A regra do jogo

11 01 2012

Por que não se deve catalogar filmes como se fossem livros?

Bibliotecários muitas vezes me olham com certo estranhamento quando critico a forma como a catalogação tradicional trata filmes. Imagens em movimento, na verdade. Aos olhos de catalogadores de livros e textos em geral, uma ficha catalográfica ou um registro MARC de um filme parecem tão coerentes e arrumadinhos, não? Dá uma sensação tão confortável quanto entrar num bom quarto de hotel que a gente já conhece e aprecia.
Bem, então vamos experimentar olhar com olhos de usuário. Todos nós vamos ao cinema, assistimos televisão e DVDs, portanto todos somos usuários de filmes.
Em qualquer fonte especializada de informações sobre cinema, base de dados de filme de caráter acadêmico ou comercial, em qualquer programação de cinema, nas críticas publicadas nas boas revistas, nas filmografias ou nos sites de filmes, vamos sempre encontrar mais ou menos as seguintes informações principais:

Título original
Título de distribuição no país da fonte de informação (a revista, o site etc)
País de produção
Data de produção
Diretor, elenco e outros integrantes da equipe realizadora

Precisamos do título original do filme, aquele que a obra recebeu em seu país de produção, para podermos reconhecê-lo. Para saber que O caçador de andróides é Blade runner e Uma mulher para dois é Jules et Jim. E que Antônio das Mortes é O dragão da maldade contra o santo guerreiro. Mas também precisamos do título que o filme recebeu aqui no Brasil para saber que Hakuchi é O idiota, de Akira Kurosawa e que Das weiße Band – Eine deutsche Kindergeschichte é A fita branca, de Michael Hanecke.

O país de produção do filme é importante porque podemos não gostar de filmes americanos ou italianos, ou estamos fazendo um trabalho sobre o cinema francês, ou queremos saber um pouco sobre o Chile assistindo filmes desse país.

A data de produção é fundamental por motivos semelhantes. Por exemplo, eu não gosto dos filmes que os Estados Unidos fazem hoje, mas gosto dos que faziam nos anos 60. Você pode estar estudando o cinema europeu dos primeiros anos do pós-guerra, ou o cinema alemão produzido durante o período nazista. Ou precisa de imagens da atriz Bette Davis jovem. Para sair um pouco do domínio da ficção, imagine que você está procurando imagens do centro de São Paulo em 1950 ou quer saber como era o Partenon antes da última restauração e tente encontrar os filmes certos numa base de dados que não informe em que ano as imagens foram produzidas.

Podemos encontrar mais ou menos informações, mas essas aí raramente faltam, porque precisamos delas para identificar ou escolher o filme. Observem os exemplos do tratamento dado ao filme francês Acossado (À bout de souffle, 1960), de Jean-Luc Godard:

British Film Institut

Mais detalhes no link do BFI.

Internet Movie Database

Clique na imagem para ampliar. Mais detalhes no link do IMDb.

Até mesmo num site de locadora e revendedora comercial de DVDs, cujo foco é, portanto, a edição específica em DVD que está sendo vendida, podemos observar o cuidado em fornecer as informações mais importantes sobre a obra original:

2001 Vídeo

Clique na imagem para ampliar

Nas revistas especializadas vamos encontrar mais ou menos a mesma coisa, embora eu não tenha exemplos do mesmo filme:

Revista Sight & Sound

Revista Cahiers du Cinéma

Se quiserem ver mais exemplos, façam buscas nos sites da Cinemateca Brasileira, da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo ou  no Filmarchives Online.

Viram? Agora vamos ver como os bibliotecários catalogam filmes:

World Cat

Clique na imagem para ampliar. Mais detalhes no link do World Cat.

Não temos o título original do filme, apenas o título para distribuição nos Estados Unidos e outros países de língua inglesa. De cara isso pode criar dúvidas para um usuário com pouca informação sobre cinema, porque existe uma refilmagem  americana de 1983 com esse título, dirigida por Jim McBride. Também não vemos o país de produção e a data só aparece timidamente escondida lá nas notas, em meio a diversas outras informações menos relevantes.

Entretanto, em local de destaque logo após os autores, e com a etiqueta “Editora”, vemos os dados da distribuidora em DVD desse filme dos Estados Unidos. Uma informação que tem seu interesse para o usuário, mas que não é tão importante para a identificação do documento quanto o país e a data de produção. Colocados dessa forma no registro, esses dados podem até mesmo confundir o usuário.  Estados Unidos? 2010? Como assim, será que esse é o filme que estou procurando?

O diretor, o produtor e três dos atores surgem identificados com “autores” e sem especificação de suas funções no filme. Já o diretor de fotografia, sabe-se lá por qual razão, aparece sozinho nos créditos.

Essa catalogação é tão estranha que, no limite, pode dificultar a recuperação da informação e o reconhecimento do documento tratado. Mas é uma catalogação que, de acordo com as regras o AACR2, está correta. Poderia estar mais completa, mas não está errada.

O conceito de título original sequer existe no AACR2. O que existe para essa norma tão popular é o título principal, definido como “o nome principal de um item, incluindo qualquer título alternativo, mas excluindo títulos equivalentes e outras informações sobre o título” (CÓDIGO …, 2004, Apêndice, D-15). Acontece que o item, para a catalogação tradicional, é o documento que o catalogador tem em  mãos. Seguindo essa lógica, é perfeitamente possível que o catalogador de um filme francês distribuídos nos Estados Unidos conclua, como no exemplo acima,  que o título principal é aquele que aparece na capa do DVD ou vídeo, já que as fontes principais de informação são, segundo o AACR2, o próprio item e seu “contêiner”. E mesmo que nosso catalogador trabalhe direito e resolva visualizar os créditos do filme, poderá não encontrar o título original logo no início do filme. Em alguns casos, o título só vai aparecer depois de alguns minutos ou mesmo apenas no final do filme. Diante disso, talvez esse colega opte pelo título que encontrou com mais facilidade. Ou então, pode topar com a seguinte situação:

São muitas as oportunidades para o bibliotecário pode deixar de lado justamente o título original do filme, uma informação tão importante para o usuário. A solução seria adotar a orientação das regras da Federação Internacional dos Arquivos de Filmes, que considera o título original como o título principal do filme, ainda que esse não conste do documento tratado (FÉDÉRATION …, 1991, p, 13). Essa decisão nem estaria em desacordo com o precioso AACR2 que, afinal, não dá instruções muito precisas para escolha de títulos de filmes e nem diz, a rigor, que não podemos optar sempre pelo título original.

Quanto ao país de produção, já existe no formato MARC, desde 1998, um campo específico para registrá-lo, o 257. Infelizmente esse campo parece ainda não ser muito popular entre os bibliotecários que catalogam filmes, talvez porque não haja  no AACR2 uma regra que preconize o registro dessa informação como obrigatória. A data de produção não tem campo específico no MARC, e muitas vezes os bibliotecários que sabem de sua importância a registram no campo 500  de Notas Gerais  – o popular lixão dos catalogadores –  por falta de opção. Outra solução admitida pelo MARC é  o campo 260 subcampo c, que não é o ideal, mas é melhor do que o lixão. Mas também não a vejo sendo muito utilizada quando faço buscas na Online Computer Library Center (OCLC)  para fazer catalogação copiada no Banco de Dados Bibliográficos da USP, torcendo para NÃO encontrar um registro que eu precise copiar – porque raramente encontro um registro bem feito que compense o trabalho de copiá-lo.

A raiz do problema é novamente a mesma: tratar o item em mãos. De acordo com nosso velho AACR2, na área de Publicação, Distribuição etc devem ser indicados o local (entendido como cidade) de publicação, a distribuidora e a data de distribuição do item que está sendo analisado. Fazendo analogia com a catalogação de livros parece razoável, mas no fundo é privilegiar uma informação de importância secundária  e mandar para o lixão das notas gerais as informações que ajudam a definir e identificar o filme. E além disso, é muito raro encontrar a cidade da distribuidora e a data de distribuição do vídeo ou DVD, justamento porque essas informações são perfeitamente desimportantes. O nome da empresa distribuidora tem seu interesse para o usuário, porque pode ajudá-lo a avaliar a qualidade técnica do material, mas cidade e data são informações que só interessam aos bibliotecários no momento de fazer a famosa catalogação copiada.

A questão da autoria das obras cinematográficas também não é bem resolvida pelo AACR2 e formato MARC. Filmes são, em geral, criações coletivas de uma equipe com variados graus de responsabilidade em relação ao conteúdo do trabalho. Um catalogador que não esteja familiarizado com as funções de uma equipe realizadora e com a terminologia utilizada nos créditos dos filmes terá, certamente, muitas dúvidas sobre o que registrar no campo 245 subcampo c do formato MARC (Indicação de responsabilidade).  A orientação do AACR2 é registrar os participantes “considerados de maior importância” ou seja, os que figuram “com destaque no item”, remetendo às notas os demais integrantes da equipe. Diante das dificuldades em interpretar essas instruções tão vagas, os catalogadores tomam decisões extremas. Há os que não colocam ninguém, privando o usuário de informações importantes, e há os que colocam muitos nomes sem grande relevância, poluindo desnecessariamenteo registro e confundindo o usuário. Pretendo escrever um post sobre esse assunto, que é complexo e interessante. Bem, pelo menos para quem gosta de catalogar filmes.

Observem esse outro exemplo extraído do Wordcat, que também não é muito melhor do que o primeiro:

Ausser Atem

Se vocês fizerem outras buscas encontrarão, com certeza, registros melhores, mas também há piores.  O problema não são os bibliotecários, mas a adaptação de regras criadas para livros aos demais documentos, sem levar em conta as necessidades dos usuários e a própria natureza desses documentos.

E o RDA (Resource Description and Access), vai melhorar o panorama da catalogação de imagens em movimento? A grande vantagem no novo código é o fato de se basear no modelo dos Requisitos Funcionais para Registros Bibliográficos (FRBR). Pensar a catalogação de filmes com foco nas quatro entidades do Grupo 1 dos FRBR – Obra, Expressão, Manifestação e Item – deve permitir um tratamento mais adequado das complexidades desse tipo de documento, mas o RDA  ainda precisa ser analisado e testado.

No Manual de catalogação de filmes da Biblioteca da ECA faço algumas comparações entre a catalogação tradicional, a metodologia local dessa Biblioteca e os FRBR.

Sugiro a leitura dos artigos:

CHEW, Chiat Naum; ELHARD, Kathryn C. Cataloguing, lies and videotape: comparing the IMDB and the library catalogue. Cataloging and Classification Quarterly, New York, v. 41, n. 1, p. 23-43, 2005.

McGRATH, Kelley; BISKO, Lynne. Identifying FRBR work-level data in MARC bibliographic records for manifestations of moving images. Code4Lib Journal, [s.l.], n. 5, p. 12-15, 2008.

YEE, Martha M. FRBR and moving image materials: content (Work and Expression) versus carrier (Manifestation). Oakland: University of California, 2007.

Para quem quiser se aprofundar no estudo de catalogação e metadados de filmes, recomendo o site Metadata Standards for Cinematographic Works, que traz links para alguns padrões de metadados europeus e para a wiki da Comissão de Catalogação e Documentação da FIAF, onde podemos acompanhar o processo de revisão das normas de catalogação dessa instituição.

Porque filmes não são livros.

Referências:

CÓDIGO de Catalogação Anglo-Americano. 2. ed. rev.  São Paulo: FEBAB: Imprensa Oficial, 2004.

FÉDÉRATION INTERNATIONALE DES ARCHIVES DU FILM. The FIAF cataloguing rules for film archives. München: K.G. Saur, 1991. Disponível em <http://www.fiafnet.org/pdf/uk/FIAF_Cat_Rules_-_1.pdf&gt; Acesso em 10 jan. 2012.

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5 responses

18 01 2012
renato (eca)

Olá Marina macambyra, o seu artigo é muito interessante e traz novas questões e direções para o bibliotecário. Agradeço o artigo e continue publicando.
Abs

19 01 2012
Rose Marques

Marina, essa forma de catalogação é muito particular e meticulosa. Dividir suas experiências nesse blog, é muito enrequecedor para a nossa profissão. Um Abraço!

7 04 2012
Calma, uma coisa de cada vez … « A imagem, o som, o tempo

[…] em campos MARC e exibidos num formato de fichinha de livro. O formato MARC, como expliquei no post A regra do jogo, tem problemas conceituais sérios quando se trata de catalogar […]

25 03 2014
A grande ilusão | A imagem, o som, o tempo

[…] A regra do jogo […]

30 03 2014

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