Eternas ausências

26 09 2012

No SNBU deste ano foram apresentados apenas 2 trabalhos sobre tratamento de documentos audiovisuais, um sobre indexação de imagens e um sobre organização de uma filmoteca.

A preocupação com linguagens e formas de expressão diferentes do texto ou, mais especificamente, do texto científico e acadêmico continua quase inexistente. Todos estão preocupados com periódicos e livros digitais, repositórios de artigos acadêmicos, referência virtual, digitalização de livros e por aí vamos. As preocupações habituais do mundo do papel estão apenas migrando para o ambiente digital e virtual, um tanto apimentadas pelo medo de sermos todos tragados pela internet.

É possível que a percepção de os suportes físicos da informação não sejam mais importantes esteja afastando ainda mais os bibliotecários do mundo audiovisual, numa reedicão do eterno equívoco de pensar que as diferenças entre os audiovisuais e o texto impresso se resumem ao suporte. Se o problema fossem apenas os suportes, já teria sido resolvido há muito tempo e não é porque hoje tudo pode estar armazenado em servidores do outro lado do oceano e acessado por telefones celulares que um filme será visto e usado da mesma forma que um livro, ou que uma sonata de Beethoven preencherá as mesmas necessidades que uma tese sobre reprodução de caranguejos.

Se as linguagens são diferentes, se as necessidades e usos também, porque diabos os bibliotecários continuam pensando que o tratamento deve ser o mesmo?

Porque é mais fácil pensar assim, talvez. Ou porque quando analisamos com cuidado as necessidades dos usuários da informação audiovisual nos confrontamos, inapelavelmente, com o retumbante fracasso das normas e padrões que nos são apresentados nas escolas como livros sagrados da profissão. Bibliotecários não costumam gostar dessa constatação.

O trabalho sobre indexação de imagens, elaborado por estudantes de biblioteconomia, não vai além dos conceitos básicos da área. Compreensível por se tratar de trabalho de estudantes sem experiência prática com imagens, mas não se justifica sua apresentação para profissionais, num seminário nacional. E houve uma falha séria que não pode ser ignorada, mesmo em trabalho de estudante: os autores utilizaram e citaram o trabalho de conclusão de curso de José Estorniolo Filho e não tiveram a curiosidade de procurar textos da orientadora desse trabalho, uma das maiores especialistas brasileiras em documentação audiovisual, Johanna Smit.  Creio que tampouco estudaram Sarah Shatford, autora fundamental para quem se interessa por indexação de imagens e que consta, assim como Johanna, da bibliografia de Estorniolo.

Mais consistente foi a apresentação da bibliotecária do Banco Nacional do Desenvolvimento (BNDES), um relato sobre a criação e organização de uma filmoteca com os filmes patrocinados pela instituição. Infelizmente, a coleção ainda é muito pequena – menos de 200 filmes – e o trabalho recente demais. A autora visivelmente ainda não teve tempo de desenvolver ideias e reflexões, sem as quais o seu trabalho não apresenta grande interesse para quem tem alguma experiência em acervos de filmes. Prova disso é o fato de que a colega citou a dificuldade em obter informações sobre os nomes dos realizadores dos filmes apenas com um problema, deixando de mencionar o papel importante que sua filmoteca poderá ter como fonte de informação sobre o cinema brasileiro, ao localizar informações sobre técnicos e autores praticamente desconhecidos.

No XV SNBU ( 2008) apresentamos um trabalho oral intitulado Propostas para tratamento de imagens de arte, no qual fizemos uma rápida análise do que, na época, chamamos de “novas perspectivas” para o tratamento de imagens de obra de arte, os FRBR e o Cataloging Cultural Objects (CCO), uma norma para catalogação de obras de arte e suas imagens criada pela Visual Resources Association. Quatro anos depois as perspectivas já não são muito novas, mas não consegui encontrar, até o momento em que escrevo este texto, nenhum relato de caso,  estudo ou  artigo brasileiro sobre o tema. Aparentemente ainda não temos no Brasil bibliotecários dispostos a estudar formas de catalogação que não sejam as surradas regras de sempre, pelo menos no campo das imagens. Os dois artigos brasileiros que localizei em minha última busca curiosamente não mencionam o CCO, nem o VRA Core, um conjunto de metadados específico para imagens que documentam obras de arte ou da cultura visual. Pretendo, eventualmente, fazer uma resenha desses artigos aqui neste blog. Quem sabe antes disso alguém escreva alguma coisa interessante. E se alguém conhecer algum trabalho que deixei escapar, seja gentil e me avise!


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