Imagens e Bobagens

6 08 2013

Quem escreve sobre análise de imagens na área de documentação adora começar o texto discorrendo sobre o aumento da produção e circulação de imagens na atualidade. Nunca se fotografou tanto, vivemos cercados de imagens etc. Sim, com certeza eu também já escrevi algo assim. Mas não vejo muitos dados numéricos a respeito, e confesso que nunca pesquisei direito. Encontrei, por acaso, na revista Nouvel Observateur, um estudo com algumas cifras interessantes.

600 a 800 bilhões de fotos teriam sido feitas em 2012 (o estudo diz “serão feitas”, trata-se de projeção).
7 bilhões de fotos foram postadas no Facebook em 2011.
1934  fotos foram feitas em 2011 por cada possuidor de uma câmera reflex (o dado não inclui imagens geradas de celulares e por aquelas câmeras compactas que todo mundo tem).

Fonte: Observatoire des Professions de l’Image 2012
http://www.gnpp.com/files/posts/000055-opi2012.pdf

Não tenho dados do tempo das câmeras de filme para comparar, mas é mais ou menos óbvio que os números devem ter aumentado. Experiência pessoal: chegamos a voltar de viagens de férias, meu companheiro e eu, com 10 filmes de 36 poses para revelar. Hoje, voltamos de viagens com umas 3000 imagens para selecionar, tratar, apagar, separar em pastinhas,  organizar minimamente para serem mostradas e postar em sites de compartilhamento de imagens.

Certo, mas e nossa relação com as imagens, como anda?

Como estamos produzindo imagens em escala monstro e podemos acessá-las com muita facilidade, é razoável supor que hoje vemos mais imagens do que há trinta anos. Meus últimos álbuns de fotos de viagem em papel devem ter sido vistos por três ou quatro pessoas da família ou amigos que apareceram na minha casa. Grandes demais para serem transportados por aí e vistos pelos colegas de trabalho na hora do almoço. Já um dos meus últimos álbuns de viagem no Facebook foi curtido por 62 pessoas. Obviamente muitos desses amigos podem ter apenas apertado o botão “Curtir” por gentileza, sem terem visto de fato as imagens. Mas há sinais de que as fotos estão sendo vistas: comentários, fotos que são compartilhadas, gente com quem tenho pouco contato fora das redes sociais dizendo que gostou das minhas fotos, perguntando sobre os lugares que visitei etc.

Ver mais imagens, entretanto, não quer necessariamente dizer ver melhor. Esse suposto maior contato com imagens não parece estar correspondendo a um melhor entendimento dessa linguagem.

Situação clássica: nos museus em que é permitido fotografar, verdadeiras multidões passam pelas obras expostas e fazem uma foto, quase sem olhar. Levam para casa, muitas vezes, uma reprodução distorcida, tremida e torta da pobre Monalisa, que talvez jamais saia de dentro do celular. Não apreciaram devidamente o quadro e nem vão ter uma reprodução decente para guardar de lembrança.

As redes sociais são um verdadeiro tesouro de exemplos de leituras ingênuas e desatentas das imagens que nelas circulam tão animadamente. Periodicamente alguém posta a foto do “toureiro arrependido” ou do “manifestante carregando o policial ferido”, sem questionar se a história não seria fofa demais para ser verdadeira.

toureiro_touro

A historinha edificante que circulou com essa imagem dizia que toureiro passou mal durante a tourada e o touro, por piedade, não o atacou. Esse acontecimento teria levado o homem a abandonar o ofício. Pena que toureiro da foto não estivesse passando mal e nem fosse Álvaro Múnera Builes, como foi veiculado. Múnera  de fato largou a profissão,  mas só depois de levar uma surra de um touro que o deixou paraplégico, E o  momento registrado na foto é apenas uma parte do “espetáculo” da tourada, uma espécie de desafio ao touro que está para ser morto, como explicam o divertido site E-Farsas e o blog Prótouro.

http://www.e-farsas.com/o-touro-que-teve-piedade-do-toureiro-verdadeiro-ou-farsa.html

http://protouro.wordpress.com/2012/07/19/quando-as-mentiras-nao-ajudam-a-causa-pela-abolicao-da-tauromaquia/

Já a foto abaixo aparece de forma recorrente nas redes sociais sempre que acontece algum tipo de manifestação de rua em São Paulo.

policial_carregado1
Foi divulgada inicialmente como sendo a foto de um manifestante socorrendo uma policial ferida, mas a verdade é bem menos romântica: o rapaz era um policial infiltrado no movimento dos professores em greve, como explica novamente o E-Farsas.

http://www.e-farsas.com/policial-ferido-e-carregado-por-professor-em-manifestacao-em-sp.html

Como de hábito nesse tipo de lorota, a foto é de 2010, mas ressuscita periodicamente sempre que a realidade precisa ser minimamente enfeitada.

As pessoas se deixam enganar um pouco por falta de conhecimento do contexto. No Brasil não sabemos como são as touradas, e só quem já participou de manifestações com repressão tem condições de saber o quanto é improvável que a polícia permita que um manifestante chegue perto de um policial ferido. Mas, convenhamos, uma análise um pouco mais atenta das imagens e das informações veiculadas pelo texto que as acompanha poderia gerar, pelo menos, alguma desconfiança. Um toureiro, estrela do espetáculo, deixado à mercê do touro enquanto passa mal? Ninguém correu para socorrê-lo? No meio das bombas de gás estourando, um manifestante carrega uma policial? E os colegas dela, acharam bonitinho?

Um dado curioso sobre a foto do P2 é que foi divulgada com a legenda “policial ferido é carregado por manifestante” e muita gente nem se deu conta de que era uma mulher. Um olhar um pouco mais atento teria notado os braços sem pelos e questionaria se um homem tão pequeno a ponto de ser carregado nos braços daquela forma conseguiria entrar para a polícia.

Algo mais grave do que um ingênuo compartilhamento de história fake aconteceu na recentemente na Europa, envolvendo outro aspecto da relação das pessoas com as imagens: a capacidade de selecionar corretamente a fonte, descobrir a origem de uma imagem e identificá-la. Um designer precisava de uma foto de criança para um cartaz publicitário do Festival de Jazz de Montreux. Procurou no Google, escolheu descuidadamente uma foto sem se preocupar em saber do que se tratava e botou no cartaz a foto de um menino assassinado há 29 anos na França, um crime de chocou o país e que jamais foi solucionado.  O distraído não era francês – o que não chega a ser uma boa desculpa para a irresponsabilidade – portanto não sabia nada sobre o acontecimento. Dois fatos tornam a burrada mais grave: foi perpetrada por um profissional que supostamente deveria estar habituado a trabalhar com imagens, e a foto utilizada era de uma criança. Como um designer simplesmente se apropria da foto de uma criança sem autorização dos pais e sem saber quem é? A foto tem todo o aspecto de ser um retrato familiar, não é uma imagem publicitária feita para um de banco de imagens comercial, por exemplo.  A história toda saiu na revista Samuel:

http://revistasamuel.uol.com.br/conteudo/view/20436/Imagem_de_menino_assassinado_ha_29_anos_e_usada_em_cartaz_do_festival_de_montreux.shtml

Outra questão que me interessa é descobrir se as pessoas que estariam produzindo e divulgando imagens aos bilhões dedicam algum tempo a selecionar suas fotos, melhorar a qualidade delas usando ferramentas simples de edição, descartando as muito ruins. Hoje podemos fazer muitas e muitas fotos de um mesmo motivo e selecionar a melhor de vinte, por exemplo. E depois manipular facilmente nossas imagens para deixá-las mais expressivas, aplicando filtros, fazendo recortes e outros recursos que, antes da imagem digital,  estavam ao alcance apenas dos fotógrafos profissionais ou dos amadores com acesso a laboratórios.

Ainda não localizei dados sobre o uso de ferramentas de edição de imagens por amadores, mas a gente vê muita imagem ruim circulando por aí. Enquadramentos descuidados, fotos tremidas ou desfocadas, além das famosas “fotos do nada”, aquelas que a gente olha e não consegue descobrir o que diabos o fotógrafo tentou registrar. Se alguém souber de uma pesquisa sobre esse assunto, me avise, por favor.

Acredito que o hábito de avaliar as próprias “obras” e investir algum tempo em tentar deixá-las mais bonitas seja um ótimo treinamento para o ofício de ver e analisar imagens. Bibliotecários e outros profissionais da informação cuja formação acadêmica raramente os capacita a tratar acervos de imagens deveriam adotar essa prática, se pensam em enveredar pela área. Fotografar mais e aprender um pouco sobre linguagem fotográfica também ajuda bastante na atividade profissional ligada à organização de acervos fotográficos.

Não é preciso saber fotografar ou manipular imagens para organizar um acervo fotográfico, mas sabendo fica muito mais divertido.


Ações

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One response

20 02 2015
naraur91

As imagens não mentem, mas as pessoas e os fatos que aparecem podem sim serem manipulados, ou muitas vezes utilizados em um contexto totalmente diferente. Um exemplo dado por Peter Burke, em seu livro Testemunha ocular, está na foto Death of a soldier, 1936 de Robert Capa, que mesmo não parecendo trata-se de um caso real registrado, enquanto que A harvest of death, 1863 de Timothy H. O’Sullivan foi apenas um cenário montado com homens vivos.🙂

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