Palavras ao vento

27 01 2012

Trabalho há muitos anos organizando um acervo de imagens de obras de arte, inicialmente formado por  slides e fotografias sobre papel, hoje principalmente por imagens digitais. A coleção se destina a atender aos professores e alunos dos cursos de artes que precisam de reproduções de obras de arte para estudar e analisar. Já foi um acervo bastante utilizado, mas hoje, por deficiências institucionais aliadas à concorrência da internet, não é tanto.

Os maiores problemas que a gente encontra na administração desse tipo de acervo são:

  • Encontrar as imagens que os usuários precisam. Comprar fotos ou slides era praticamente impossível e mesmo hoje, com tanta imagem circulando na web, é difícil localizar boas imagens das obras que a gente quer.
  • Identificar corretamente autoria, títulos e outros dados necessários ao tratamento da informação.
  •  Catalogar de forma correta, considerando que as regras tradicionais de catalogação são insuficientes e inadequadas para esse tipo de material – reproduções de obras de arte que são utilizadas como substitutas da obra original.
  • Dar acesso à coleção de forma simples e rápida.

Já analisei algumas dessas questões em meu trabalho com José Estorniolo Filho, Propostas para tratamento de imagens de arte.  Neste post vou me ater aos problemas de identificação das imagens com os quais já me bati ao longo dos anos.

Quando a gente começa a trabalhar com imagens descobre, logo nos primeiros 35 minutos de expediente, que imagens sem palavras raramente têm muita utilidade. Precisamos de palavras para poder catalogar as imagens e, antes de qualquer coisa, para saber o que são essas imagens.

O que é isso aí em cima? Um microorganismo qualquer ou uma obra de arte abstrata? Nada disso, é o fundo de um copo com um restinho de vinho fotografado em close, de cima, e eu só sei disso porque vi a foto sendo feita.

Fácil. São livros dentro de embalagens plásticas. Sim, mas por que estão dispostos assim, qual é a função desse agrupamento ensacado de livros? Estão à venda numa banca de camelô, é uma campanha publicitária sobre leitura e consumo de livros? Não, é um detalhe da instalação Torre de Babel, de Marta Minujin, montada e fotografada em Buenos Aires, junho de 2011.

E agora? A parte fácil: é uma obra de arte.  A parte difícil: quem é o autor, qual é o título da obra, sua data de criação, técnicas e dimensões? Pertence a algum museu, a um colecionador ou ao próprio artista? Sem pistas, uma pessoa que não seja um excelente conhecedor de arte vai ter sérios problemas para encontrar essas informações, imprescindíveis para catalogação e a posterior recuperação da imagem.  Mesmo um especialista pode ter dificuldades, se a obra não for bastante conhecida.

Uma pista: o artista é  Raoul Dufy. E uma péssima notícia para quem sonha em trabalhar em acervos de imagens de obras de arte: essa situação, uma obra identificada apenas com o nome do artista, é extremamente frequente na vida de quem trabalha com isso. Quem fotografou esqueceu de anotar, prometeu mandar depois e não mandou ou perdeu o livro de onde reproduziu a ilustração . É por aí.

Tendo o nome do artista é possível encontrar a obra, mas não é exatamente fácil. Você encontra a obra, mas não a identificação. Encontra algo parecido, mas a foto é muita pequena e em preto e branco, não dá para saber se é a mesma. Ou você encontra tudo, mas não sabe se pode confiar na fonte. É muito comum encontrar informações erradas até mesmo em fontes que parecem sérias. Na web, geralmente os sites de museus e galerias de arte, as revistas e bases de dados especializadas em arte e os sites dos próprios artistas são fontes confiáveis, mas mesmo assim,  quem não está habituado com a área de artes preciso tomar cuidado. Informações em blogs, sites de compartilhamento de fotografias, jornais e revistas que não sejam da área, por exemplo, precisam ser encaradas com muitas reservas. Fontes impressas como livros ou revistas de arte, catálogos de exposição, enciclopédias e dicionários são, em geral, mais confiáveis, mas isso não deve ser tomado como regra. Já encontrei, em três bons livros diferentes, a mesma obra abstrata impressa em três posições e jamais consegui apurar qual é a correta.  E também já levei muita bronca de professor que encontrou erro em título de obra no acervo …  Erros e broncas são inevitáveis nessa área.

Uma recomendação que sempre faço a estagiários, auxiliares e bibliotecários  em treinamento é não se esquecer de olhar a imagem com atenção. Sim, porque depois que as pessoas descobrem que sem palavras não dá para fazer muita coisa com uma foto, correm o risco de ficarem obcecadas em encontrar títulos e autores, e acabam por se esquecer da imagem. Já vi acontecer várias vezes. Depois de horas de busca frustrada por mais informações sobre determinada catedral, o estagiário me pede socorro. Examino o slide e percebo que a fotografia não é de uma igreja. Alguém anotou errado na moldura Igreja X, ou colocou aquele slide numa moldura reutilizada . Bibliotecária esperta me entrega o resultado de seu trabalho: imagens digitais primorosamente catalogadas, depois de exaustiva pesquisa para identificá-las. Seria perfeito se as fotos não estivessem desfocadas.  Outra que não olhou direito as imagens…

Essas imagens são um excelente exemplo de como um olhar atento poderia evitar erros de identificação:

Trata-se de um monumento localizado na cidade de Granada (Espanha), uma homenagem ao último rei “mouro” da cidade, conhecido como Boabdil. A primeira vez que vi uma foto dessa estátua, num banco de imagens comercial espanhol,  desconfiei da  identificação. De acordo com a legenda, o grupo de esculturas representaria  Boabdil e Morayma. Como eu já havia lido alguma coisa sobre o personagem, sabia que Morayma era a esposa de Boabdil.

Agora olhem bem para essas imagens. A personagem feminina parece ser uma princesa muçulmana, a mulher do sultão? Com saia curta e sem véu? Observem a posição das duas figuras: a moça está no chão, erguendo a mão como se oferecesse algo ao sultão, que parece ligeiramente surpreso em seu pedestal. É difícil ver o detalhe, mas é uma flor o que ela tem na mão.  Não é preciso entender muito de estatuária nem de história da arte para saber que não é dessa forma que os casais reais são habitualmente representados. Cheguei a pensar que o rei teria se casado com uma súdita, uma camponesa cristã, por exemplo,  e que a cena teria algo a ver com a história do casal. Uma pesquisa rápida mostrou que não, o sujeito era casado com uma mulher da nobreza muçulmana.  Como o monumento é uma homenagem da cidade ao sultão, imaginei que a figura feminina poderia representar o povo de Granada, mas queria saber ao certo.

Fiz uma busca em diversos outros sites, e em todos encontrei a mesma identificação, até mesmo em sites de turismo da própria cidade. Em apenas um dos sites consultados, o blog de um jornalista que escrevia sobre cultura andaluza,  encontrei informação diferente: a moça representaria a cidade de Granada.  Quando estive lá, não consegui deixar de procurar a estátua. Na placa de identificação consta apenas uma espécie de dedicatória do monumento, oferecido a Boabdil pela cidade de Granada. O nome de Morayma não é mencionado. Ora, o título real da obra não pode ter sido omitido na placa? Talvez, mas não acho provável.

Por que, então, não encontrei a informação correta em site algum? Simplesmente porque o erro original, não se sabe de quem, foi sendo copiado e reproduzido preguiçosamente por todos que publicaram a imagem. E porque ninguém deu à imagem uns poucos minutos de atenção, e nem procurou comparar de forma crítica imagem e legenda. Se um bibliotecário desatento ou um estagiário inexperiente assumir que a legenda está correta, o erro pode ir parar na base de dados de uma biblioteca onde, supostamente, as informações são tratadas com seriedade. E será perpetuado, até que alguém perceba e venha a bronca. Resumindo: imagens precisam de palavras, mas cuidado com palavras jogadas ao vento.

E caso você, curioso de plantão, ainda não tenha conseguido localizá-la, a obra de Raoul Dufy é:

A fada eletricidade
1937
Óleo sobre madeira
Museu de Arte Moderna da Cidade de Paris

A busca teria sido mais simples se eu tivesse dado como exemplo outra foto da mesma obra:

Acrescentar  “mural” a “Dufy” como termo de busca facilita muito a vida, mas nem sempre nossa vida é fácil, não é mesmo?

Crédito das fotos: todas as fotos deste post são da autoria de José Estorniolo Filho, exceto a primeira foto do monumento, que eu mesma fiz.

Algumas fontes de informação interessantes para imagens de arte:

Agência Fotográfica da Reunion des Musées Nationaux (França)

Joconde: catálogo das coleções dos museus franceses

British Museum

Scala Archives

Web Gallery of Art

Art Cyclopedia

Enciclopédia Itaú Cultural de Artes Visuais


Ações

Information

One response

1 02 2012
Miriam Fernandes

Adorei o texto, muito simples os exemplos e de grande valia para nós que muitas vezes nos perdemos em detalhes técnicos. Passarei as informações adiante.
Att.

Miriam

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