Uma história sem fim ou O fim de uma história

26 01 2015

No  I Encontro Nacional de Bibliotecários Catalogadores de Acervos de Música do Brasil, evento simultâneo ao XVIII Seminário Nacional de Bibliotecas Universitária (SNBU), apresentei, com minha colega Sarah Lorenzón Ferreira, nosso trabalho Catalogação de partituras na Biblioteca da ECA.

Nesse trabalho, também apresentado no SNBU como poster, contamos um pouco da história da organização do acervo de partituras da Biblioteca da ECA e da metodologia de tratamento desse material desenvolvida pela instituição ao longo de uns 45 anos de trabalho voltados ao atendimento de usuários músicos e musicólogos. Um trabalho regido pelo princípio de atender às demandas de informação do usuário, sem o apego cego a regras ultrapassadas de catalogação que, muitas vezes, servem mais como apoio às inseguranças dos bibliotecários do que como mecanismo de padronização de fato. Até porque, como não canso de lembrar, regras feitas para tratamento de texto muito pouco se prestam à padronização de verdade de outros tipos de documentos.

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Também abordamos os problemas envolvidos na migração dos registros de nossa base de dados de partituras – uma velhinha pioneira nascida em 1978 – para o Banco de Dados Bibliográficos da USP (Dédalus), criado bem depois. O motivo eternamento alegado por bibliotecários, analistas e sei lá mais quem do Departamento Técnico do Sistema Integrado de Bibliotecas da USP para não fazer a migração (solicitada pela Biblioteca da ECA em 1996) era, além da necessidade de priorizar coleções mais valorizadas pelo mundo acadêmico do que partituras musicais, o uso pecaminoso de regras locais. Os campos da base são perfeitamente mapeáveis para a estrutura do Dédalus, mas isso não fez diferença alguma;  o próprio formato MARC sempre permitiu a criação de campos locais, mas isso jamais foi levado em consideração para o acervo de partituras.  O pavor provocado pela frase “não é AACR2” tem efeitos paralisantes sobre o bibliomundo. Se um dia a polícia quiser dispersar uma passeata de bibliotecários não precisa jogar bombas, é só gritar “não usamos AACR2” que vai ser uma debandada geral.

Um dos impasses era a falta de um campo específico no Sagrado Formato MARC para o meio de expressão das obras musicais. Em nossa base o campo sempre existiu.

Mas vocês não podem colocar no campo Assunto, como todo mundo?

 

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Era a frase que mais escutávamos. Sim, podíamos, mas estaríamos fazendo errado como todo mundo. Meio de expressão são os instrumentos, vozes, grupos vocais e instrumentais para os quais a obra musical foi escrita. Uma partitura para violino e orquestra não é um documento SOBRE violino e orquestra, certo? Logo, inserir a informação no campo 650 do Sagrado (permitam-me chamá-lo assim, singelamente) é um pequeno erro conceitual, se não estou equivocada. Ao fazer a migração para um sistema maior, não queríamos de dar um passo para trás e o surgimento dos FRBR,  no qual o Medium of Performance é um dos atributos da obra musical, reforçou nossa convicção de que nossa abordagem era a mais correta. E finalmente, em 2012 o mundo não acabou e o campo 382 – Medium of Performance entrou para o Sagrado. O mundo é grande e dá voltas, afinal.

No início de 2014, quando finalmente começamos a discutir de forma concreta a migração, outro impasse surgiu: o campo 650 do Sagrado (Assunto tópico) é obrigatório no Dédalus. Mas partituras não têm assunto tópico, têm Meio de expressão e Gênero / Forma:

MENDES, Gilberto. Motetos à feição de Lobo de Mesquita

382 – Meio de expressão : Voz, oboé, violoncelo e cravo
655 – Gênero / forma : Moteto

Como fazer, então? É um tanto absurdo exigir que um documento tenha assunto tópico quando, por sua própria natureza, ele não tem. Inventar um assunto só porque um campo precisa de um conteúdo, porque alguém pensou que “todo livro é sobre alguma coisa” e, portanto, com as partituras deve ser a mesma coisa. Nossa singela sugestão de usar a expressão “Sem assunto”, como fez outra biblioteca da USP mais badalada do que a nossa, foi vetada. Esse tipo de liberdade com as normas é só para quem pode.

E sim, é verdade. Se vocês não acreditam, procurem “sem assunto” no Dédalus e vejam o que acontece: são 14529 livros, quase todos sobre alguma coisa, indexados com a expressão “sem assunto” justamente no campo assunto. Contradições do pensamento dominante em nossa área de atuação e suas regras supostamente inquebráveis: o que seria certo (partituras sem assunto tópico) vira errado e não é permitido, enquanto o errado (livros sem assunto), torna-se certo e aprovado.

Minha colega Sarah decidiu então buscar diálogo e informação atualizada um pouco mais longe e solicitou esclarecimentos sobre o uso dos 382, 650 e 655 para a própria Library of Congress, que respondeu prontamente. Mais longe às vezes pode ser mais perto, já que estamos tratando de contradições. A resposta deixa claro que nossa abordagem, afinal, é a que será vitoriosa num futuro bastante próximo. A LC está preparando o Library of Congress Genre/Form for Library and Archival Material , que deverá separar os termos de gênero e forma dos assuntos tópicos. Stephen Yusko, da Divisão de Música, observou, em sua resposta, que os cabeçalhos da LC para partituras e gravações sonoras  nunca foram assuntos no sentido normal do termo, mas sempre funcionaram como gênero e forma. Logo que esse novo produto estiver implantado, o que deverá ocorrer em 2015, os campos 655 e 382 substituirão o campo 650.

Isso quer dizer que, se a migração que já tenho chamado de lendária dos registros da nossa base para o Dédalus efetivamente acontecer, provavelmente teremos que dar um jeito de preencher um campo que logo estará obsoleto.

Mas essa história ainda não terminou. Sarah e eu continuamos vivas e saudáveis, e agora temos um novo e jovem chefe na divisão de catalogação do Departamento Técnico do SIBi, alguém aberto ao diálogo e com formação tecnológica sólida e que parece disposto a botar fim a uns vinte anos de atraso. Os trabalhos foram finalmente retomados e estão andando rápido.

Nem tudo termina com a migração lendária, entretanto. Se não conseguirmos fazer do Dédalus um catálogo eficiente para as partituras e gravações musicais, é a própria história pioneira da documentação  musical na Biblioteca da ECA que pode ter um fim melancólico. Afinal, um catálogo não deve existir apenas para cumprir regras e diminuir a quantidade de material não processado nas estatísticas, mas para possibilitar a localização da informação pelo usuário.

Não é mesmo?

 

foto: hobvias sudoneighm, Flickr.

 

 

 

 


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