Calma, uma coisa de cada vez …

7 04 2012

Ouço essa frase aí há mais ou menos uns 30 anos, sempre que aviso que um filme não é um livro, fato para mim muito óbvio, e que precisamos tratar filmes como filmes, discos como discos, fotografias como fotografias. E que esses documentos não podem ser encarados pelos bibliotecários como acervo de segunda, como mera ilustração ou como apêndice.

Todo professor, administrador ou vendedor de software gosta de dizer que “biblioteca não é só livro”, que  “o importante é a informação,  não o suporte” e outros clichês tão antigos quanto os catálogos de fichas, mas na prática o que se vê nas salas de aula e na rotina das bibliotecas ainda é o império total do texto.

A vez do documento audiovisual não chega jamais, porque nunca é prioridade. Nem mesmo na Universidade de São Paulo, onde os cursos de cinema, televisão, música, artes plásticas, publicidade e outros formam profissionais que produzem documentos audiovisuais e fazem pesquisa em torno de linguagens que não são verbais. A vez do documento audiovisual não chega jamais também porque são poucos os bibliotecários que sabem realmente tratar esse material, mas bibliotecários não gostam  muito de confessar ignorância.

O SIBiUSP acaba de lançar o Portal de Busca Integrada, um serviço de indiscutível qualidade e desenvolvido com tecnologia avançada: o software Primo, da Ex-Libris.

E como ficaram os documentos audiovisuais no Portal? Observem este exemplo:

Pode não parecer, mas esse é o registro do filme A doce vida. Não é um livro catalogado por um bibliotecário um pouco insano, é um filme com os dados cadastrados em campos MARC e exibidos num formato de fichinha de livro. O formato MARC, como expliquei no post A regra do jogo, tem problemas conceituais sérios quando se trata de catalogar filmes.

Temos aí o título original e o título nacional, conceitos importantes para obras cinematográficas, bizarramente agrupados na etiqueta Título. Dá para entender? Claro, usuários não idiotas, e quando não entendem um catálogo de biblioteca consultam a Internet Movie Database. Mas nem por isso é correto.

Se o título original e o nacional forem iguais vai ficar parecendo erro de digitação:

(ainda bem que não temos aquele filme sobre o ataque a Pearl Harbor intitulado Tora! Tora! Tora!)

E nos casos mais  confusos, como

um usuário mais distraído poderá  imaginar que o grande amor de Beethoven era ele mesmo. Bem, talvez fosse.

De qualquer forma, a solução para os títulos de filmes é difícil mesmo, por causa da bagunça feita pelo MARC nesse quesito.

O diretor, a equipe realizadora, os intérpretes  e até as empresas produtoras ficaram todos espremidos na condição de autores. Tudo bem, filmes são obras coletivas, mas existem diferenças no grau de importância dos participantes, e cada um deles tem sua função. O usuário, normalmente, gosta de saber quem fez a montagem, a fotografia, o roteiro etc. Todos esses nomes foram inseridos  no campo 700 com suas respectivas funções especificadas num subcampo, mas o usuário vai ficar sem essa informação por enquanto (uma coisa de cada vez). Tudo bem,   Google e  IMDB estão aí para isso mesmo.

Continuando nosso agradável passeio pelo registro, vamos encontrar no meio dos assuntos os termos FILME e FICÇÃO. Por quê? La dolce vita A doce vida não é um filme sobre FILME e sobre FICÇÃO, é um filme de ficção, termos que a gente insere no campo adequadamente destinado pelo precioso formato MARC para Gênero e forma (655). Mas não há meios de convencer o bibliomundo uspiano que assunto e gênero são coisas diferentes. Quando o Precioso oferece uma solução boa para o documento audiovisual essa é prontamente ignorada pelo pensamento livrocêntrico.

O país de produção e as empresas produtoras, dados importantes para usuários de  filmes, surgem misturadas aos dados de distribuição doméstica do DVD, informação de  interesse reduzido, sob a etiqueta Editor. Ótimo termo para catalogação de livros, mas não é preciso ser Federico Fellini para saber que o editor, para o usuário médio de filmes, é o sujeito que fez a edição (ou montagem) do filme. Na mesma linha de raciocínio, a data de produção do filme – importantíssima – e a data de distribuição do DVD – totalmente desimportante e inconsistente – viraram Data de publicação.

Essa baderna acontece porque todas essas informações de produção (da obra ou expressão) e as de distribuição (da manifestação) foram inseridas no campo 260 , repetitivo. É  a solução menos ruim oferecida pelo Precioso para registrar os dados de produção,  mas cria dificuldades na exibição do registro e na busca por data de produção.

Por último, idioma. A única informação disponível é o idioma original. Para saber se o DVD tem legendas ou opção dublada, procuro no Google e faço download  ilegal, assisto num serviço online qualquer ou passo na banca de jornal e compro uma cópia da coleção da Folha de São Paulo.

Uma das poucas vantagens que as bibliotecas deveriam ter em relação às demais fontes  mais simples e acessíveis seria a qualidade da informação que oferecemos. Deveriam? Bem, uma coisa de cada vez. Primeiro dizemos que somos ÓTIMOS, depois a gente prova.

Para quem chegou até aqui na leitura desse meu post, mais um pequeno esforço, como diria o Marquês de Sade. Está acabando, vamos ver só um exemplo de gravação de música.

Vamos tentar adivinhar. O autor é Gilberto Mendes e mais todo esse pessoal? Era tanta gente para compor uma música que foi preciso chamar um laboratório para ajudar? Nesse caso nem o Google resolve, talvez o usuário precise ligar para a Biblioteca da ECA ou consultar a pobre e velha base de dados em www-ISIS  nosso site dessa Biblioteca para descobrir  que Gilberto Mendes é o compositor e  os demais são os intérpretes. Cada um toca seu instrumento, essa informação foi inserida no banco, mas não pode ser visualizada.

E esses assuntos que não são assuntos? Obviamente, qualquer pessoa que já tenha escutado um disco uma vez na vida já entendeu que músicas não tratam de flautas e pianos, elas são interpretadas com esses instrumentos. Infelizmente, os mais de 40 anos de sólido trabalho na área de documentação musical da Biblioteca da ECA/USP não foram suficientes para garantir a criação de um campo para “meio de expressão” no Banco de Dados Bibliográficos da USP.

Também acho engraçado descobrir que uma obra musical instrumental tem idioma. Nesse caso, é o português (?!). Isso acontece porque o preenchimento do campo é obrigatório, e a gente precisa colocar o idioma do encarte, da capa … Se o disco fosse gravado na França, os violinos tocariam em  francês. Informação desnecessária e que pode confundir o usuário, mas obrigatória.  No formato MARC esse campo não é obrigatório para gravações musicais, mas isso não parece fazer muita diferença no caso, porque música não é importante. Ou talvez porque fazer essa modificação no banco de dados seja algo extremamente difícil, complicado, caro, dolorido ou obsceno, sei lá.

Custo a crer que seja muito difícil criar formatos de exibição específicos para filmes ou discos, afinal compramos o Primo. Ou será que não adquirimos o pacote ouro master super e ficamos com uma espécie de Primo pobre?

O Portal de Busca Integrada acabou de ser implantado, e não quero ser injusta com os colegas que  trabalharam muito e tiveram pouco tempo para colocar no ar o novo serviço. A culpa não é dos mais jovens, a responsabilidade é institucional. As questões do tratamento do documento audiovisual na USP já poderiam e deveriam ter sido resolvidas há muito tempo, mas vão ficando sempre para uma hipotética segunda etapa que nunca chega.

Parece que não ainda não conseguimos sair das versões preliminares.

Mas, afinal, quem se importa?


Ações

Information

7 responses

7 04 2012
Rinaldo Viana

Olá Marina,
Muito bem colocado esse problema!
Estou cursando biblioeconomia na UFSC e aprenderei nesse semestre a catalogar outros tipos de mídia. Vou disponibilizar seu endereço eletrônico no nosso fórum e sugerir para a professora de Catalogação II para discutirmos esse problema em sala de aula.
Obrigado!

8 04 2012
Marina Macambyra

Vocês vão estudar outros tipos de documento, ótimo! Agradeço a divulgação.

8 04 2012
Zaira

Marina, gostei muito das suas colocações! Mostra claramente a relação entre representação e apresentação. Discutiremos em sala! Abraço!

9 04 2012
Rafael Oliveira

Por favor, responda a um bibliotecário inexperiente: o novo RDA resolve estes problemas com descrição de materiais audiovisuais ou as encrencas persistem?

9 04 2012
Marina Macambyra

Rafael, ainda não estudei suficiente o RDA para saber se vai resolver todos os problemas. Vai melhorar, me parece, principalmente porque o RDA incorpora os princípios dos FRBR. O fato de começarmos a pensar o tratamento dos audiovisuais a partir da análise das entidades do Grupo 1 dos FRBR (Obra, Expressão, Manifestação e Item) já é um grande avanço. A meu ver, essa é a grande mudança. Vamos estudar!

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