Antes Que o Diabo Saiba

14 05 2012

Um dos maiores erros que os bibliotecários e estudantes de biblioteconomia cometem, quando não sabem como tratar um documento audiovisual, é procurar a solução no AACR2, nos manuais de AACR2, no MARC21, na CDD, nos tesauros e listas de cabeçalhos de assunto. Não, a solução não está lá e não se animem com o RDA, porque, apesar do tamanho da coisa,  a solução também não estará lá, como na canção do Raul Seixas.

A resposta está no próprio documento, em sua linguagem e nas pessoas que o utilizam, ou seja, para saber como tratar um documento é preciso entendê-lo e conhecê-lo, antes de estudar regras e esquemas.

Catalogação não é simplesmente preencher campos em bases de dados e nem procurar no documento as informações descritas na norma vigente, indexação não é pescar num tesauro termos que pareçam razoáveis. O processo começa antes, na análise e entendimento de conteúdos.

A questão não é se você deve colocar o nome do montador do filme ou do arranjador da música na área de responsabilidade, se precisa registrar o nome do coreógrafo e onde, ou se o formato da tela dos DVDs vai nas notas gerais por absoluta falta de opção. A questão anterior, que você precisa responder antes de consultar páginas e páginas de regras elaboradas para tratar livros é saber se o formato da tela é critério para alguém escolher ou rejeitar um DVD, o que faz um montador e um arranjador, qual o papel do coreógrafo no documento que está sendo tratando e qual a importância disso tudo para o usuário da coleção. Público interessado em dança provavelmente vai  querer saber o nome do coreógrafo, sobretudo se o documento for um filme musical com muitas sequências de dança.

Conversar com o usuário e entender suas necessidades é extremamente importante.  Não adianta explicar que você não registrou informações relevantes para ele porque não são “preconizadas” nas regras internacionais que você deve seguir para que seja possível fazer catalogação compartilhada e que isso é bom para ele porque poupa trabalho para você.

Estudar publicações da área, inclusive as de caráter publicitário, é uma boa forma de entender como as informações da área se organizam e como seu usuário está habituado a vê-las. Revistas de cinema e de música, dicionários, cartazes, programas de concertos, catálogos de festivais ajudam muito um bibliotecário a entender o grau de importância de cada uma das inúmeras informações presentes na capa de um disco ou nos créditos de um filme.

Ser você mesmo um usuário da coleção ajuda bastante.  Não é necessário saber tocar oboé ou atabaque para organizar um acervo de discos, mas é bom gostar de música, frequentar shows e concertos de forma regular e, se você não for exatamente um fã do gênero musical que predomina em “seu” acervo, deixe de ser um bibliotecário chato e aprenda a gostar pelo menos um pouco.  Tratar material audiovisual exige disposição para mergulhar no universo dos conteúdos dos documentos. Ver filmes com atenção,  ler sobre sobre cinema, aprender um pouco sobre a linguagem cinematográfica, ir a exposições de fotos,  arrumar uma câmera razoável e tentar se expressar fotografando ou fazer um curso rápido de fotografia, coisas  nada desagradáveis.  Assim entendemos melhor a informação que devemos tratar, a partir de dentro.

Conseguiu pegar um DVD e reconhecer quais são as informações importantes que melhor definem esse documento, que o identificam e individualizam e que são úteis para o pesquisador que o procura numa base de dados? Ótimo, agora vá até as normas, padrões, formatos e manuais do mundo biblioteconômico e descubra como esses instrumentos podem auxiliar a organizar e padronizar essas informações.  Não se surpreenda se não ajudarem muito. Prepare-se para fazer o melhor possível  e tente , try just a little bit harder como Janis Joplin, usar essa enormidade de regras a favor de seu usuário, não contra, como muitos bibliotecários fazem sem ao menos ter consciência disso.

Fotos:

Público observa os painéis Guerra e Paz, de Portinari, no Memorial da América Latina.

Fachada do cinema do Instituto Nacional de Cine y Artes Audiovisuales,  Buenos Aires.


Ações

Information

4 responses

15 05 2012
meire

Marina, adoro seus textos, parabéns pela clareza e visão. Sempre acreditei que as regras devem existir pra ajudar na organização e não pra aprisionar os conteúdos e tornar-nos bibliotecários chatos e cegos às reais necessidades dos usuários. Profissionais como vc, capazes de questionar as regras e os comportamentos dos bibliotecários é que mantêm a biblioteconomia interessante e viva. Obrigada por compartilhar seu conhecimento. Bjs, Meire

15 05 2012
Marina Macambyra

Obrigada, Meire! Fico envaidecida …

24 03 2014
25 03 2014
A grande ilusão | A imagem, o som, o tempo

[…] Antes que o diabo saiba […]

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