Indexando filmes numa tarde de sexta-feira

10 12 2011

Indexar filmes é um dos trabalhos mais divertidos e interessantes que os bibliotecários já inventaram para fazer. O que não quer dizer que seja um trabalho fácil.

Um dia desses eu estava às voltas com Mais uma noite , curta realizado por estudantes do Curso de Audiovisual da ECA/USP, produzido pela Escola. À primeira vista não me pareceu conter nenhum problema sério de análise, é um filme com enredo linear e sem grandes complicações, nada comparável aos trabalhos experimentais de difícil compreensão que os alunos às vezes produzem.

Conta mais ou menos a seguinte história: um rapaz e uma moça, ambos muitos jovens, se encontram numa balada. Carol, cansada de ser assediada por garotos que se aproximam já usando as mãos, tenta se livrar um deles abraçando Caio, com quem havia trocado um rápido olhar momentos antes. Os dois conversam um pouquinho. São inteligentes, irônicos e compartilham o mesmo tipo de humor. Um interesse genuíno parece surgir entre os dois mas, enquanto ela vai ao toalete, os amigos dele o convencem a investir numa menina mais fácil de levar para um hotel. A noite termina com os dois voltando para casa com suas respectivas turmas, com alguma decepção no olhar.

Comecei a aplicar o esquema que utilizo para indexar filmes de ficção:

 Caracterização dos personagens principais: profissão, gênero, faixa etária, natureza, etnia, nacionalidade etc.
  Época da ação
  Local da ação
  Ações, eventos, situações

Os personagens aparentam ter algo entre 18 e 20 anos, uma das meninas está na faculdade. Devo chamá-los de “adolescentes” ou de “jovens”?

Identificar, entender, nomear. Três processos importantes para a indexação de imagens, nem sempre de realização simples.

Para a Organização Mundial da Saúde a adolescência vai até os 20 anos, e os personagens me parecem tão infantis que minha tendência inicial é optar por “adolescentes”. Os diálogos e todo o contexto da história indicam que estamos no mundo dos adolescentes, mas talvez meu conceito de adolescente esteja desatualizado, porque não convivo com pessoas dessa faixa etária.

Quando indexamos imagens nossas experiências e visão do mundo interferem de forma mais decisiva na escolha dos termos do que ocorre com outras linguagens.

Enfim, fico com o termo “Adolescentes”. Uma parte dos usuários que recupere esse filme ao buscar “adolescentes” na base de dados vai concordar comigo, outra parte vai pensar que eu não entendo nada de adolescentes. Há que conviver com isso. O termo “Jovens” parece dizer menos sobre o conteúdo do filme, mas enquanto escrevo esse texto mudo de ideia e resolvo colocar os dois.

 Caracterização dos personagens principais Adolescentes

Jovens

Os termos constam do Vocabulário USP, que utilizamos na Universidade de São Paulo para indexar todos os tipos de documentos, em todas as áreas. Essa abrangência tão grande traz alguns problemas, que pretendo comentar em outra oportunidade.

A época não está indicada de forma explícita no filme. Não há letreiros, não há diálogos em que a época seja citada, não há imagens que situem esses personagens no tempo de forma inequívoca. É possível deduzir, pelo forma de falar e de vestir, que a ação transcorre mais ou menos na época em que o filme foi realizado, em 2009. Mas a época, por si só, não é um elemento tão relevante nesse filme que justifique ser um termo para busca. Minha decisão de não considerar esse elemento é consciente, mas também tenho consciência de que, dentro de alguns anos – dez, quinze e até menos – alguém poderá procurar um documento qualquer que retrate o comportamento dos jovens no final dessa primeira década do século 21. Daqui a 15 anos talvez elementos que hoje não me parecem muito característicos da época atual adquiram relevância para o pesquisador. Como saber? Quando vejo filmes que indexei há 15 anos às vezes considero que são bons documentos para analisar a época, às vezes não.

E vamos para o local. O ambiente é urbano, mas não é possível identificar a cidade. E mesmo que fosse possível, a cidade aparece muito pouco no filme, não faria sentido indexar pelo seu nome. Os personagens dizem que estão numa “balada”. Dúvidas me assaltam. Balada é o nome do evento social, algo parecido com “festa” ou com o “baile” de antigamente? Balada também não poderia ser o nome do local? Pergunto para a estagiária, única jovem presente no recinto da biblioteca. Ela acha que a palavra tem os dois sentidos, mas avisa que os adolescentes não estão mais usando o termo. Não sabe qual seria a palavra da moda, mas já foi chamada de velha ao falar em balada, minha estagiária de 20 ou 21anos.

A balada que já existe no Vocabulário USP é uma forma musical, portanto não me serve.Poderia solicitar a inclusão de um novo termo com outra acepção, mas tenho minhas dúvidas quanto a propor um conceito novo difícil de definir, e que amanhã talvez já tenha caído em desuso. Desisto da balada com certa frustração porque afinal, considerando apenas o conteúdo do filme, balada seria um ótimo termo.

E como chamar, afinal, o local onde transcorre quase que a totalidade da ação do filme? É um local onde as pessoas dançam, bebem, paqueram. Um bar, uma boate, uma danceteria? Ainda se usam esses termos? Diante da impossibilidade de pesquisar, porque Mais uma noite não é o único filme que preciso indexar antes da minha jornada terminar, procuro uma solução aceitável no Vocabulário USP. O termo que mais se aproxima é Casas noturnas. Sem muitas alternativas, fico com ele.

 Local da ação  Casas noturnas

O filme trata, sobretudo, do comportamente da juventude em relação a relacionamentos, sexo, namoro, paquera. E também das pressões dos grupos sobre os indivíduos, da necessidade de autoafirmação da molecada. Sim? Não? Estou fazendo interpretações muito pessoais? Talvez, mas não são interpretações descabidas, logo tento encontrar um termo que descreva bem esses assuntos no Vocabulário USP, que não foi concebido para indexar filmes de ficção. Eu preciso usar o Vocabulário USP, não sei se já mencionei.

Encontro o termo “Relações homem-mulher”. Bem, é isso, mas o termo da área de Psicologia parece um tanto sisudo para o nosso filme. Continuo procurando e topo com “Comportamento de corte (humano)”. Anos de prática em indexação me ensinaram que, quando a coisa começa a ficar engraçada, é hora de desistir. Se eu estou achando engraçado, imaginem o usuário … Opto pelo termo mais geral “Comportamento”.

 Ações, eventos etc  Relações homem-mulher

Comportamento

E o que mais? Se eu indexasse de forma mais específica, com o foco em sequências isoladas, gostaria de usar “Pessoas bebendo” e “Pessoas dançando”. Se fosse indexar dessa forma, teria que propor ao Vocabulário USP a incorporação de frases como essas, que são fundamentais para indexar imagens. Mas esse problema fica para o futuro. Por enquanto, a presença de pessoas bebendo ou dançando será sugerida pelo termo que designa o ambiente. É o que dá para fazer.

E aí? Alguém gostaria de discutir minha indexação? Pode ser divertido. Se não estiverem interessados, pelo menos vejam o filme dos meninos:

http://youtu.be/ir7imfwUVQ8

Leituras

Esse modelo para indexação é algo que fui desenvolvendo a partir das perguntas e pedidos dos próprios usuários da coleção de filmes da Biblioteca da ECA. Trabalhei atendendo ao público por mais de 10 anos, numa época em que o usuário se dirigia aos bibliotecários com mais frequência do que acontece hoje, que todos pensam que sabem fazer buscas sozinhos. Trata-se de um método resultante da prática profissional e da interação com o público, mas não é, de fato, invenção minha. É uma forma de indexar, como descobri depois de começar a aplicá-la, bastante usual no campo da indexação de obras ficcionais. Essas facetas são adotadas no Tesaurus for indexing fiction, de Eiler Jansson e Bo Södervall e no Kaunokki: the Finish thesaurus for fiction, experiências escandinavas analisadas por Saarti (p. 89-90). Baseando-se em pesquisa com usuários de bibliotecas públicas, Annelise Pejtersen desenvolveu o método considerado por Lancaster (p. 193) o mais aprimorado para indexação de literatura de ficção, que inclui época, local, conteúdo temático,ação e curso dos acontecimentos entre as dimensões propostas para indexar obras ficcionais (PEJTERSEN, p. 254). Lancaster considera que se pode atribuir um termo de indexação a uma obra de ficção para representar seu tema ou temas centrais, fatos ou situações que ela pode exemplificar e o ambiente em que ela se situa, em suas dimensões espaciais, temporais e de personagem (LANCASTER, p. 190). Um estudo realizado a partir de questões enviadas por e-mail ao Deutsche Film Institute no período de um ano identificou, entre as perguntas relacionadas ao conteúdo dos filmes, local e época como as mais frequentes (HERTZUM, p. 177). O Laboratório de Investigação Audiovisual do Instituto de Arte e Comunicação Social e da Universidade Federal Fluminense propôs um modelo para representação de filmes de ficção do qual fazem parte as facetas gênero, registro temporal da trama, gancho temporal, referência histórica e temas, entre outras. (CORDEIRO e AMÂNCIO, p. 92).

CORDEIRO, Rosa Inês de Novais; AMÂNCIO, Tunico. Análise e representação de filmes em unidades de informação. Ciência da Informação, Brasília, v. 34, n. 1, p. 84-90, jan./abr. 2005.

HERTZUM, Morten. Requests for information from a film archive: a case study of multimedia retrieval. Journal of Documentation, v. 59, n. 2, 2003, p.168-186.

LANCASTER, F. W. Da indexação e redação de resumos de obras de ficção. In.: Indexação e resumos: teoria e prática. Brasília, Briquet de Lemos / Livros, 2004, p. 189-199.

PEJTERSEN, Annelise Mark. The meaning of “about” in fiction indexing and retrieval. Aslib Proceedings, v. 31, n. 5, 1979, p. 251-257.

SAARTI, Jarmo. Fiction indexing and the development of ficcion thesauri. Journal of Librarianship and Information Science, v. 31. n. 2, 1999, p. 85-92.


Ações

Information

5 responses

14 12 2011
Luiz Claudio França dos Santos

Parabéns Marina pela idéia, assinado, o gordo do Luiz!

14 12 2011
Marina Macambyra

Obrigada, Luiz! Você é gordo mas é lindo!

15 12 2011
Cristine

Marina, gostei muito da descrição do processo de indexação dos filmes, muito útil. Seu blog, será de grande ajuda para os alunos de biblioteconomia. Meus parabéns pela inciativa!

13 01 2012
Andréa de Carvalho Pereira

Parabéns pela iniciativa Marina.

16 01 2012
Meire

Adorei! Marina, pela 1ª vez lí textos de biblioteconomia agradáveis, interessantes e úteis, sem a arrogância do academicismo vazio. A área de informação revela-se muito instigante sempre que a encaramos com olhos curiosos e questionadores. Cada novo documento e/ou pesquisa, é um novo quebra-cabeças a nos desafiar. Parabéns!!

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