Filmes e facetas

20 10 2012

Comentando um bom artigo:

CORDEIRO, Rosa Inês e LA BARRE, Kathryn.  Análise de facetas e obra fílmica. Clique para ver o texto completo.

As autoras tratam dos princípios de análise fílmica a partir da teoria facetada e relatam os resultados de uma pesquisa empírica sobre o processo de análise de filmes, com a qual pretendiam testar a “possibilidade de aplicação da análise de facetas e análise fílmica para a interpretação e sistematização das informações registradas” pelos participantes e observar se as diferenças culturais entre os indivíduos se manifestavam em suas interpretações .

O texto aborda alguns pontos muito interessantes que nem sempre bibliotecários sem experiência com documentos fílmicos conseguem visualizar com clareza. Um deles, que eu particularmente valorizo muito, é o fato de que a obra fílmica “pode ser de interesse para diversos grupos de usuários e portadores de diferentes níveis de conhecimento” (p. 184). As autoras identificaram na literatura da área uma tendência a propor o tratamento dos documentos em “várias ‘camadas’, a fim de permitir o acesso à informação considerando diferentes interesses e perfis de usuários”(p. 184).

Não cheguei a entender como, na prática, como se daria essa descrição e recuperação em camadas, mas a ideia me parece válida. Qualquer acervo documental pode ser usado de diferentes formas por usuários com características e objetivos diversos, mas penso que no universo das imagens em movimento essas variações são particularmente imprevisíveis. Para citar uma situação concreta do dia-a-dia, muito comum na instituição na qual trabalho, um filme musical americano da década de 50, por exemplo, poderá ser solicitados por estudantes de cinema por suas qualidades estéticas e técnicas, enquanto representante de um gênero que marcou sua época, será recuperado sobretudo pelo gênero, data e país de produção, diretor e atores. O mesmo filme vai interessar aos estudantes de dança para analisar a coreografia, ou a um pesquisador de história da moda, pelos figurinos e adereços, ou simplesmente às pessoas que gostem de musicais, por lazer e diversão.

Idealmente, a análise do filme deve atender às demandas de todos esses tipos de público. Trata-se aqui de uma tipologia de usuários que não se resume apenas a níveis de conhecimento, como no exemplo citado pelas autoras de um projeto de pesquisa que visa os grupos de usuários “acadêmicos, profissionais e leigos” (p.184). Os recortes feitos pelo usuário no conteúdo de um filme são mais complexos do que essa categorização de fundo acadêmico, e percebe-se que o mesmo usuário pode ser leigo numa situação e especialista em outra. Uma outra questão que sempre me chama a atenção ao comparar textos acadêmicos com a prática diária profissional é que nem sempre é possível identificar o grupo de usuários da coleção, porque a combinação pessoas e filmes costuma ser bastante volátil e imprevisível.

Analisando as facetas da obra fílmica, as autoras identificam os seguintes focos, que relacionam com a análise de conteúdo: gêneros, personagens principais, estrutura / unidade narrativa, natureza da representação da trama, referência histórica, conflito matriz e tema, sequências relevantes e aproximações temáticas dessas sequências, cenografia e adereços, figurino, maquiagem, estúdios e locações, efeitos especiais, som, espaços representados na narrativa, registro temporal da trama (p.187-191).

Minha longa prática profissional com acervo e usuários de filmes confirma a validade do método proposto pelas autoras. A observação direta das questões apresentadas por usuários ao longo de cerca de 10 anos em serviço de referência numa filmoteca me levaram a estabelecer um método de análise que envolve indexar, prioritariamente, os seguintes aspectos dos filmes: gênero e forma, características dos personagens principais, ações (conflito matriz e tema, na terminologia das autoras), local da ação (espaços representados na narrativa), época da ação (registro temporal da trama) e eventos históricos presentes no filme (referência histórica). Esse método está descrito no Manual de catalogação de filmes da Biblioteca da ECA e no primeiro post deste blog, poeticamente intitulado Indexando filmes numa tarde de sexta-feira.

Não costumo analisar os demais focos identificados pelas autoras: estrutura / unidade narrativa, natureza da representação da trama, cenografia e adereços, figurino, maquiagem, estúdios e locações, efeitos especiais e som. É perfeitamente possível identificar esses focos num exercício de caráter acadêmico, desde que se tenha conhecimento teórico suficiente para tanto, mas na prática diária da indexação o procedimento pode onerar demais o processo de tratamento da informação. Uma indexação nesse nível de detalhamento se justificaria somente diante da demanda explícita de um público bastante especializado. De qualquer forma, esse olhar das autoras sobre o processo de indexação de filmes buscando apoio em estudos de teóricos do cinema é muito importante, por trazer bases consistentes para o trabalho prático com acervos de filmes em unidades de informação.

Em sua pesquisa empírica para verificar a possibilidade de aplicação do método das facetas, as autoras concluíram que os focos mais recorrentes são: os conflito-matriz e temas representados nos filmes, personagens principais da trama, gênero cinematográfico e as categorias Espaço e Tempo (p. 198). A conclusão confere com minha prática, mas tendo a considerar que a amostragem selecionada  – 12 alunos de pós-graduação em Ciência da Informação – não foi suficientemente representativa. Além de serem poucos, não estavam indexando numa situação real, ou seja, numa unidade de informação específica com objetivos definidos e público em função do qual realizar a indexação. Penso que indexação sem usuário não faz muito sentido, mas aviso que não entendo nada de estatística, as autoras devem saber mais do que eu!


Ações

Information

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s




%d blogueiros gostam disto: