanto que normalmente não indexamos frases ou parágrafos de um texto. Como trechos de filmes podem ser isolados e utilizados em contexto diferente do original, a indexação se pratica tanto em relação ao conteúdo considerado como um todo quanto a trechos específicos.
  3. aspectos específicos da linguagem cinematográfica como a impressão de realidade e a existência de espaços fora do quadro (XAVIER, 2005) interferem no processo de análise e requerem consciência e atenção por parte do indexador.
  4. o processo de interpretação de imagens envolve dificuldades de reconhecimento e nomeação de objetos, ações, pessoas e locais que não ocorrem, em princípio, quando analisamos informação textual.
  5. o uso de verbos e frases como indexadores surge como forte necessidade na descrição de imagens, tanto fixas quanto em movimento (leão rugindo, soldados correndo, bebês dançando, aves atacando pessoas etc).
  6. há outras dimensões além do assunto envolvidas na indexação de filmes, como o gênero, elementos da linguagem cinematográfica, locações e outros (JACOBS, 1999).

A quantidade de elementos visuais, sonoros e narrativos presentes num filme, bem como a presença de estímulos emocionais e intelectuais muito fortes que podem interferir no processo de indexação são dados que precisam ser levados em conta ao definir critérios e políticas de indexação em coleções de filmes. Estabelecer uma grade que indique ao indexador os elementos aos quais precisa dirigir sua atenção é uma maneira de evitar que a análise documentária se torne um pouco produtivo, embora agradável, exercício de crítica e interpretação de filmes. A proposta que elaborei para a Biblioteca da ECA (MACAMBYRA, 2009) e o modelo criado por Cordeiro e La Barre (2011) são exemplos de possíveis soluções para a questão.

Se o uso das imagens em movimento e o processo de indexá-las têm diferenças substanciais em relação ao que fazemos com textos, como ficam os vocabulários controlados? Os mesmos termos podem representar adequadamente assuntos de filmes e de textos? Na USP usamos o mesmo instrumento, o Vocabulário USP, para indexar documentos de todas as áreas do conhecimento e todos os suportes, inclusive imagens fixas e filmes.  Sempre tive minhas dúvidas quanto a isso, como já expliquei num outro post deste blog, e me incomoda bastante o hábito que temos, enquanto indexadores, de pensar tão torto que o usuário é obrigado a dar voltas para chegar aos conteúdos que indexamos.

O estudo

Há alguns anos decidi perguntar para os usuários como eles veem o assunto dos filmes. Como as pessoas entendem o conteúdo de um filme e o expressam em palavras, sem precisar passar pelo filtro de um vocabulário controlado? A ideia era melhorar a indexação dos filmes na Biblioteca da ECA e verificar até que ponto o Vocabulário USP  atende às necessidades específicas de recuperação num acervo de filmes de ficção.

Cidadão Kane

Cidadão Kane

Escolhi, da lista de filmes mais emprestados no ano anterior – dado fornecido pelo sistema de empréstimos que usamos na USP – 14 longa-metragens de ficção. Procurei selecionar filmes diferentes entre si, de vários gêneros, épocas e níveis de complexidade de linguagem, para não restringir a pesquisa a usuários com um gosto específico para cinema. Os filmes escolhidos foram:

A janela indiscreta – Alfred Hitchcock, 1954

Terra em transe – Glauber Rocha, 1967

300 – Zack Snyder, 2006

O discurso do rei – Tom Hooper, 2010

Laranja mecânica  – Stanley Kubrick, 1971

Tropa de elite – José Padilha, 2007

A pele que habito – Pedro Almodóvar, 2011

Cidadão Kane – Orson Welles, 1941

Matrix (1) – Andy e Larry Wachovski, 1999

Os incompreendidos – François Truffaut, 1959

Pulp-fiction  – Quentin Tarantino, 1994

O labirinto do fauno – Guillermo del Toro, 2006

O encouraçado Potemkin – Sergei Eisenstein, 1925

Ensaio sobre a cegueira – Fernando Meirelles, 2008

 

Elaborei este questionário simples e divulguei pela rede social Facebook, em meu próprio perfil e em grupos de estudantes da Escola de Comunicações e Artes.

Analisando os resultados

Minha preocupação era obter respostas de estudantes de vários cursos, não apenas de biblioteconomia, como já vi em outras pesquisas do mesmo tipo. A tarefa não é tão simples, porque tenho mais contato com alunos de biblioteconomia. Além disso, o tema da pesquisa é mais atraente e compreensível para eles do que para estudantes de outras áreas. Apesar de tudo,  resultado foi razoável: das 66 respostas, 31 foram de estudantes de biblioteconomia de graduação ou mestrandos do programa de pós-graduação em ciência da informação; os demais se distribuíram por outros cursos da Escola: Jornalismo, Audiovisual, Artes Visuais, Publicidade, Turismo e outros. Mais importante:  não percebi diferenças significativas entre os termos escolhidos pelos estudantes de biblioteconomia e os demais.

Excluídos todos os nomes próprios e agrupados todos os sinônimos e variações de plural e singular, obtive 529 termos válidos.

Apenas 12 (2%) dos indexadores não atribuíram termos da esfera do gênero aos filmes analisados, embora o questionário perguntasse explicitamente sobre assuntos, dado que confirma a importância do gênero na recuperação de filmes.

O resultado revelou algumas surpresas. Curiosamente, alguns assuntos que parecem óbvios, à primeira vista, não são tanto  Das 46 pessoas que indexaram Laranja mecânica, 20 não utilizaram o termo violência (ou semelhantes); das 64 pessoas que indexaram Tropa de elite, 24 não usaram o termo polícia (ou semelhante); dos 30 indexadores de Cidadão Kane, 14 não utilizaram nenhum termo relacionado à jornalismo, jornalistas, imprensa ou mídia; apenas 2 dos 9 indexadores de Os incompreendidos usaram o termo infância, apesar do protagonista ser um garoto pré-adolescente e todo os filme estar centrado na vida desse personagem; 20 respondedores indexaram o Encouraçado Potemkin, mas a nenhum deles pareceu relevante usar termos como navio, barco ou armada e apenas deles usou o termo marujos.

Laranja mecânica

Laranja mecânica

Podemos imaginar, sobretudo no caso do Potemkin, cuja indexação foi bastante pobre, que nem todos os participantes de fato assistiram ao filme, embora o enunciado do questionário pedisse que só quem viu os filmes indicasse seus assuntos. Mesmo assim, o fato de que tantos indexadores deixaram de registrar assuntos presentes nos filmes de forma tão evidente permite duas conclusões: 1. nada é previsível quando se trata de pessoas analisando filmes; 2. o uso de uma grade que ajude o indexador a lembrar de termos importantes é um procedimento bastante recomendável para uma indexação consistente.

Embora estivesse bastante claro no questionário que era possível usar frases na indexação (o bem contra o mal), apenas 36 frases (7% do total) aparecem entre os 529 termos. Qualquer análise seria precipitada sem um estudo específico, mas é possível supor que seja mais fácil atribuir assuntos usando termos simples do que imaginar uma frase que represente o conteúdo de um filme.

O uso de frases para descrever imagens e a possibilidade de usá-las para melhorar sistemas de indexação  têm sido objeto da atenção dos pesquisadores. Goodrum (1997) citada por Rafferty e Hidderley (2005) observa que usuários tendem a construir narrativas para descrever imagens quando não estão circunscritos  a uma  busca de informação.O´Connor, O´Connor e Abbas (1999) citados por Rafferty e Hidderley (2005), descobriram que, quando não há descrições de imagens disponíveis, usuários criam narrativas curtas ou histórias para imagens que vão além da descrição dos objetos representados.

Rafferty e Albinfalah exploraram a possibilidade de desenvolver um sistema de indexação de imagens baseado em narrativas, a partir de descrições feitas por usuários. Os participantes do estudo em duas partes realizado pelos autores foram convidados a descrever duas imagens usando palavras-chaves ou sentenças (primeira parte)  e a criar histórias interpretando as mesmas imagens. Elementos relacionados à ambientação, personagens, trama, temas e figuras de linguagem foram predominantes nas descrições, entre as quais surgiram expressões como “a vida é um deserto”, “ventos da mudança”, “procurando respostas”, “perda de um ente querido”, “esperando pelo amor” e “culpando Deus”. Os autores concluíram que, como as narrativas são importantes no processo pelo qual pessoas interpretam imagens,  a incorporação de elementos de narrativa no processo de indexação pode ser válida. Os resultados sugerem que o método de criar narrativas produz mais verbos e estimula respostas mais criativas e grande variedade de interpretações conotativas, podendo contribuir para melhorar a exaustividade da indexação e ajudar na busca de informações de caráter mais casual ou criativo.

Entretanto, esses dois estudos foram realizados com imagens fixas. Seria interessante fazer um teste com imagem em movimento e voltado especificamente para essa questão. Frases têm sido bastante usadas em sistemas como o What is my movie, no qual se pode fazer buscas de formas bastante amigáveis. Observem o resultado de uma busca pela frase “a man against the world“. Creio que a indexação por plots (tramas) seria um filão interessante a explorar por bibliotecários que gostem de fugir um pouco da banalidade consagrada. Vejam isto, por exemplo:

http://tvtropes.org/pmwiki/pmwiki.php/Main/Plots.

Comparando com o Vocabulário USP

Dos 529 termos válidos escolhidos pelos participantes do teste,  234 (44%) estão no Vocabulário USP e 295 (56%) não estão. A quantidade de termos ausentes, apesar de expressiva, não é preocupante, porque o Vocabulário permite a sugestão de termos pelos indexadores. Os termos sugeridos, depois de submetidos à avaliação de um grupo gestor, passam a integrar o Vocabulário.

A questão  mais importante é saber se os termos que não constam do Vocabulário poderiam ser facilmente incluídos ou não. Baseada em minha experiência pessoal de vários anos como indexadora, identifiquei apenas 20 termos (4% do total) que poderiam, ao meu ver, ser incluídos sem grandes problemas. Faço a ressalva, porém, de que é bastante difícil fazer essa análise rapidamente, porque os termos precisam ser avaliados por indexadores da área de assunto de cada um e que conheçam bem a estrutura do Vocabulário antes de serem aprovados.

Dos termos não  presentes, 70 (24%) tem sinônimos ou termos bastante semelhantes no Vocabulário,  que poderiam substituir razoavelmente os propostos.

Termo proposto Termo do Voc.USP
Características de um líder LIDERANÇA
Reinados MONARQUIA
Mundo real REALIDADE
Sedação SEDATIVOS

 

Em alguns casos a substituição seria feita por dois termos, já que o Vocabulário USP é pós-coordenado.

Termo proposto Termo do Voc.USP
Grécia antiga GRÉCIA + ANTIGUIDADE
Gângsteres americanos GÂNGSTERES   + ESTADOS UNIDOS

Eventualmente a pós-coordenação provoca alteração no conceito, sobretudo quando o indexador representou uma relação entre dois termos, como realidade versus ilusão, criança-coragem ou protagonista feminina. Se usarmos dois termos isolados para representar esses conceitos perdemos a ideia da relação entre eles e nosso usuário poderá ter dificuldades para localizar o que precisa. Devemos lembrar que a indexação de filmes normalmente é feita não apenas para o filme como um todo, mas também para partes ou sequências específicas, o que tende a gerar grande número de termos para cada documento. Teremos muitos filmes indexados com os termos coragem e crianças, mas a coragem não será um atributo dos personagens infantis em todos eles.

Matrix: bullet time

Matrix: bullet time

Entre os termos que considerei difíceis de inserir no Vocabulário USP, destacam-se:

Termos relacionados à linguagem, técnica ou narrativa cinematográfica

Não linear

Multi-plot

Plot-twist

Final aberto

Cenários gerados por computador

Bullet-time

Happy-end

O problemas com esses conceitos é que não estamos tratando propriamente de assuntos, mas de formas e processos de realização de filmes. Final aberto, por exemplo, é um termo a ser usado para indexar filmes com final aberto, não documentos sobre final aberto. seria Assim, não seria adequado, em princípio, colocá-los na lista principal de assuntos tópicos do Vocabulário. Tampouco seria correto inserir esses termos na tabela de gêneros e formas, porque outra coisa. Criar uma tabela específica seria uma solução a ser considerada.

Temas clássicos e recorrentes em obras ficcionais

Universo paralelo

Ambição

Busca

O escolhido

Traição

Superação

Tensão

Sociedade em crise

Realidade alternativa

Portais temporais

Investigação

É difícil encontrar um local na hierarquia de um vocabulário acadêmico para termos dessa natureza que são, entretanto, temas bastante comuns no universo da ficção cinematográfica. Precisei esperar mais de um ano pela aprovação dos termos Fim do mundoCéu, Torre de Babel e Juízo final que devem ter dado muito trabalho para minhas colegas do Grupo Gestor. São termos que tendem a criar conflito entre sua coloquialidade e a linguagem acadêmica predominante no Vocabulário. Existem no Vocabulário Busca e apreensão (dentro de Direito) e Busca e resgate (em Saúde), mas não o termo Busca sozinho, necessário para indexar filmes que mostram um personagem em busca de algo ou alguém. O mesmo ocorre com Investigação; temos vários tipos de investigações (criminal, linguísticca, de superfície etc), mas aquele tipo de investigação amadora levada a cabo por um personagem marginal ou desacreditado pelo sistema. Muitos filmes que tratam de um personagem escolhido para uma posição ou missão, cuja chegada foi profetizada em algum momento e que deverá desempenhar um papel decisivo na trama, seriam bem indexados com o termo O Escolhido, mas não consigo imaginar esse termo inserido num vocabulário acadêmico

Termos descritivos muito específicos

Moça de vestido vermelho

Olhos nas mãos

Esses termos em particular podem parecer absurdos e sem utilidade,  não é descabido imaginar a busca de imagens por termos como homem com tapa-olho, idosos de bicicleta, animais com roupas humanas, mulheres atirando flechas, lutas com machados etc.

Termos de conotação moral

Decência

Imbecilidade

Arrogância

Cinismo

Termos como esses  são problemáticos porque exigem do indexador algum tipo de avaliação crítica ou juízo de valor sobre os personagens. Ceder à tentação de fazer julgamentos durante o processo de indexação é um caminho perigoso, que pode dar margem à manifestação de preconceitos por parte do profissional. Não é improvável, por outro lado, que usuários façam buscas por esses conceitos. A solução para esse conflito não é evidente, e talvez se resolva apenas no serviço de referência. 

Termos não relacionados ao conteúdo

Maior bilheteria nacional

Palma de Ouro

Diretores famosos

Conceitos ligados a diferentes aspectos de produção ou distribuição,  premiações, festivais etc são importantes na recuperação de filmes. Mas onde colocamos essas informações? Como assunto tópico, certamente não. Pode parecer ingênuo pensar em recuperar filmes por meio da expressão “diretores famosos”, mas não se pode deixar de ver, por trás da designação pouco feliz, uma necessidade autêntica de usuários de filmes. Devemos, portanto, criar meios de atender a essas demandas.

Um final aberto

Meu pequeno estudo confirma minhas percepções sobre indexação de filmes e uso de vocabulários controlados, desenvolvidas ao longo de anos de prática como indexadora.

Não observei diferenças muito significativas entre a indexação feita pelos estudantes que participaram do teste e pelos indexadores profissionais da Biblioteca da ECA quanto à escolha de termos. Falhas como esquecimento de aspectos importantes, falta de exaustividade e de precisão provavelmente não ocorreriam se os participantes estivessem indexando num ambiente controlado, apoiados por instrumentos de apoio e seguindo políticas pré-estabelecidas.

O labirinto do fauno

O labirinto do fauno

O Vocabulário USP pode ser usado para indexar filmes sem grandes dificuldades, mas é necessário introduzir algumas modificações para que se torne um instrumento mais efetivo. Para tanto, será preciso descobrir meios de introduzir termos específicos para indexação de filmes e imagens sem desfigurar o caráter acadêmico e científico do Vocabulário. Uma boa opção seria criar um vocabulário complementar, compatível com o vocabulário principal mas destinado à indexação de filmes de ficção e imagens.

Referências

CORDEIRO, Rosa Inês; LA BARRE, Kathryn.  Análise de facetas e obra fílmica. Informação & Informação, Londrina, v. 16 n. 3, p. 180 – 201, jan./ jun. 2011. Disponível em <http://www.uel.br/revistas/uel/index.php/informacao/article/view/10562/9289>. Acesso em 20 fev. 2017.

JACOBS, Christine.If a picture is worth of a thousand words, then … The Indexer, v. 21, n. 3, 1999.

MACAMBYRA, Marina. Manual de catalogação de filmes da Biblioteca da ECA. São Paulo: Serviço de Biblioteca e Documentação ECA/USP, 2009.

RAFFERTY, P.; ALBINFALAH, F. A tale of two images: the quest to create a story-based image indexing system.Journal of Documentation, Bradford, v. 70, n. 4, p. 605, 2014. ISSN 00220418. Disponível em: <http://search.proquest.com/docview/1660744988?accountid=14643 >

RAFFERTY, P.; HIDDERLEY, R. Indexing multimedia and creative works: the problems of meaning and interpretation. Aldershot: Ashgate, 2005.

SCHAEFFER, J. M. A imagem precária: sobre o dispositivo fotográfico. Campinas: Papirus, 1996.

SHATFORD, Sara. Analyzing the subject of a picture: a theoretical approach. Cataloging & Classification Quartelly, v. 6, n. 3, p. 39-62, 1986.

SMIT, J. A representação da imagem. Informare: caderno do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação, Rio de Janeiro, v.2, n. 2, p. 28-36, jul./dez. 1996.

XAVIER, Ismail. O discurso cinematográfico: a opacidade e a transparência. São Paulo: Paz e Terra, 2005.

 

Agradeço ao pessoal que dedicou seu tempo a responder ao meu questionário ao José Estorniolo Filho pela ajudar na tabulação e na  busca de termos no Vocabulário USP.





Manual da FIAF, o retorno

2 10 2016

moving-imagine-cataloguing-manual-250A Federação Internacional dos Arquivos do Filme (FIAF) lançou, em abril de 2016 o FIAF moving image cataloguing manual, revisão das normas de catalogação de filmes publicadas em 1991. O trabalho está disponível para download gratuito no site da FIAF.

Quando tomei conhecimento das normas da FIAF, num curso ministrado por uma profissional da Cinemateca Brasileira, já catalogava filmes há uns dez anos utilizando normas desenvolvidas localmente. Tive duas surpresas agradáveis: primeira, nas regras da FIAF eu encontrava solução para quase todos os problemas de catalogação de filmes com os quais já havia me defrontado; segundo, as soluções que eu mesma havia criado a partir da observação das necessidades dos usuários da instituição na qual trabalhava não eram tão diferentes assim daquelas da FIAF, em sua essência e  guardadas as devidas proporções.

O novo manual parece, à primeira vista, um trabalho bem mais profundo do que uma simples atualização de normas e tem novidades interessantes. Uma das mais importantes é a inclusão de elementos dos Requisitos Funcionais para Registros Bibliográficos (FRBR) e dos metadados para obras cinematográficas do European Standards Commitee (CEN).  O novo manual adota as entidades Obra, Variante (e não Expressão) Manifestação e Item, preferindo os conceitos de Obra e Variante propostos pelo CEN, por serem mais adequados à representação das imagens em movimento do que os conceitos de Obra e Expressão dos FRBR.

Para os FRBR, Obra e Expressão são entidades abstratas; apenas a Manifestação e o Item têm dimensão física. É difícil, entretanto, imaginar obras cinematográficas como idéias abstratas, porque são produto do trabalho de equipes formadas por diversos criadores e técnicos, só existindo, de fato, quando se tornam objetos analógicos ou digitais. Resumindo, para que um filme exista é necessário que:  um roteiro seja escrito; cenários e figurinos sejam criados; imagens e sons registrados separadamente sejam reunidos e montados numa ordem que não é a mesma da filmagem ou gravação, ocorrendo em todas as etapas do processo decisões estéticas do diretor, produtor, fotógrafo, iluminador, atores, diretor de som, montador etc. No mundo das imagens em movimento, uma Obra já é sua própria expressão.

Variante, na terminologia da FIAF, são versões do filme que trazem variações do conteúdo original, por exemplo, cortes ou acréscimos de cenas, diálogos ou narração, cores, música etc.  Assim, a versão de 1992 do filme Blade Runner modificada pelo diretor, que suprimiu a sequência final e a narração do original lançado em 1982, é uma variante. A versão colorizada, com trilha sonora de música pop e outras modificações do filme Metrópolis, realizada em 1984 por Giorgio Moroder, é uma variante do filme silencioso original, dirigido por Fritz Lang em 1927.

apresentacao1

As normas da FIAF foram elaboradas para atender às necessidades bastante sofisticadas das cinematecas e arquivos de filmes, mas, como se trata do trabalho  mais completo e profissional voltado para o universo das imagens em movimento, qualquer catalogador de filmes precisa conhecê-las, não importa a regra que siga. Segundo a FIAF, são compatíveis com outros padrões existentes, notadamente o RDA: Resource Description and Access.

Então, pessoal, coragem. Cliquem lá no link e aprendam tudo (ou quase tudo) que vocês precisam saber sobre catalogação de filmes.

 

 





Seleção e desenvolvimento de coleções de vídeos

23 02 2016

Quem trabalha com coleções de vídeos, DVDs ou qualquer outro suporte para distribuição de filmes no mercado doméstico costuma se deparar com questões do tipo:

Mas esse filme é tão bom, por que não tem aqui? Deveria ter.

Vocês AINDA não compraram os filmes que ganharam o Oscar no ano passado?!

O que esta porcaria de filme faz aqui?

Como não se pode ter todos os filmes do mundo no acervo, e mesmo que nos limitássemos aos filmes bons do mundo seria difícil concordância total em torno do que seja um filme bom, é fundamental ter critérios de seleção que deem consistência à coleção e que nos permitam dar ao usuário as respostas aos seus questionamentos.  Que poderiam ser, hipoteticamente:

Mesmo que seja bom, grandes sucessos comerciais que podem facilmente ser encontrados em outras locais não são nossa prioridade de compra.

Nós não compramos, necessariamente, filmes premiados com o Oscar. Seria necessário que o filme se enquadrasse em outros critérios, como importância do realizador, temática etc.

Independentemente da qualidade, procuramos comprar todos os filmes que sejam adaptações de obras literárias brasileiras.

A literatura sobre o assunto não é nada abundante, menos ainda do que na área do tratamento da informação. Um dos motivos pode ser o pouco tempo de reflexão sobre o assunto na área, já que a presença de coleções de vídeos em bibliotecas é algo relativamente recente. Nas universidades, que estão entre as primeiras instituições a incorporarem o vídeo como tecnologia educacional, as coleções começaram a se desenvolver fora das bibliotecas, situação que só começou a mudar na segunda metade dos anos 1970 (BRANCOLINI, 1994),  mas as políticas de desenvolvimento para esse tipo de coleção ainda não estão suficientemente presentes mesmo nessas instituições (WALTERS, 2003).

Num estudo realizado em 1977 pela Association of Research Libraries, bibliotecários apontaram como um dos obstáculos para o desenvolvimento de coleções audiovisuais em suas bibliotecas o receio de que a aquisição de documentos e equipamentos audiovisuais provocassem o declínio dos acervos de documentos impressos (ASSOCIATION OF RESEARCH LIBRARIES, 1977 citada por BRANCOLINI, 1994). Para Mason (1994), esse medo teria suas origens na grande preocupação com o analfabetismo nos Estados Unidos, problema cuja culpa foi equivocadamente atribuída à televisão e, por extensão, ao vídeo. Os coleguinhas da terra do Pato Donald, de acordo com essa autora, reagiram a essa ameaça imaginária aferrando-se à ideia de que as bibliotecas seriam o último reduto do “sagrada palavra impressa” (p. 10).

A última tempestade, filme de Peter Greenaway

A última tempestade, filme de Peter Greenaway

Não encontrei dados sobre a situação dos acervos de vídeo no Brasil, nem publicações brasileiras sobre o assunto, mas minha experiência pessoal me faz supor que por aqui não é diferente. Quando comecei a trabalhar na Escola de Comunicações e Artes da USP,  em 1981, já havia na Biblioteca uma coleção de filmes, originária do Departamento de Cinema da Escola. Incorporada oficialmente ao acervo da Biblioteca em 1973, na prática era gerenciada por pessoal sem formação em biblioteconomia.  Ao procurar por experiências semelhantes para orientar meu trabalho de organização de acordo de acordo com os princípios da área, descobri que poucas bibliotecas na cidade mantinham acervos de filmes e que a única outra grande filmoteca existente na USP era a da Faculdade de Educação – que na época não fazia parte da biblioteca. Alguns anos mais tarde, na segunda metade da década de 1980, começamos a formar uma coleção de vídeos na Biblioteca da ECA. Novamente, vivi o problemas de não encontrar experiências semelhantes para estudar. Os critérios para seleção do material foram estabelecidos na base da experimentação e erro, com o indispensável auxílio do professores da instituição, notadamente os do curso de cinema.

Sempre acreditei, baseada em tudo o que vi e ouvi no decorrer de uma longa militância audiovisual, que o problema dos bibliotecários brasileiros era a falta de formação para tratar qualquer documento que não tenha letras impressas, página de rosto e lombada, mas talvez existam razões mais profundas. É difícil saber se o mesmo preconceito ingênuo contra a linguagem audiovisual admitido pelos bibliotecários dos Estados Unidos também nos afetou aqui no Brasil. Mas, como sempre importamos muita cultura daquele país e estudamos muita literatura técnica lá publicada, não é possível que essa desconfiança em relação aos vídeos tenha sido assimilada pelos bibliotecários brasileiros, talvez até de forma pouco consciente?

De uma forma geral, princípios básicos de desenvolvimento de coleções e seleção de documentos  podem ser aplicados a coleções de vídeos (WALTERS, 2003; MULTIMEDIA), mas sempre será necessário ter cuidado com aspectos específicos da linguagem, da técnica e, sobretudo, do uso que se faz desse tipo de documento. Conhecer o usuário da coleção e como ele costuma utilizar filmes em sua as atividades (ou em sua vida), é o primeiro passo para elaborar critérios de seleção. Vamos lembrar que um mesmo filme pode ser usado de várias formas:

como objeto de estudo em si, por estudiosos do cinema;

fonte de informação sobre um assunto;

lazer e fruição;

fonte de imagens específicas para serem reutilizadas em diferentes contextos;

para motivar ou estimular discussões

etc

Quando formamos uma coleção de vídeos estamos, na realidade, trabalhando com um enorme variedade de conteúdos que podem ser registrados em suportes como o velho videocassete, DVD, blu-ray  e o que mais houver. Nossa coleção pode ter filmes originalmente realizados para cinema (ou TV) de curta ou longa metragem, telenovelas, publicidade, peças de teatro, clips musicais, óperas, reportagens, telejornais, aulas, palestras, vídeos institucionais, videoarte, videodança, registros de performances  etc. É importante definir qual será o perfil da coleção em relação a essa variedade de opções, lembrando que cada uma delas pode ser um universo. Preciso de comerciais de TV no acervo? Ótimo. Consigo obter esse tipo de material? Maravilha. Meu problema agora é saber o que priorizar, porque “todos” não é uma opção viável. O acervo terá, predominantemente, filmes de longa metragem? Então precisamos pensar em cineastas, épocas, países, gêneros, técnicas. Se fosse fácil não teria graça, nem precisaria de pessoal especializado para fazer, certo? Para Brancolini (1994), seleção de vídeos pode ser responsabilidade de um especialista no assunto, de um especialista no formato ou de um comitê com ambos, e, por exigir conhecimentos específicos, seria desejável contratar bibliotecários treinados para a tarefa.  Sugestões sábias, sem dúvida, mas viáveis apenas em bibliotecas com recursos para tanto.

Deus e o Diabo na terra do sol, filme de Gláuber Rocha

Deus e o Diabo na terra do sol, filme de Gláuber Rocha

 

Para montar uma boa coleção de  vídeos de cinema o bibliotecário precisa se empenhar em conhecer a área e construir um bom repertório de filmes, mas não pode prescindir da ajuda de especialistas. Só gostar de cinema e conhecer nomes de cineastas não basta. Na Biblioteca da ECA os professores do curso de cinema nos forneceram as principais orientações sobre o que priorizar:

filmes importantes para o estudo do cinema em suas várias disciplinas (recebemos uma lista com os cineastas mais estudados na Escola)

títulos mais difíceis de serem encontrados em locadoras comerciais (na época as locadoras estavam no auge);

filmes não muito recentes, que já passaram pelo crivo do tempo e de diversas análises;

produções brasileiras, independentemente da qualidade;

trabalhos feitos para a televisão: compactos de novelas, séries e minisséries (no caso das séries, pelo menos a primeira e a última temporadas);

filmes de animação.

Aos poucos fomos acrescentando outros critérios, a partir da observação das demandas de usuários e da identificação das necessidades dos cursos da instituição.

Numa biblioteca universitária, onde é possível contar com a ajuda do especialista da área que também é o usuário prioritário da coleção e onde existe o critério relativamente objetivo do uso em disciplinas, a tarefa da seleção é menos complexa do que numa biblioteca pública, por exemplo. Pittman (1994) considera que os critérios de seleção para um acervo de cinema em biblioteca pública precisam considerar que a coleção pode ter vários perfis: 1. visão geral da história do cinema; 2. seleção dos melhores exemplos dos principais gêneros cinematográficos; 3. representação da obra dos melhores cineastas; 4. coleção popular. É na hora de definir quais são esses “melhores”  que o bicho costuma pegar. Não somos nós, bibliotecários, que vamos dizer quem são os melhores cineastas do universo, mas precisamos saber onde buscar as informações para fundamentar a seleção.

Na literatura estrangeira, é comum encontrar a recomendação para consultar listas de melhores filmes elaboradas pela crítica. É uma opção, mas é importante escolher as listas com cuidado, preferindo aquelas elaboradas por instituições ou publicações especializadas em cinema, comparar várias listas de fontes e países diferentes e evitar se apoiar na opinião de um único especialista. A lista da revista Cahiers du Cinéma e a do British Film Institute são apenas dois exemplos de fontes respeitáveis. Ter filmes premiados no acervo é uma boa ideia para atrair interesse do público mas, de novo, cuidado. Tudo bem adquirir filmes que receberam Oscar, mas é importante mostrar aos usuários que existem outros prêmios, outras culturas e diversos festivais espalhados pelo mundo e pelo Brasil, como a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, o festival É Tudo Verdade, o Sundance Film Festival, o Festival de Berlim etc.

CIdadão Kane, filme de Orson Welles

CIdadão Kane, filme de Orson Welles

Pittman (1994) menciona ferramentas criados especialmente para auxiliar bibliotecários, como esta, da American Library Association, mas aqui no Brasil não existe nada parecido, que eu saiba.

Outras questões a considerar com atenção em qualquer tipo de coleção de filmes:

Idioma: preciso ter apenas filmes legendados em português ou meu público se vira com legendas em inglês, espanhol ou mesmo sem legendas? E quanto aos filmes dublados, preciso ter ou não? Há um tipo de filme que deve ser preferencialmente dublado ou legendado?

Suporte: quase todos os acervos começaram em videocassete. Devo (e posso) adquirir todos os títulos novamente, em DVD ou blu-ray? Melhor ainda, é precisa ter no acervo físico todos os títulos de interesse dos usuários ou posso trabalhar com indicações de material disponível online?

Distribuidoras: há diferenças consideráveis entre as empresas que distribuem filmes para o mercado doméstico, tanto na qualidade de imagem e som das cópias quanto na presença de extras, encartes, cuidado com as informações nos menus e embalagens etc.

Versões e refilmagens: alguns filmes têm mais de uma versão, com pequenas ou não tão pequenas diferenças entre uma e outra (versão do diretor, versão do produtor etc). Outros são refilmados várias vezes, com elenco e equipe diferentes (temos uns 4 ou 5 King Kongs). É preciso estipular critérios para adquirir ou não várias versões ou refilmagens e, naturalmente, tomar cuidado para não comprar o filme errado.

Vou encerrando por aqui este texto, antes que os leitores caiam no sono, mas ainda há muito a comentar e discutir sobre o assunto. Aguardem outros posts.

 

BRANCOLINI, Kristine R. Video collections in academic libraries . In.: HANDMAN, Gary (Ed.). Video collection development in muti-type libraries: a handbook. Westport: Greenwood Press, 1994, p. 41-70.

MASON, Sally. Libraries, literacy, and the visual media. In.: HANDMAN, Gary (Ed.). Video collectiom development in muti-type libraries: a handbook. Westport: Greenwood Press, 1994, p. 9-13 .

MULTIMEDIA seeds: audio and video collections in schools and libraries. Disponível em <http://eduscapes.com/seeds/index.html&gt;.  Acesso em:  19 fev., 2016.

PITTMAN, Randy. Cinema collections: public libraries, p. 195-206. In.: HANDMAN, Gary (Ed.). Video collectiom development in muti-type libraries: a handbook. Westport: Greenwood Press, 1994.

WALTERS, W.H.  Video media acquisitions in a college library. Library Resources & Technical Services , v. 47, n. 4 , p. 160–170, 2003.

 





Os números de 2015

7 01 2016

Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2015 deste blog.

Aqui está um resumo:

Um bonde de São Francisco leva 60 pessoas. Este blog foi visitado cerca de 2.900 vezes em 2015. Se fosse um bonde, eram precisas 48 viagens para as transportar.

Clique aqui para ver o relatório completo