Organização de discos: uma experiência

28 06 2012

Este foi, em linhas gerais, o conteúdo da minha apresentação no evento O som e seus formatos.

Na Biblioteca da ECA/USP sou responsável pela organização de vários tipos de documentos audiovisuais, entre os quais uma ótima coleção de gravações musicais composta por 4460 CDs  e 5101 discos em vinil.

A coleção de discos da Biblioteca da ECA começou a ser formada no final dos anos 1960, logo que a Biblioteca começou a se organizar, para atender às necessidades do curso de Música da Escola. A maioria das gravações é de música erudita, interesse maior desse curso cujos professores e estudantes são o público principal da coleção. Também temos discos de música popular, música folclórica e documentos sonoros não musicais, como programas de rádio e entrevistas, mas em menor quantidade. É um acervo de perfil acadêmico, voltado para público especializado e organizado em função de demandas de ensino e pesquisa.

A forma de organização da Biblioteca da ECA é uma boa sugestão para acervos com perfil semelhante. Em 40 anos de existência do serviço, foram desenvolvidas soluções que podem perfeitamente ser aplicadas por outras instituições, com as necessárias adaptações.

Estágio da organização

A maior parte do acervo – em torno de 70 por cento – está registrado em base de dados com acesso pelo site da Biblioteca. Por enquanto não é possível ouvir as gravações online, porque a maior parte de acervo está protegida por direitos autorais.

Cerca de 30 por cento da coleção ainda permanece catalogada em fichas, porque quando foi iniciada a automação dos fichários já havia cerca de 5000 catalogados. Mas é um fichário eficiente, feito para possibilitar uma boa recuperação por autor, ao menos.

O acervo está em constante crescimento, porque, além da compra regular de CDs, a Biblioteca recebe importantes doações principalmente de discos em vinil. Hoje muita gente abre mão de suas coleções de vinil, por não possuir mais toca-discos para ouvi-los, por falta de interesse ou por vontade de colaborar com uma biblioteca. Algumas das coleções oferecidas são muito boas, contendo discos importantes que não foram lançados em CD. Mas nem sempre é assim e, eventualmente, algumas doações são recusadas e encaminhadas para outras instituições.

Para ser incorporado ao acervo, o material precisa estar em bom estado, sem riscos nem chiados. Discos com som ruim só serão aceitos se forem realmente raros. Além disso, o disco precisa conter pelo uma gravação que a Biblioteca ainda não possua ou que já esteja representada no acervo, mas com outros intérpretes. De uma forma geral, são mantidas no acervo até quatro gravações da mesma obra com intérpretes diferentes, mas algumas exceções são previstas. Uma gravação de um intérprete muito importante será aceita independentemente da quantidade de gravações já disponíveis.

Arranjo físico

O acervo de discos da ECA é de acesso fechado, ou seja, o usuário precisa solicitar a um funcionário o item que desejar ouvir ou levar emprestado. A razão desse procedimento é preservar o material de danos que a manipulação constante poderia causar.

Em acervos com essa característica, a melhor opção de arranjo físico é a que permite mais economia de espaço. No caso, por ordem numérica crescente de número de tombo, CDs e discos em vinil tombados em separado.

Num acervo como o da Biblioteca da ECA, de acesso fechado e dirigido a um público especializado, capaz de localizar a gravação desejada por uma base de dados com formas de busca adequadas às suas necessidades, esse tipo de arranjo funciona bem. Mas não é indicado para qualquer tipo de coleção de documentos musicais. Numa biblioteca pública, por exemplo, ou em qualquer coleção onde o lazer ou apenas a procura casual de algo interessante para ouvir seja o objetivo principal da maioria dos usuários, provavelmente será necessário manter o acervo organizado por algum tipo de classificação relacionada ao conteúdo. Pode ser por gênero musical, por instrumento, autor, intérprete, época, local ou tudo isso, o que for mais interessante para o público da coleção. O problema é que não existem esquemas de classificação desenvolvidos especificamente para coleções de discos. Logo, adaptar sistemas criados para livros, como a CDD, ou soluções criadas por determinadas instituições pode ser a única solução.

Library of Congress

Discothèque de France

Catalogação

A Biblioteca da ECA desenvolveu suas próprias normas para catalogação de discos e partituras musicais. Essa decisão foi tomada diante da inadequação das regras do AACR2 para tratar documentos musicais, sobretudo quando o público da coleção é formado por músicos e especialistas em música com alto nível de exigência. Para documentos audiovisuais em geral, as normas tradicionais escritas para livros não oferecem soluções, não normalizam nem padronizam verdadeiramente a informação. Distorcem a descrição dos documentos e ocultam do usuário as informações que ele mais valoriza.

Não espero que todos concordem com essas afirmações. Só vai entendê-las de fato quem cataloga rotineiramente esse tipo de material e acompanha as dificuldades dos usuários. De qualquer forma, a decisão de criar padrões locais é séria e pode ter consequências para a biblioteca que optar por isso.
As categorias de informação mais usadas na catalogação de gravações musicais na ECA são:

Autor (compositor)
Arranjador
Autor de texto
Título normalizado
Título original
Título do disco
Meio de expressão
Gênero, forma e assunto
Intérpretes
Data e local da gravação ao vivo
Gravadora
Número da gravadora
Data de prensagem
Descrição física
Conteúdo

Explicando apenas os termos que não são autoexplicativos:

Autor de texto é o autor da letra da música, do poema ou texto literário cantado. É hábito entre os usuários de música erudita usar o termo “texto” ao invés de “letra”, como estamos normalmente dizemos quando se trata de música popular. Ex.:

Autor: LACERDA, Osvaldo, 1927-2011
Título: Uma nota, uma só mão (1967)
Texto: Carlos Drummond de Andrade

No campo Título do disco é registrado o título geral do disco, quando este existe. Ex.:

Mangueira: sambas de terreiro e outros sambas
Tradition and renewal in the music of Japan
Folk songs
Música brasileira de concerto para fagote

Título original e Título normalizado são categorias que se referem aos títulos das músicas. O título original é o título de uma obra musical no idioma e forma em que foi atribuído pelo compositor. Por exemplo: Die Zauberflöte, Le nozze di Figaro, La chute de la maison Uscher.


O Título Normalizado é composto e traduzido pelo catalogador, de acordo com regras pré-estabelecidas na metodologia de catalogação, com o objetivo de reunir todas as músicas que aparecem em discos diferentes em formas e idiomas variados. Por exemplo:

Sinfonia Pastoral
Symphony n.6, Pastoral
SYMPHONY NO 6 IN F MAJOR – OP 68 PASTORALE
Symphonie en Fa majeur n. 6
Sinfonia op. 68

Todas essas gravações são registradas com o título padronizado Sinfonia n. 6, op. 68, Fá maior, Pastoral.

As normas para padronização dos títulos estão disponíveis no Manual da catalogação de partituras da Biblioteca da ECA.

Meio de Expressão, ou seja, os instrumentos, vozes, grupos vocais e instrumentais para os quais s música foi criada, é um dos elementos mais importantes na descrição e indexação de obras musicais. Se o usuário não conseguir recuperar as gravações por seu meio de expressão, o catálogo não estará a serviço de seu público. Curiosamente, somente em abril deste ano foi criado um campo para meio de expressão no formato MARC, o 382. Essa informação era tradicionalmente no campo assunto tópico (650) o que é, para dizer o mínimo, conceitualmente errado. Os instrumentos com as quais a música é interpretada não são o assunto da música, são seu meio de expressão.

O método usado para indexar e a lista completa de instrumentos constam do Manual de catalogação de partituras da Biblioteca da ECA.

Alguns exemplos:
A obra Trio disforme, Calimério Soares, é indexada com os termos:
trio
piano
flauta
violoncelo

Uma ópera é indexada com os termos:
orquestra
coro
voz solista
vozes

E cantata BWV52 de Bach é indexada assim:
orquestra
coro
voz solista
soprano

As obras para instrumentos solistas são indexadas com o nome do instrumento e o termo solo; peças para orquestra e um instrumento solista com o nome do instrumento o termo orquestra.

No campo Assunto da base de dados são registrados a forma musical, o gênero, estilo, ritmo etc. Esse procedimento não é, a rigor, correto, pois Forma e Gênero, assim como Meio de expressão, não são assuntos. No formato MARC há um campo específico para Gênero e Forma, o 655.

Em relação aos Intérpretes, é importante citar todos eles, solistas ou grupos. Nada de aplicar “regra dos três” com intérpretes de música erudita!
Usuários de música procuram, com frequência, uma determinada peça interpretada por um solista, orquestra ou regente específico. Os intérpretes são relacionados de acordo com uma ordem pré-estabelecida, independentemente da ordem em que aparecem na capa ou encarte do disco.

VOZES SOLISTAS:
Soprano
Contra-tenor
Baixo
Mezzo-soprano
Contralto
Tenor
Barítono

INSTRUMENTOS:
Madeiras: piccolo, flauta, oboé, corne inglês, clarinete, fagote, contra-fagote, saxofone
Metais: trompa, trompete, corneta, trombete, tuba
Tímpanos
Percussão
Harpa
Instrumentos de teclado
Cordas (violino, viola, violoncelo, contrabaixo)
CORO
REGENTE DO CORO
ORQUESTRA
REGENTE DA ORQUESTRA.

Da Descrição Física fazem parte os seguintes elementos:

  • Suporte (CD, LP, Fita cassete)
  • Rotação (33 rpm, 45 rpm, 78 rpm) apenas para vinil
  • Características técnicas da gravação: mono, estéreo, digital (para vinil); AAD, ADD, DDD (para CDs)
  • Duração em minutos
  • Quantidade de itens físicos (2 discos, 3 discos) ou de faixas (faixa 1, faixas 2 a 5)

O campo Conteúdo é utilizado apenas quando o disco é tratado com um todo. Nesse caso, os títulos, autores e intérpretes de cada faixa são registrados em conteúdo. Entretanto, na maioria dos casos, é feito o tratamento analítico do disco, no qual cada música é cadastrada individualmente. Usuários, eventualmente, estão à procura de um determinado disco, mas, na maioria dos casos, estão procurando uma obra musical específica.

Alguns exemplos extraídos da base de gravações da ECA/USP:

Indicações de leitura

Padrões específicos de descrição

International Association of Sound Archives – IASA
http://www.iasa-web.org/iasa-cataloguing-rules

International Association of Music Libraries, Archives and Documentation Centres : http://www.iaml.info/activities/projects/core_record_for_music

Tratamento da informação

Assunção, M.C. Catalogação de documentos musicais escritos: uma abordagem à luz da evolução normativa, 2005.

MEY, Eliane Serrão Alves. Acesso aos registros sonoros : elementos necessários à representação bibliográfica de discos e fitas. São Paulo : E S A Mey, 1999. Tese (Doutorado) – CBD/ECA/USP,
19/11/1999.

SMIRAGLIA, Richard. Musical works and information retrieval. Notes, jun. 2002, p. 747-764.

Conservação

BYERS, F. Care and handling of CDs and DVDs: a guide for librarians and archivists

GONÇALVES, Robson de Andrade. A degeneração progressiva do som: a relação entre analógico e digital.

SILVA, Sérgio Conde de Albite. A preservação e o acesso de acervos fonográficos.

ST. LAURENT, Gilles. Guarda e manuseio de materiais de registro sonoro.

Mais informações sobre conservação de registros sonoros nos sites:

International Association of Sound and Audiovisual Archives

Arquivo do Estado de São Paulo


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