Indexação de imagens e expressão fotográfica

30 01 2019

colaboração: José Estorniolo Filho

Quando observamos uma fotografia, não vemos apenas o objeto fotografado, vemos o resultado de uma série de decisões técnicas e estéticas do fotógrafo, que seleciona entre os recursos oferecidos pelos equipamentos os que mais se prestam a expressar sua individualidade de artista ou, simplesmente, a fazer o registro mais fiel ou interessante do objeto.

Diferentes enquadramentos ou posição da câmera, uso de lentes ou filtros especiais, por exemplo, podem gerar imagens bastante diferentes entre si, como se pode ver nessas fotos da Torre Eiffel:

foto 1 – Chris Khamken (Flickr)

foto 2

foto 3

foto 4

Essas diferenças entre imagens do mesmo objeto podem ser decisivas para a escolha do usuário. Se eu preciso de uma foto que mostre a torre por inteiro, com seu entorno visível, as melhores opções serão as fotos 2 e 4; as fotos 1 e 3 podem interessar mais a alguém em busca de uma visão “diferente” da torre.

Não é difícil entender, portanto, que a expressão fotográfica, termo cunhado por Johanna Smit para designar o conjunto de recursos técnicos e estilísticos que integram a linguagem utilizada pelos fotógrafos, tem impacto sobre a recuperação da informação e deve ser levada em conta no momento da descrição das imagens para fins de indexação (SMIT, 1997). O tema da incorporação da expressão fotográfica à análise documentária de imagens também foi explorado por Miriam Manini, que prefere o termo dimensão expressiva (MANINI, 2004). As duas autoras  elaboraram propostas de sistematização dos elementos da expressão fotográfica  destinados ao uso no processo de indexação. Estorniolo Filho (2004), em seu trabalho de conclusão de curso orientado por Johanna Smit,  apresentou um quadro no qual priorizava os efeitos visíveis na imagem, e não a técnica usada para obtê-los. Vejam aqui as três propostas.

A ideia de introduzir a análise da expressão fotográfica no universo do tratamento de imagens parece excelente, mas, até o momento, não encontramos na literatura autores que tenham avançado na discussão desse tema. 

 Na base de dados Library & Information Science Abstracts (LISA), a busca por artigos publicados nos últimos 5 anos sobre os assuntos “indexing images” e “indexing photographs” recuperou 37 itens, dos quais 23 abordam, predominantemente,  aspectos relacionados à recuperação automática. Na base SCOPUS, que é multidisciplinar, a mesma busca resulta em mais de 1101 artigos. Não fizemos a análise de cada artigo recuperado, devido à grande quantidade, mas o filtro da base mostram que são, indica, majoritariamente,  das áreas de ciências da computação, engenharia e matemática. A julgar por esse resultado,  as questões da análise e recuperação das imagens podem estar migrando para a área da computação, no âmbito do desenvolvimento das ferramentas automáticas.

De fato, é provável que a rápida evolução dos sistemas automáticos seja a solução mais viável para a recuperação da informação em grandes bases de dados da web, e isso não é ruim. O que preocupa é a possibilidade de que os pesquisadores e bibliotecários estejam abandonando a necessária reflexão sobre o tema do olhar humano sobre as imagens.

Também não encontramos relatos sobre a prática da indexação por elementos da expressão fotográfica em acervos de imagens, embora alguns termos isolados estejam sendo usados em bancos de imagem disponíveis na web. 

Na prática

Para que a análise da expressão fotográfica seja realizável na prática da indexação de imagens, algumas dificuldades precisam ser resolvidas:

  • estabelecer quais elementos da expressão fotográfica podem ser identificados a partir da análise de imagens que o indexador, em geral, não sabe como foram produzidas
  • identificar que elementos terão utilidade prática para o público da coleção, considerando que termos técnicos nem sempre são compreendido por leigos
  • padronizar a terminologia, criando uma lista de termos com suas definições, destinada a ser usada pelos indexadores.
  • formar indexadores com o mínimo de informação técnica indispensável para a análise da expressão fotográfica.

É fácil notar que a imagem acima tem características bem marcantes que deveriam ser apontadas na indexação. Mas como saber que técnica foi usada em sua produção? Há só uma maneira de obter esse efeito? Como devo nomeá-lo? São questões difíceis de serem respondidas sem algum conhecimento técnico.

Identificar corretamente o efeito que vemos numa imagem é importante, mas não suficiente. Na prática de indexação é preciso selecionar quais elementos da expressão fotográfica serão indexados e que termo será usado para representá-lo. Vamos tomar como exemplo as fotografias com pouca profundidade de campo, nas quais apenas os elementos que aparecem em primeiro plano estão nítidos, enquanto o fundo não está em foco. Como esta:

Se o indexador concluir que vale a pena destacar essa característica, terá pela frente a tarefa de escolher qual termo vai adotar: sem profundidade de campo, baixa profundidade de campo, fundo desfocado.

São decisões que dependem no contexto: finalidade da coleção, perfil do usuário, possíveis formas de uso, infraestrutura e condições práticas de trabalho.

Indexação e recuperação automática

A tecnologia dos mecanismos de busca da internet procura atender à demanda por imagens com características visuais específicas por meio do recurso da busca por similaridade. Assim, quem busca pelo termo “multidão” no Getty Imagens recupera imagens tão diferentes quanto estas:

Getty Images

Um botão “Imagens semelhantes” permite que o usuário, em princípio, encontre mais imagens que atendam às suas necessidades. O resultado, entretanto,  pode não ser exatamente o que se espera. Para esta esta imagem, por exemplo:

Getty Images

A busca por semelhança devolveu uma série de images de torcedores semelhantes apenas pelo tema e pela presença dos braços erguidos, como esta:

Getty Images

Nesse caso, uma análise correta da expressão fotográfica, realizada por indexadores humanos a partir de uma lista padronizada de termos traria muitos benefícios à recuperação da informação.

No Flickr, site de compartilhamento e hospedagem de imagens, os usuários podem inserir tags tanto em suas próprias fotos quanto nas dos demais. Além disso, existe a atribuição de tags por um robô. As tags automáticas incluem até mesmo elementos de expressão fotográfica, mas não há consistência na indexação. O termo “profundidade de campo” de campo, por exemplo, foi atribuído a esta foto:

mas não a outras imagens com as mesmas características, como a do lagarto mais acima e esta:


Os usuários do serviço são orientados a analisar as tags automáticas e rejeitá-las, caso não estejam de acordo ou identifiquem erros de reconhecimento de imagem, contribuindo, dessa forma, para aprimorar a ferramenta.

Um dos problemas do Flickr, bem como de de outros ambientes colaborativos do mesmo tipo, é a falta de orientação para a atribuição de tags. Indexar imagens, mesmo que sejam as nossas próprias, não é uma tarefa que se resolva de forma totalmente intuitiva. Se não houver um método ou, pelo menos, alguns critérios, não haverá consistência na indexação. A recuperação de imagens no Flickr seria bem mais eficiente se o serviço oferecesse orientações simples para a atribuição de termos, complementadas por exemplos visuais. Dessa forma, o usuário teria mais condições de atribuir tags melhores para suas fotos e analisar com mais propriedade as tags automáticas. O robô indexador é um instrumento poderoso, mas é o olhar humano crítico que vai fazer a tecnologia se desenvolver.

Como ficamos?

Apesar do aparente desinteresse – ou incompreensão – dos profissionais e pesquisadores da área de indexação, análise da expressão fotográfica merece atenção e estudo. Basta ser usuário de imagens para perceber que as escolhas técnicas e estilísticas do fotógrafo definem o resultado final de uma fotografia.

Preferimos o termo expressão fotográfica por remeter ao universo específico da técnica e da linguagem fotográficas. Dimensão expressiva pode se referir, a rigor, a qualquer aspecto de uma imagem.

O trabalho de análise da expressão fotográfica, identificação dos elementos e padronização de terminologia não é simples. Mas como nada é exatamente simples no universo do tratamento documentário de imagens, as dificuldades não devem nos intimidar.

A primeira coisa que um profissional que se proponha a indexar acervos de imagens fotográficas precisa entender é a própria fotografia. Conhecimentos mínimos da técnica, história, linguagem e conservação são fundamentais. Não é indispensável – embora seja interessante – fazer um curso de fotografia. A leitura de um bom manual de fotografia e a experiência de manusear uma câmera, entender seu funcionamento e fotografar o mundo ajuda bastante. Mas, atenção: é bom usar uma câmera com um pouco mais de recursos do que um smartphone.

Para profissionais com experiência ou, pelo menos, reflexão teórica sólida sobre o indexação de imagens, além de conhecimentos mínimos de fotografia, o desafio é criar um tutorial para auxiliar os indexadores na identificação dos elementos da expressão fotográfica. Um guia visual, com bons exemplos de imagens, definições e sugestões de caráter terminológico. Estamos fazendo alguns ensaios, aguardem novidades.

Referências

ESTORNIOLO FILHO, José. A representação da imagem: indexação por conceito e por conteúdo. 2004. Trabalho de conclusão de curso (Bacharelado em Biblioteconomia) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2004. Disponível em: http://www3.eca.usp.br/sites/default/files/form/ biblioteca/acervo/textos/tc1627-estorniolo_filho.pdf. Acesso em 4. fev. 2019

MANINI, Miriam Paula. Análise documentária de fotografias: leitura de imagens incluindo sua dimensão expressiva. In.: REPOSITÓRIO Institucional da UnB. Brasília: Universidade de Brasília, 2004. Disponível em 
http://repositorio.unb.br/handle/10482/946. Acesso em 11 dez. 2018.

SMIT, Johanna W. Propositions for the treatment of iconographical information. In: CONGRESO INTERNACIONAL DE INFORMACION – INFO’97, 1997. Havana. Textos completos. Havana: IDICT, 1997. p. 1-14.

Créditos das fotos

Os créditos estão nas legendas das imagens. As images não legendadas são de autoria de José Estorniolo Filho ou Marina Macambyra.

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